quinta-feira, 13 de julho de 2017

Crônica de uma noite insana.



O início foi leve e parecia ter final previsto. Para tanto, o vinho eleito era um tinto espanhol, cuja principal característica era a inocência, mas que no decorrer da degustação, revelou dominar a arte da sedução. Beba-me todo, faltou dizer. Obedecemos ao comando silencioso. 
Quando tudo parecia se aproximar do fim, em companhia do inocente sedutor, eis que chegam as meninas que, naquela noite, saíram em tapas. Voltar para casa tão cedo? Não, não. 
Saímos daquele ambiente sério e caímos num barzinho cheio e barulhento, com cardápio etílico variado e tentador. Meu corpo me dizia que bastava e eu me encantei por um mate com especiarias, porém, quando se está em grupo opinião não é algo solitário. O que vi em meu copo foi um colorido e dissimulado Cleriquot. E água, para que nada de desastroso me acontecesse mais tarde. 
Uma das meninas se interessou por uma cerveja que prometia “explosão e potência”, antes da vírgula, como fez questão de ressaltar. Curiosa, perguntei a ela se a bebida entregava o que prometia. Após rápida reflexão, sentenciou, com base em sua convicção, que ela era surpreendente por ser incoerente. Uau! Que interessante. Restou-me apenas acreditar, já que provar não estava em meus planos.
A outra garota, de fala mansa e jeans customizado, optou por uma vodca de delicadeza indiscreta, pareceu ao final que era suave, mas ordinária. Após suas impressões, notei que o garçom entregou-lhe um punhado de bolachas de chope, sem que ela pedisse. Ela riu e nos esclareceu que ele deveria tê-la visto se apropriando de umas poucas que estavam à mesa. Aí, como quem diz, não precisa furtar, basta pedir, prestou-lhe tal gentileza. Rimos todas. E com aquela delicadeza ordinária da vodca correndo em suas veias, contou que sentou no colo daquele surfista porque ele era legal. Mais risadas e, depois, pedidos de esclarecimentos. Eu sempre quero saber a razão das coisas, mesmo que elas não existam. Ela contou que era uma questão de disposição no carro, faltava lugar, mas que não podia se furtar de proferir a frase de efeito. Concordei com ela. Um efeito assim não se descarta. 
E uma vez que o mote era esse, logo se lembraram do P.F. (personal fucker), de grande utilidade para momentos de alguma tensão e solidão entre um relacionamento e outro. Sobre as características masculinas desejáveis, seja para um relacionamento ou para um amigo íntimo; eis algumas: Não precisa ser bonito, mas tem que ter um elã; homem com mão delicada não tem credibilidade e quanto à pegada mais forte, foi dito que não é agressão, é eficiência. 
Nessas horas, ninguém se importa com o volume da conversa e se alguém da mesa ao lado está ouvindo as tão efusivas impressões. Ao final, foi dito o seguinte: Não sei o que é melhor; viver as noites estranhas ou escutar histórias das noites estranhas. 
Ao chegar a casa, abri a porta sem fazer barulho, mas assim que entrei na sala, escutei passos; era Lorenzo, meu pequeno de três anos. Carregava o gato de pano e olhou-me de cima abaixo, com uma cara de “Onde você estava até uma hora dessas?” A sensação foi a mesma de quando eu tinha quinze anos e meu pai me olhava torto, quase furioso, quando me flagrava. Homens!