terça-feira, 12 de março de 2013

Livros e Dilemas.


"...mas os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro
 Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo"
Caetano Veloso. 


Há muito gosto de tê-los por perto. Mentira seria dizer que adquiri o hábito da leitura desde muito cedo. Não. Lia por obrigação e, apenas os livros indicados nas aulas de língua portuguesa, que seriam objeto de prova no colégio. E não era por falta de estímulo, pois meus pais sempre tiveram muitos exemplares em casa e assim também era na casa dos meus avós. Olhava-os, achava-os bonitos em suas encadernações e pensava que deveria me dedicar a ler, ao menos alguns deles.

O contato visual lançou-me em reflexão sobre a razão de minha indisponibilidade. A resposta não tardou; eu era jovem demais e tinha muitas coisas a fazer, como por exemplo; ginástica olímpica, natação, tênis, judô...eu era muito ocupada. Nessa época, mesmo estudando em colégio de freiras, decidi abandonar as aulas de catecismo que cursava, pois meu tempo estava curto; ou saía de uma dessas modalidades esportivas ou do catecismo. Nunca fiz primeira comunhão e, tanto na formatura do colégio quanto na da Faculdade de Direito, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), não comunguei. Em ambas as ocasiões, mantive-me com um sorrisinho em silencioso orgulho por não entrar numa fila em busca da hóstia.

Voltando aos livros, o que me impedia, enfim, era a falta de tempo para descobri-los, essa foi a conclusão da Susana adolescente. Um dia, a professora do colégio disse que haveria uma prova sobre um livro de livre escolha, mas deveria ser um clássico; fosse de um autor da língua portuguesa ou não. Adoro o “ou não”. Qual seria o meu clássico? Na casa dos meus avós paternos havia duas estantes bem altas e cheias de livros. Dentre tantos, encontrei uma coleção de livros vermelhos chamada “Teatro Vivo” e entre eles estava “Édipo Rei”. Bem, eu não era íntima dos livros, como disse mais acima, e achei melhor averiguar com meu pai se esse tal de Sófocles poderia ter sua obra enquadrada no quesito “clássico”. Podem rir.

Os livros dessa coleção tinham uma estrutura interessante. O início contava sobre algumas montagens teatrais mundo afora e também no Brasil e falava quais atores e atrizes interpretaram seus personagens. Essa parte era ilustrada com fotos lindas das atuações. A segunda parte era o livro propriamente dito, mas em estrutura teatral, separado por falas dos personagens e até com indicação das pausas e do fim dos atos das peças. Daí o nome; Teatro Vivo.

Podem imaginar o que foi isso para uma adolescente não habituada aos livros? E a linguagem teatral? Aquelas falas de um personagem em sofrida reflexão por páginas e páginas seguidas. Sim. Nada fácil, mas a trama era instigante o suficiente para que eu não me desse por vencida pelas dificuldades encontradas no caminho; fui até o fim para saber o destino de Édipo. E gostei, gostei tanto que continuei a ler alguns outros livros da coleção, sendo que muitos dos autores eu não conhecia, nem de ouvir falar. Antes tarde do que nunca. Assim iniciei meu relacionamento com os livros, depois de “Édipo Rei” vieram “A profissão da Sra. Warren” (B. Shaw), “Entre quatro paredes” (P. Sartre), “A morte do caixeiro viajante” (A. Miller), “Um bonde chamado desejo” (T. Williams), “Casa de Bonecas” (Ibsen), “O arquiteto e o imperador da Assíria” (F. Arrabal), “Volta ao lar” (H. Pinter) e “Hamlet” (W. Shakespeare). Sim eu sabia quem era esse último, também não é para tanto.

Quando eu comecei com isso, tinha entre treze e quatorze anos. Alguns deles foram realmente impactantes; lembro-me como me impressionava com “Volta ao Lar”, quão chocada, porém interessada, eu ficava com o andamento da trama e dos diálogos cruéis e fluídos dos personagens.

