sábado, 25 de outubro de 2014

Dante e seu conto fantástico.

Dante e eu vamos caminhando para a escola dele, cujo percurso tem mais ou menos 1 km. Enquanto andamos de mãos dadas, ele não para de falar; faz planos para a festa de aniversário dele (abril de 2015), comenta de modo despretensioso que da próxima vez que eu for comprar uma chuteira para ele, que seja a do Neymar e outras tantas pautas da máxima urgência.
Hoje estávamos já quase chegando à escola quando ele narrou o que foi o seu segundo conto fantástico. O primeiro foi no final da minha segunda gravidez e, infelizmente, não tomei nota, lembro apenas que era bastante bom, pois envolvia espionagem, demanda por alimentos e um mundo caótico. A verdade é que fiquei tão chocada que demorei para reagir ao que ouvi. Enquanto ele falava eu me lembrava de “1984” e o grande irmão.
Então, antes que eu me esqueça, vamos a essa nova trama.
Comecei a captar quando ele disse o seguinte:
 - Eu tenho que cuidar da prateleira.
 - Por que?
 - Porque os dragões vão começar a voar de um lado para o outro.
 - Ah é? Mas por que isso?
 - Porque é assim, eles faziam parte de uma brincadeira que...(Nesse momento ele ergueu os bracinhos em movimentos lentos e circulares) saiu do lugar.
 - O que saiu do lugar?
 - A brincadeira.
 - Caramba! A brincadeira saiu do lugar? Mas como?
 - Ela saiu do lugar e se espalhou para o mundo inteiro, foi até para Moises Ville, para Avanhandava, para Penápolis. E aí os dragões estão soltos voando por aí e brigando uns com os outros.
 - E quem estava nessa brincadeira que saiu do lugar?
 - Eu, o Arthur e o Rafa. Agora nós somos os guerreiros que vão deter os dragões.
 - Isso é o que? Algum vídeo game?
 - Não mãe! Já falei, é uma brincadeira que saiu do lugar. A brincadeira estava num círculo e saiu dele...entendeu?
 - Entendi, disse sorrindo toda orgulhosa.
Ele continuou narrando como derrotaria os dragões baderneiros que se espalhavam pelo mundo. Usaria golpes de judô, cujos nomes foram ditos em termos técnicos que eu não consigo reproduzir exatamente (sotogari – assim soou). Perguntei que golpe era esse. Ele parou na calçada, postou-se à minha frente, pediu que eu abaixasse, pegou a gola da minha camisa e passou a perna dele por trás das minhas, quase me derrubando mesmo, para alegria de uma senhora que nos observava.
 - É isso, sentenciou.
 - Dante, e de onde saiu toda essa história da brincadeira que saiu do lugar?
 - Do meu cérebro, ué!
 - Adorei amor!
 Infelizmente chegamos ao portão da EDEM, uma escola laica instalada num antigo convento, onde nos despedimos e combinamos de nos encontrar no final da tarde.
Assim foi. Quando começamos nossa volta para a casa, retomei o assunto dos dragões dizendo que estava muito curiosa para saber mais detalhes da brincadeira que saiu do lugar.
 - Mãe, dragões existem?
 - Não.
 - Mas eles já existiram algum dia, igual os dinossauros?
 - Não, meu amor, são seres mitológicos.
 - O que é isso?
 - Seres que foram inventados pela imaginação do homem, sem nunca terem existido um dia.
 - Hum...mas esses dragões existem, viu?
 - E onde eles estão?
 - Eles saíram do círculo e vieram para esse mundo nosso, mas nós não vemos porque eles são invisíveis.
 - Viu, não existem.
 - Existem sim, você não vê, mas eles existem, não é porque você não consegue ver que eles deixam de existir.
 - Sério?
 - É sério. Eles saíram da roupa de judô do Alan para voarem por aí.
Claro que meu olhar de mãe acha linda a história, mas eu realmente fiquei feliz em notar que Dante pode olhar para um desenho numa roupa e imaginar toda uma trama a partir dela. A fantasia é mesmo libertadora. Mamãe deseja que você nunca perca essa capacidade de criar suas próprias histórias para fugir da rotina que desde cedo adotamos para organizar a vida.
E concordo muito com você, meu amor; o fato de não vermos não quer dizer que não exista. Além imaginar contos fantásticos, você é um sábio, meu Dante.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lições aprendidas no Facebook.

