terça-feira, 12 de março de 2013

Livros e Dilemas.


"...mas os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro
 Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo"
Caetano Veloso. 


Há muito gosto de tê-los por perto. Mentira seria dizer que adquiri o hábito da leitura desde muito cedo. Não. Lia por obrigação e, apenas os livros indicados nas aulas de língua portuguesa, que seriam objeto de prova no colégio. E não era por falta de estímulo, pois meus pais sempre tiveram muitos exemplares em casa e assim também era na casa dos meus avós. Olhava-os, achava-os bonitos em suas encadernações e pensava que deveria me dedicar a ler, ao menos alguns deles.

O contato visual lançou-me em reflexão sobre a razão de minha indisponibilidade. A resposta não tardou; eu era jovem demais e tinha muitas coisas a fazer, como por exemplo; ginástica olímpica, natação, tênis, judô...eu era muito ocupada. Nessa época, mesmo estudando em colégio de freiras, decidi abandonar as aulas de catecismo que cursava, pois meu tempo estava curto; ou saía de uma dessas modalidades esportivas ou do catecismo. Nunca fiz primeira comunhão e, tanto na formatura do colégio quanto na da Faculdade de Direito, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), não comunguei. Em ambas as ocasiões, mantive-me com um sorrisinho em silencioso orgulho por não entrar numa fila em busca da hóstia.

Voltando aos livros, o que me impedia, enfim, era a falta de tempo para descobri-los, essa foi a conclusão da Susana adolescente. Um dia, a professora do colégio disse que haveria uma prova sobre um livro de livre escolha, mas deveria ser um clássico; fosse de um autor da língua portuguesa ou não. Adoro o “ou não”. Qual seria o meu clássico? Na casa dos meus avós paternos havia duas estantes bem altas e cheias de livros. Dentre tantos, encontrei uma coleção de livros vermelhos chamada “Teatro Vivo” e entre eles estava “Édipo Rei”. Bem, eu não era íntima dos livros, como disse mais acima, e achei melhor averiguar com meu pai se esse tal de Sófocles poderia ter sua obra enquadrada no quesito “clássico”. Podem rir.

Os livros dessa coleção tinham uma estrutura interessante. O início contava sobre algumas montagens teatrais mundo afora e também no Brasil e falava quais atores e atrizes interpretaram seus personagens. Essa parte era ilustrada com fotos lindas das atuações. A segunda parte era o livro propriamente dito, mas em estrutura teatral, separado por falas dos personagens e até com indicação das pausas e do fim dos atos das peças. Daí o nome; Teatro Vivo.

Podem imaginar o que foi isso para uma adolescente não habituada aos livros? E a linguagem teatral? Aquelas falas de um personagem em sofrida reflexão por páginas e páginas seguidas. Sim. Nada fácil, mas a trama era instigante o suficiente para que eu não me desse por vencida pelas dificuldades encontradas no caminho; fui até o fim para saber o destino de Édipo. E gostei, gostei tanto que continuei a ler alguns outros livros da coleção, sendo que muitos dos autores eu não conhecia, nem de ouvir falar. Antes tarde do que nunca. Assim iniciei meu relacionamento com os livros, depois de “Édipo Rei” vieram “A profissão da Sra. Warren” (B. Shaw), “Entre quatro paredes” (P. Sartre), “A morte do caixeiro viajante” (A. Miller), “Um bonde chamado desejo” (T. Williams), “Casa de Bonecas” (Ibsen), “O arquiteto e o imperador da Assíria” (F. Arrabal), “Volta ao lar” (H. Pinter) e “Hamlet” (W. Shakespeare). Sim eu sabia quem era esse último, também não é para tanto.

Quando eu comecei com isso, tinha entre treze e quatorze anos. Alguns deles foram realmente impactantes; lembro-me como me impressionava com “Volta ao Lar”, quão chocada, porém interessada, eu ficava com o andamento da trama e dos diálogos cruéis e fluídos dos personagens.

O grande barato era chegar da escola, almoçar e me jogar no sofá com uma das pernas no encosto e começar a busca pela próxima intriga. Na sequência e, por exigência das bancas examinadoras de vestibulares, comecei a ler Machado de Assis, Graciliano Ramos e outros. Não me esqueço dos dois senhores porque, apesar da necessidade adorei o estilo deles, sendo que de Machado não só li o título indicado pela banca, como também alguns outros. A poesia de Manuel Bandeira cativou-me ao escutar seus versos declamados por um professor de Literatura.

Carlos Drummond de Andrade foi-me apresentado por Tom Jobim, por quem eu morria de amores e cujas músicas não saiam do meu toca-fitas. Poema da Necessidade foi lido por ele em meio a paisagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com uma de suas músicas ao fundo. A partir desse dia, Drummond ganhou uma fã.

À margem da necessidade escolar, passei a explorar os exemplares que estavam disponíveis em casa; Fernando Sabino causou-me calafrios com as agruras de “O homem nu”. Sonhei várias vezes com minha própria nudez. Um tormento. 

Essa foi minha iniciação. Depois vieram muitos outros, sendo que outros tantos tardaram ainda mais a serem descobertos e precisaram de uma apresentação formal de excelentes intermediários que, praticamente pegaram em minha mão e mostraram que a resistência em conhecer um estilo ou um(a) autor(a) pode se transformar depois em incômoda sensação de perda de tempo.

Ao contrário das minhas convicções de adolescente, agora protelo para inscrever-me em uma academia de ginástica, pois sigo muito ocupada e, caso perca uma hora do meu curto dia praticando uma atividade física, é uma hora que perco da minha leitura noturna. Talvez a Esfinge tenha a resposta para o dilema tempo.