O grande barato era chegar da escola, almoçar e me jogar no sofá com uma das pernas no encosto e começar a busca pela próxima intriga. Na sequência e, por exigência das bancas examinadoras de vestibulares, comecei a ler Machado de Assis, Graciliano Ramos e outros. Não me esqueço dos dois senhores porque, apesar da necessidade adorei o estilo deles, sendo que de Machado não só li o título indicado pela banca, como também alguns outros. A poesia de Manuel Bandeira cativou-me ao escutar seus versos declamados por um professor de Literatura.

Carlos Drummond de Andrade foi-me apresentado por Tom Jobim, por quem eu morria de amores e cujas músicas não saiam do meu toca-fitas. Poema da Necessidade foi lido por ele em meio a paisagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com uma de suas músicas ao fundo. A partir desse dia, Drummond ganhou uma fã.

À margem da necessidade escolar, passei a explorar os exemplares que estavam disponíveis em casa; Fernando Sabino causou-me calafrios com as agruras de “O homem nu”. Sonhei várias vezes com minha própria nudez. Um tormento. 

Essa foi minha iniciação. Depois vieram muitos outros, sendo que outros tantos tardaram ainda mais a serem descobertos e precisaram de uma apresentação formal de excelentes intermediários que, praticamente pegaram em minha mão e mostraram que a resistência em conhecer um estilo ou um(a) autor(a) pode se transformar depois em incômoda sensação de perda de tempo.

Ao contrário das minhas convicções de adolescente, agora protelo para inscrever-me em uma academia de ginástica, pois sigo muito ocupada e, caso perca uma hora do meu curto dia praticando uma atividade física, é uma hora que perco da minha leitura noturna. Talvez a Esfinge tenha a resposta para o dilema tempo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Felicidade e Solidão.

Parecem excludentes. E penso que são, para a maioria das pessoas. A felicidade requer o outro para amar e ser amado. Solidão? O que teria ela a acrescentar na dinâmica da felicidade?


Na verdade, não me fiz essa pergunta, pois não vejo a solidão com maus olhos. Há momentos em que a desejo muito em meio ao cotidiano de afazeres e compromissos. Gosto dela. E desfruto dos momentos em que nos encontramos, pois são raros e preciosos.

Houve um tempo em que éramos íntimas, mas então eu almejava que nossos encontros fossem menos freqüentes. Natural, suponho.

Justamente por conta disso, foi que o título “Felicidade através da Solidão” não me causou estranheza, mas sim me jogou em inquietante curiosidade. Qual seria a história desse Ensaio, cujo autor, teima em não mandar um de seus originais para uma editora a fim de se testar?

Em minha nada abalizada opinião, parece-me que suas tramas despertariam interesse, porém, meu amigo prefere insistir no anonimato absoluto, primo da solidão. Apenas algumas pessoas tem a oportunidade de mergulhar num mundo de sentimentos como curiosidade, ansiedade, aflição e angústia, para só então constatar que todos os temores em que foram lançados, ao final, se concretizarão.

Não. Não é obviedade que descreve a narrativa tensa desse Ensaio. Os elementos são disponibilizados desde o início como peças de quebra-cabeças que, juntando-as, vão contornando aquele final que parece inevitável. O desfecho é desenhado ao longo de todo o texto e não apenas no último capítulo ou derradeiras frases.

"Felicidade através da Solidão" não é um texto longo; tem 152 páginas, das quais li trinta na noite em que chegou às minhas mãos e as outras 122 na noite seguinte; o que me lançou em insone reflexão. O sono que me vence em minhas leituras noturnas, dessa vez foi impiedosamente afastado por momentos de tensão, incredulidade, tristeza e nostalgia.

E apesar de o autor não descrever fisicamente seus personagens, atendo-se mais aos gestos e construções de perfis psicológicos, o rosto e o olhar de Letícia se revelaram a mim em sua primeira aparição.

A trama se passa no final do século XIX e início do XX, quando os produtores de café estavam em franca decadência financeira e de valores, tidos até então como inabaláveis.

O tempo é longínquo, mas a Solidão e a Felicidade são questões atemporais e, que nesse Ensaio, formam um belo casal.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Arquitetura e Malícia.