Hoje desativei minha conta na rede social. As razões foram muitas no final, mas uma em especial foi o que comumente chamamos de gota d´água.
Não lembro bem como e quando começou, mas com o passar do tempo as pessoas foram se soltando e se sentindo bem confortável para quase tudo, até mesmo para postar "selfie after sex". Não. Não sou moralista, meu olhar é outro. É de quem se pergunta qual a razão de tanta exposição. Por que você quer ser visto após o sexo com seu parceiro? Porque o sexo é íntimo demais e isso você não aguenta ou  porque se você não mostrar que dormiu com aquele(a) gato(a), qual a graça? E não, não lembro de nenhum dos meus contatos terem postado selfie pós sexo. 
O que percebi em algumas das pessoas com as quais me relacionava na rede foi a necessidade exacerbada de falar, de opinar sobre  tudo e em velocidade máxima. O que, obviamente, leva o usuário a compartilhar toda a classe de informação, sem a menor preocupação de se certificar da sua veracidade. "Eu quero falar, não importa o que", parecia ser o lema.
Facebook me ajudou muito, sem qualquer ironia, pois aos poucos fui descobrindo coisas que eu nem imaginava ou pelo menos não a intensidade de determinado traço. Aspectos que não estão à mostra num evento social ou mesmo numa conversa ao redor de uma mesa de bar. E então me perguntava; como eu não percebi isso antes? E então descobri; a máscara social que todos usamos para viabilizar uma vida em sociedade foi caindo das faces das pessoas. Mas isso é ótimo, você dirá. Sim, eu também achei. Afinal, é sempre bom saber com que estamos lidando.
Os discursos se multiplicaram e o tom foi aumentando. De repente todos falavam de tudo e quando alguém, dissonante, tenta apresentar um outro lado da questão é rapidamente classificado no velho sistema binário; se você não é isso, só pode ser aquilo. As pessoas não pensam ao menos que você esteja analisando do ponto de vista técnico.
Comigo aconteceu na época do julgamento do mensalão pelo STF. Numa exposição de ponto de vista puramente jurídico, expus meu assombro com decisões conflitantes, arbitrárias, contrárias à jurisprudência do próprio Tribunal e a princípios básicos do Direito. Rapidamente fui classificada como "petralha". Sim, porque se eu não aplaudo ministros de STF dizendo que "A Constituição é o que o STF diz que ela é", em arroubos absolutistas ao estilo "Je souis la loi" não existe outra alternativa a não ser ter certeza de que eu aplaudo os réus. 
Comecei a achar assustador esse caminho de apenas duas vias. Um mundo sem nuances, sem lugar para discussões onde se mantem um respeito mútuo pelas opiniões divergentes.
A militância política virou terreno fértil para discursos violentos e agressões na rede social. 
Observei o que deu e tirei, em silêncio, minhas próprias conclusões com base no que as pessoas me diziam de si através daquilo que postavam; opiniões políticas, posicionamento perante a sociedade e visão dos menos favorecidos. Algumas boas surpresas e outras tantas chocantes. Não apenas pela visão em si, mas pela falta de informação que se escancarava em público.
Mas então veio a Copa do Mundo. E com ela sua grande torcida por uma ou outra seleção. E eu, que gosto de futebol, assisti vários jogos, ri de favoritos que voltaram para casa logo na primeira fase, vibrei com a surpreendente Costa Rica nas quartas de final e óbvio, me espantei com o antológico 7X1 da Alemanha sobre o Brasil.
Após o jogo corri para o facebook e sim, ri muito com as piadinhas que envolviam o tema. Meu irmão caçula me ligou para contar o que ele via e ouvia em São Paulo e eu aqui no Rio, o que ele mais gostou foi a observação de uma senhora que eu encontrei na sala de espera da minha médica: "menina, depois do primeiro gol eu achei que a emissora estava passando o replay".
Um amigo argentino ligou incrédulo para comentar: "Parecia que o jogo era no Estádio de Macondo".
Sim, um amigo argentino. A Argentina então cometeu o mau gosto de não levar uma goleada da Holanda. Pior, ela ousou ir para a final da Copa do Mundo no Maracanã. Um facada no coração de torcedores exacerbados.
Rapidamente, entrou em campo a Síndrome de Estocolmo e boa parte do torcedor canarinho vestiu as cores da Alemanha frente a um perigo maior; Argentina campeã em solo brasileiro. Isso era ainda pior, infinitamente pior, do que a goleada germânica.
Todos nos posicionamos a favor de um e contra o outro; futebol é isso. E é absolutamente compreensível e aceitável que se torça pela Alemanha contra a Argentina. O que estraga, uma vez mais, é a patrulha ideológica quando você escolhe e torna público.
A maioria achou os alemães uns "fofos". Ótimo. E então, começaram os discursos inflamados contra os argentinos, que obviamente, não eram limitados ao futebol de Lionel Messi e Seleção Argentina. Era essencialmente uma agressão a todos os argentinos, à Nação, ao povo e a tudo o que a eles se relacionava.
Falava-se em como eram provocadores, em como se comportavam mal e...em como eram imundos com suas lonas. O mote era de como lhes faltava educação para o que quer que fosse. O interessante era como o possível mau comportamento de alguns torcedores em segundos se converteu para todo um povo. Tudo isso nas redes sociais.
Não posso deixar de dizer que esses discursos de alguns dos meus compatriotas "não me representa", para usar a expressão da modinha. Tampouco vaiar o hino de outras nações ou gastar dinheiro para assistir Argentina e Bósnia e gritar o nome de Neymar.
Quanto à imundice propagada era aquela relativa à invasão argentina na cidade do Rio de Janeiro para acompanhar de perto a final. Muitos vieram de motor home, outros com barracas, enfim, um lindo improviso de última hora para prestigiar a seleção que estava numa final de Copa do Mundo.
Particularmente, eu achei lindo ver a cidade cheia e tomada por estrangeiros empolgados. Achei bacana o enorme acampamento argentino montado pela cidade.
Mas então, para meu assombro, vi cariocas postando comentários impregnados de ódio e xingamentos aos hermanos. Festejavam a derrota e os mandavam embora com suas lonas imundas, arrogância e prepotência.
Não sou carioca. Quando há pouco mais de dez anos mudei para cá, fui morar em Copacabana e fiquei muito mal impressionada com pessoas que atiravam lixo pela janela da sala de apartamento em plena Av. Nossa Senhora de Copacabana, ou então que mandavam o lixo para dentro do poço de ar e  atiravam pela janela preservativos usados. Isso foi o que eu vi, não li em nenhuma rede social. Precisamos de argentinos para sujar a cidade e dar lições de falta de cidadania? Quando ao final da tarde, as praias estão cheias de lixo na areia, foram eles que vieram aqui sujar?
Esses cariocas representam toda a cidade? Não. Claro que não. Aqui encontrei pessoas solidárias, gentis, amigas, cidadãs e inteligentes em diversas classes sociais. E são elas que devem representar o que de melhor tem essa cidade, com todos os seus problemas.
No episódio em questão, um dos pontos que mais me chamou a atenção foi o fato de que pessoas falam muito facilmente que não são racistas ou preconceituosas, algumas vezes até por terem entes queridos que são alvo de potencial preconceito. A lição mais valorosa que eu aprendi no livro que mostra a face das pessoas é que tal ideia é fragmentada, ou seja, condenar o preconceito pode chegar até o ponto onde ele te toca efetivamente, e só.
 Sim, foi por isso que encerrei minha conta. Cansei dessa agressividade gratuita, dessa falta de critério que impede que as pessoas com uma mínima análise separe os assuntos e não caia na tentação de propagar, como bem observou meu irmão caçula, discursos de ódio.