No dia 03 de janeiro de 2013 o pequeno Dante foi conhecer o estádio “La Bombonera”, o templo cheio de malícia do Clube Boca Juniors. A paixão começou quando minha sogra o presenteou com uma camisa oficial do clube enquanto acontecia a Libertadores da América do ano passado. Para quem não sabe, sou corintiana e vinha, timidamente, o convencendo a torcer pelo timão. Até então tudo ia bem e, no final de 2011, comemoramos juntos o título de campeão brasileiro.

O fato é que quando meu pequeno botou suas mãozinhas naquela camisa, tudo mudou de maneira repentina e, desconfio, irreversível. Vestiu a camisa em todos os sentidos. Lembro-me de uma manhã em que passava na tevê a notícia da vitória do Boca sobre não sei que time pela Libertadores. Ao assistir às imagens dos melhores momentos e dos gols, Dante começou a gritar o nome do Boca e agitar os braços em comemoração. Aí foi que me dei conta e pensei: “Perdi”.

Como sabemos, o embate foi inevitável e a final da Libertadores da América foi protagonizada por Boca e Corinthians. Adrián, meu marido, mesmo sendo torcedor do Colón de Santa Fé, não aguentou a pressão de Dante e cedeu aos seus apelos chorosos para que torcesse pelo Boca, apesar de meus protestos injuriados. Por óbvio, a paixão de Dante o enterneceu mais.

O primeiro jogo foi em “La Bombonera” e sem tomar conhecimento de toda a pressão e ajuda arquitetônica do estádio, Romarinho fez um gol que nos deu a vantagem. A última partida foi no Pacaembu, mas essa torcedora cautelosa não cantou vitória antes do tempo e assistiu nervosíssima àqueles 90 minutos que dariam o título inédito ao timão.

Obviamente, Dante não assistiu ao jogo, pois dormia. Na manhã seguinte comuniquei-lhe orgulhosa a vitória. Ele não acreditou. Liguei a tevê para comprovar. Ao assistir os melhores momentos ele se apegou a uma imagem em que Émerson estava sentado no gramado tentando morder a mão de um jogador do Boca que estava em pé ao lado dele. Olhou bem seriamente para minha cara e disse: “Viu, o Colintias perdeu, ele tava caído e o Boca tava em pé, o Boca ganhou.” Expliquei que aquilo não era MMA ou coisa que o valha, mas ele já tinha encontrado a solução para não admitir a derrota. Eu que não o incomodasse mais.

E cada vez que eu repetia que o timão era o campeão da Libertadores da América ele respondia indignado: “Não é nããããããão, é o Boca! Só o Boca que ganha.” A minha felicidade foi cerceada dentro da minha própria casa. O jeito foi aceitar os fatos; meu filho brasileiro e carioca escolheu torcer pelo Boca. E foi por essa desmedida e típica paixão de torcedor que Adrián e eu resolvemos levá-lo para conhecer o estádio do Boca; a lendária Bombonera.

Ao chegar, passamos pelo museu, onde Adrián mostrou a quantidade de Libertadores conquistada pelo time, finalizando assim a explanação com tom piedoso; “O Corinthians só tem uma, filho.” Aproveitei a oportunidade para esclarecer que o Independientes conquistou mais Libertadores do que o Boca. O meu fervoroso torcedor conheceu um pouco da história, dos títulos, troféus e personagens do clube. Os olhinhos esverdeados brilhavam e o sorrisinho satisfeito não lhe saia da cara.
E eis que se inicia a visita guiada pelo estádio. De saída o guia comentou que, na época em que “La Bombonera” fora concebida era comum os estádios serem em forma de ferradura. Anos mais tarde, quando o clube quis fechar a ferradura e dar uma cara mais padronizada e em consonância com os demais estádios, não foi possível, pois havia uma casa no caminho do projeto de expansão. Todas as casas vizinhas foram compradas, menos uma. O valor foi elevado várias vezes, mas o dono não cedia. Um dia, resolveram perguntar a ele a razão, já que o clube chegou à conclusão que não era dinheiro o problema. Realmente não, respondeu ele. O fato é que ele era torcedor do River Plate, portanto, não faria absolutamente nada que pudesse beneficiar o rival. Assunto encerrado.

Essa é apenas uma das particularidades da arquitetura. Ao entrarmos no estádio vimos onde fica a “12”, torcida organizada do Boca. Um lugar com vista privilegiada. Depois, o guia apontou os 3.000 lugares reservados à torcida visitante; o último andar da arquibancada, num ângulo de 45º em relação ao gramado. Péssimo. E dependendo do horário, ainda pega o sol na cara. Outro ponto interessante é que “La Bombonera” ainda conserva aquele espaço que, atualmente, já não tem mais nos estádio modernos; a geral. Os torcedores da geral ficam logo abaixo da torcida organizada, a “12”, e bem em cima do que? Do vestiário do time visitante. Sim. E eles pulam organizadamente...e gritam bem alto que é para os jogadores não conseguirem ouvir o treinador e, com alguma sorte, saírem dali completamente tontos e com a cabeça e os ouvidos zunindo. O vestiário do Boca? Ah sim...silencioso, como também o é o dos árbitros, para que possam relaxar.

A entrada em campo. O corredor vai do vestiário do Boca até o meio do campo, para uma entrada triunfal. O corredor do time visitante até o campo desemboca num dos escanteios. Para assegurar uma entrada tímida.

O ponto alto, no entanto, encontra-se na parte externa, quando os jogadores do time visitante ainda estão por ingressar no estádio. Essa é sem dúvida a mais ostensiva. O guia nos mostrou uma portinha e nos perguntou se a achávamos pequena. Sim, era. Depois esclareceu que jogadores um pouco mais altos, tipo 1,80 m., tinham que abaixar a cabeça para passar pela porta e, assim...fazer uma reverência obrigatória a “La Bombonera”. Não é genial? Depois fomos averiguar a porta por onde passam os jogadores do Boca...devia ter 4 metros de altura. Eu gostei tanto dessa arquitetura desportivamente incorreta. É de um humor ímpar.

Uma curiosidade a mais; o estádio tem esse nome porque o arquiteto contratado para a elaboração do projeto ganhou uma caixa de bombons e achou que o estádio se parecia com ela; daí o nome.

Bem, Dante adorou a visita e logo de início, para demonstrar todo o seu amor pelo clube, começou a cantar a música da torcida: “Si si señores, yo soy de Boca. Si si señores de corazón. Porque este año desde la Boca, desde la Boca sale el nuevo campeón”. O guia não acreditava e espantado o aplaudiu junto com alguns outros visitantes que ali estavam; a maioria esmagadora de brasileiros e corintianos. Perguntou-me quantos anos ele tinha e depois me informou que dali a pouco Dante estaria na “12”.

Ao final, quando o guia quis saber se alguém tinha perguntas a fazer, eu realmente pensei em perguntar se tudo aquilo tinha sido concebido por um arquiteto ou se foram “adaptações” posteriores. Decidi que não, que ficaria na dúvida e a compartilharia com você que me lê agora. Quando for a Buenos Aires vale a pena visitar “La Bombonera” e conhecer suas histórias e estratégias provocativas. “Dale Boca!


domingo, 14 de outubro de 2012

A ameaça.

 