 


 
 

 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ESTADO DE COMA ESTADO DE SÍTIO - uma aventura em Brasília,


Naqueles tempos de repressão e nenhuma explicação, seguindo o raciocínio "eu não sei porque estou batendo, mas ele sabe porque está apanhando", meu pai e mais outros dois penapolenses estudavam em Brasília, na UnB. E em uma dessas noites quentes que castigam a capital do país, resolveram sair para beber.
Após várias cervejas, decidiram caminhar pelas ruas conversando e rindo, afinal não existia proibição legal para tanto. Ou será que sim? Bem, pode ser que sim. Tudo era possível.
Durante essa caminhada, os três foram repentinamente recolhidos das ruas para serem gentilmente acomodados dentro de uma viatura policial, com destino à delegacia mais próxima.
Obviamente que nessa situação, a primeira coisa que passava pela cabeça do sujeito era se ele sairia vivo do lugar para onde estava sendo levado. E foi esse o pensamento dos dois amigos de meu pai que, imediatamente, se calaram e sentiram o efeito do álcool sumir abruptamente.
Já devidamente encarcerados, os elementos perigosos, subversivos e perturbadores da paz social e da sagrada família, caíram em silêncio, talvez pensando que nunca mais voltassem a ver suas mãezinhas e que merda seria morrer tão cedo e em decorrência de tanta porrada que tomariam até lá.
No entanto, os dois amigos de meu pai descobriram ter um outro problema para lidar, que naquela situação era bastante grave. Ao contrário deles, a bebedeira do terceiro não havia passado da forma mais conveniente. Aliás, não se sabia se ela havia passado. Chico, meu pai, estava muito valente e destemido e com o peito inflado dentro da cela, andava de um lado para o outro, tal qual bicho enjaulado (que realmente era), aos gritos de "ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO".
Impossível sair vivo daqui, pensavam os outros dois que, mesmo se esforçando, não conseguiam fazê-lo parar. Pediam encarecidamente: Cala a boca Chico, a gente vai morrer!
Ao que ele respondia convencido: Não me calo...isso é um absurdo. ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO!
Como se vê, saíram ilesos de lá, pois alguém apareceu para o resgate e, sinceramente, não sei como, foram parar no apartamento de um parlamentar, que se não me falha a memória era o Tancredo Neves.
A noite continuou com uma entrevista para uma revista inglesa, onde o destemido Chico contou, com igual valentia, o grande feito dos três amigos: saírem vivos e ilesos fisicamente.
Um dos amigos, sempre que encontrava meu pai, contava essa história e terminava sempre com uma risada ainda nervosa: FILHO DA PUTA!