...sim, a verdade. Vanessa costumava ser uma boa amiga, sendo que nos áureos tempos dessa amizade trocávamos cartas...ou melhor, longas cartas, cartas relatos do cotidiano; preocupações e aflições da vida, impressões sobre determinada instalação composta por bacias coloridas em uma bienal da década de 90, decepções, novas amizades, paixões e desamores, enfim...coisas que ocupam coraçõezinhos jovens e bem humorados. Cartas, cartas mesmo...com papel, selo e grandes envelopes pardos ou amarelos. A correspondência era tão intensa que nessa época minha primeira personagem também começou escrever cartas à Vanessa. Sim, com alguma sorte Vanessa talvez ainda tenha tais missivas grafadas com letras cursivas, já que eu escrevo com letras de forma. A personagem era minha irmã gêmea e cursava psicologia. Nossa...Vanessa e ela se entenderam tão bem que...sim, fiquei com uma pontinha de ciúme. As duas conversavam ao telefone durante horas, sendo que para mim sobrava apenas um “mande um beijo para a Susana” e o faro investigativo/jornalístico de Vanessa estava decidido a desvendar aquela menina, queria conhecê-la, como conhecia a mim. Após a primeira conversa percebeu que minha irmã era mais reservada, contida e menos dada às paixões a que se entregava a sua irmã, ou melhor, eu mesma. O tom de voz era outro, o ritmo da fala mais pausado e algumas respostas lacônicas. Discorreram, Vanessa e minha irmã/personagem, sobre uma paixão platônica que eu desenvolvi, uma transferência erótica, para ser mais técnica e alegrar minha irmã, digo, minha personagem. A amizade entre elas foi quase instantânea, elas se gostaram. A nossa realidade cheia de dúvidas e indagações acerca de nossas profissões, caminhos a seguir e outras questões que assolam os vinte aninhos era permeada por instantes criativos, reflexivos, às vezes dramáticos e quase sempre engraçados e surpreendentes. Imaginação não nos faltava, isso jamais. Certa vez, Vanessa encontrou na rua um conhecido nosso que nos era um tanto misterioso e... bem, podíamos tolerar quase tudo, mas nunca um mistério e uma oportunidade de se descobrir um pouco mais sobre quem não quisesse ser percebido, nunca era descartada. Claro que não se recorria à abordagem, mas a uma disfarçada perseguição esgueirando-se atrás de árvores para não ser notada. Bloquinho e caneta? Para que? Quando se tem uma memória prodigiosa para detalhes. A caneta servia sim, para depois de finalizada a investigação, todos os dados de campo serem lançados a termo numa longa e detalhada carta com destino a Campinas, aos cuidados de Susana. E antes que aquele que nos lê se perguntar se não tínhamos nada para fazer, vai a resposta: éramos muito ocupadas, Vanessa inclusive fazia duas faculdades. E depois, tínhamos as noites e quiçá algumas madrugadas de inspiração. Quando eu chegava à portaria do prédio onde eu morava e via uma carta da Vanessa, subia correndo e já abrindo o envelope quase sempre volumoso. Mesmo quando não tínhamos muitas coisas a contar, contávamos as que tínhamos em detalhes e também usávamos comentar a carta uma da outra. E tinha outra coisa...quando não muito acontecia em nossas vidas podíamos inventar estórias, imaginar situações e assim, escrever cartas. Certa vez, de férias em Penápolis, recebi um envelopão vindo de São Paulo com muitas folhas escritas. Não me lembro do conteúdo, lembro apenas que ria muito, tipo chorar de rir, o que chamou a atenção da minha mãe, que correu ao meu quarto e quis saber a razão de tudo aquilo. Engoli a risada e respondi que era carta da Vanessa. Mami queria saber o que estava escrito ali, mas lembro vagamente que o conteúdo era relativo à minha intimidade. Enfiei rapidamente a carta no bolso de trás da calça e deitei em cima, recusando compartilhar o que ali estava escrito. Fui torturada com cócegas até não ter mais forças e lá estava a minha intimidade devassada. Minha mãe também riu e disse que escrevíamos peças de teatro e não cartas. É pode ser. Sim sim...bons tempos aqueles. Tempos em que internet era artigo de luxo, nem todo mundo tinha computador em casa, não existia fecebook e muito menos esse tal song pop, que Vanessa parece preferir jogar a responder às minhas cartas, digo, meus e-mails. Sim, Vanessa era minha correspondente mais ativa e constante e, certamente eu a dela. Agora...bem, agora estou aqui, nesse lamento solitário, porém bem público, que é para ver se ela se envergonha e retoma já tão esquecido hábito. Aviso ainda que caso essa indiscrição não surta efeito, darei início a um impiedoso Vanleaks.

                                                                                              Foto: Cecília Bhering de Araújo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

É...


 - Cadê o Tiago? Perguntou Luiz segundos depois de Tiago ter saído da mesma sala onde eu me encontrava.

Expressão incrédula no olhar e um meio sorriso interrogativo. Silêncio enquanto eu pensava qual seria a pergunta mais apropriada para investigar o que estava acontecendo, já que achava impossível que eles não tivessem se cruzado em intervalo temporal tão pequeno. Enquanto meu sorriso se atrevia a crescer, Luiz resolveu esclarecer:

 - Sabe o que é?

 - Não. Respondi já com todo o sorriso irônico armado.

 - Ele foi lá na minha sala, parou na porta e disse “É”, virou as costas e saiu. O que será que ele queria falar comigo?

 - Bem, então acho que ele foi ao banheiro. Deduzi pela direção tomada por Tiago.

 - Tá doido. Disse Luiz entre risos nervosos.

 - Pensando bem, pelo o que você falou ele disse “É”.

 - Sim, segunda vogal.

Em meio a apuração dos fatos Tiago retorna à sala onde estávamos eu e Luiz e rapidamente se inteira do assunto em discussão: o “É” por ele proferido.

 - Segunda vogal só não... Disse Tiago.

 E eu:

 - Realmente. Não é só a segunda vogal, é a segunda vogal com acento, o que muda totalmente o significado das coisas, pois fosse apenas a segunda vogal poderíamos pensar em nπ.coisas!

- Eu parei na porta e disse “É...”

 - Hum, aparentemente é uma afirmação, mas pelo tom que ele usou eu acho que na verdade é um “É” seguido de reticências. Palpitei.

 - Sim. Confirmou Tiago.

 - Ué! E daí, porra? Eu tava lá todo estressado...

 - Fazendo o que? Interrompi.

 - Pô, lançando os pontos georreferenciados no desenho para fechar a poligonal lá da propriedade, pensando em sade 69...

 - Olha só que interessante, Luiz; você estava num momento palpável, concreto e totalmente limitado, né? Ainda mais lidando com georreferenciamento. Putz, limites por todos os lados.

 - Isso.

 - Eu acho que eu entendi a proposta do Tiago, cara. Ele percebeu essa limitação em que você estava inserido e te propôs um exercício para que você pudesse expandir.

 - Ah! Disse Luiz entre risos curtos e tensos.

 - Sim, um momento de relaxamento. Seguiu Tiago.

 - Luiz, pense na gama de possibilidades que a fala do Tiago pode te proporcionar. Um “é” seguido de reticências é tudo. Eu gosto de reticências. Ela te dá muitas possibilidades. Tiago foi generoso. Gostei muito mesmo da proposta dele.

 - Vocês são malucos, né?

 - Não. Respondi.

 - Claro que não, cara. Você é que tem que abrir sua mente. Sugeriu Tiago.

 - Luiz, esse “É...” foi tão forte que te tirou de toda aquela pressão e pontos limitadores e te lançou em questionamentos acerca dos possíveis significados que ele pudesse ter...cara, você foi lançado, primeiro, na autorreflexão e, posteriormente, saiu para compartilhar a sua busca. Impressionante! Refleti.

 - Vocês estão de brincadeira. E a senhora é o que? Uma psicóloga frustrada, né? Já fez análise? Não, porque tá falando igual a uma psicóloga que eu fui. Disse Luiz.

 - Você já fez análise? Que legal... Conta mais! Pedi.

 - Não. Só fui duas vezes e nunca mais voltei...pô ela ficava fazendo um monte de perguntas a meu respeito. Contou irritado Luiz.

 - Claro Luiz. E você se irritou? Não pode, ela estava tentando te conhecer, saber seu modo de pensar...Pô, você tinha que estar com as portas abertas para que ela pudesse...

- Portas abertas, não senhora, que eu não sou homem dessa conversinha de porta aberta prá ninguém. Reagiu prontamente Luiz.

 - Ah não. Nesse ponto eu concordo com Luiz, eu também não deixo minha porta aberta prá ninguém. Emendou Tiago.

Justamente nesse momento, chegaram os engenheiros com suas urgências, dentre elas achar as chaves que abrissem suas portas. As portas das salas em que eles trabalham, esclareço logo.

Foto: Cecília Bhering de Araújo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Dante e o buraco negro.


Um dia saí para almoçar com Adrián e o pessoal que trabalha comigo. Entre as conversas amenas, surgiu a problemática do buraco negro. Adrián e Santoni contavam-me empolgados que o tempo para em buracos negros. E eu: como assim? Eles: o tempo para, ninguém sabe por que, mas é sabido que o tempo para. E eu: que coisa!

Empolgados, contaram-me mais: que há na equação da teoria da relatividade uma singularidade representando esse fenômeno. Essa singularidade indica que no buraco negro as leis da física não se aplicam e que o tempo para.

Fiquei realmente fascinada com a revelação. Achei o máximo. Fiquei pensando nisso um bom tempo.

No dia seguinte, Dante nos acordou pedindo café da manhã. Levantei-me e fui  para a cozinha providenciar a primeira refeição com olhos semicerrados. Minutos depois, todos à mesa, Dante começa falar animadamente. Uma coisa é importante esclarecer; antes de ingerir a primeira xícara de café eu não fico bem.

Isso, porém, não importa a Dante e ele olhava para minha cara e falava e falava e falava. Pedi para ele ficar quietinho, só um pouquinho. Não ficou. Mais; começou a repetir como um mantra o seguinte: eu sei tudo, eu sei tudo, eu sei tudo. Isso sem nem parar para respirar.

Diante de tal situação, resolvi reagir. Botei a mão na cintura e um olhar desafiador na expressão e disparei: ah é? Você sabe tudo? E ele: sei, eu sei tudo, com olhar igualmente desafiador e um biquinho para demonstrar autoridade. E eu: então me diga; o que significa a singularidade na equação da teoria da relatividade?

Falei mesmo! Ouvi o Adrián dizer baixinho: tadiiiiinho! Entretanto, quase ao mesmo tempo ao lamento do pai, Dante devolve: é stop! Rapidamente, a expressão de dó de Adrián transformou-se em gargalhada. A derrotada botou a mesma cara de choque do episódio narrado anteriormente. O pai ainda concluiu: está certo...é isso mesmo, Dante. Esse menino sabe tudo.


                                   Foto: Cecília Bhering de Araújo.

Ensinamentos de Dante


Hoje, Vanessa me pediu que eu lhe mandasse um email contando as peripécias de Dante. Prometi que o faria, porém farei por aqui mesmo, assim, outros interessados podem acompanhar.

Quando saímos de férias em junho desse ano fomos para Trancoso/Bahia. Ficamos em uma pousada perto do famoso Quadrado. Todos os dias comíamos por lá. Numa das noites, ele disse que queria voltar para a pousada, pois estava com sono e queria dormir. Adrián ofereceu-lhe o colo para que ele dormisse, oferta que ele não só aceitou como simulou uma dormida fechando os olhinhos. Eu tirei uma foto. E ficamos brincando com isso. Em uma das fotos ele está com olhos fechados, na outra com olhos arregalados.

O fato é que ele queria mesmo voltar para a pousada, para a “casa blue”, como ele chamava nosso chalé azul. Ao voltarmos ele não só não dormiu como ficou agitado, pulando na cama e gritando. Eu não dei mole e fui logo questionando: Escuta, você não falou que queria voltar para casa porque queria dormir?

Ele me olhou surpreso e com os olhinhos mirando para cima em busca de alguma resposta que o salvasse pôs-se a repetir: é...é...é...

Eu não dava mole: você falou isso sim, disse que queria dormir, durma agora, Dante. Vamos, estou esperando. Você nos fez voltar e agora tá aí, todo acordado. Como é que é isso? Agora quero ver você dormir!

E ele: é...é...mas...

Até que lhe ocorreu um fato muito importante e que aquela minha conduta acusatória cheia de razão não estava levando em conta: “óla mamãe...eu dumi, você tilo foto”

Diante do meu olhar chocado e boca entreaberta, Adrián apontou-me o dedo e morreu de rir. Eu, do meu lado, estava incrédula com o que ouvi, porém em êxtase. O meu menino, com tão pouca idade, diante de discurso tão veemente, requereu provas sabidamente produzidas.

Não. Não me esqueci de que ele simulou uma situação. Mas isso já é outra história.