quarta-feira, 2 de abril de 2014
ESTADO DE COMA ESTADO DE SÍTIO - uma aventura em Brasília,
Naqueles tempos de repressão e nenhuma explicação, seguindo o raciocínio "eu não sei porque estou batendo, mas ele sabe porque está apanhando", meu pai e mais outros dois penapolenses estudavam em Brasília, na UnB. E em uma dessas noites quentes que castigam a capital do país, resolveram sair para beber.
Após várias cervejas, decidiram caminhar pelas ruas conversando e rindo, afinal não existia proibição legal para tanto. Ou será que sim? Bem, pode ser que sim. Tudo era possível.
Durante essa caminhada, os três foram repentinamente recolhidos das ruas para serem gentilmente acomodados dentro de uma viatura policial, com destino à delegacia mais próxima.
Obviamente que nessa situação, a primeira coisa que passava pela cabeça do sujeito era se ele sairia vivo do lugar para onde estava sendo levado. E foi esse o pensamento dos dois amigos de meu pai que, imediatamente, se calaram e sentiram o efeito do álcool sumir abruptamente.
Já devidamente encarcerados, os elementos perigosos, subversivos e perturbadores da paz social e da sagrada família, caíram em silêncio, talvez pensando que nunca mais voltassem a ver suas mãezinhas e que merda seria morrer tão cedo e em decorrência de tanta porrada que tomariam até lá.
No entanto, os dois amigos de meu pai descobriram ter um outro problema para lidar, que naquela situação era bastante grave. Ao contrário deles, a bebedeira do terceiro não havia passado da forma mais conveniente. Aliás, não se sabia se ela havia passado. Chico, meu pai, estava muito valente e destemido e com o peito inflado dentro da cela, andava de um lado para o outro, tal qual bicho enjaulado (que realmente era), aos gritos de "ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO".
Impossível sair vivo daqui, pensavam os outros dois que, mesmo se esforçando, não conseguiam fazê-lo parar. Pediam encarecidamente: Cala a boca Chico, a gente vai morrer!
Ao que ele respondia convencido: Não me calo...isso é um absurdo. ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO!
Como se vê, saíram ilesos de lá, pois alguém apareceu para o resgate e, sinceramente, não sei como, foram parar no apartamento de um parlamentar, que se não me falha a memória era o Tancredo Neves.
A noite continuou com uma entrevista para uma revista inglesa, onde o destemido Chico contou, com igual valentia, o grande feito dos três amigos: saírem vivos e ilesos fisicamente.
Um dos amigos, sempre que encontrava meu pai, contava essa história e terminava sempre com uma risada ainda nervosa: FILHO DA PUTA!
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Su, adorei! não conhecia essa faceta do seu pai, que interessante, principalmente o desfecho. Não terminou em pizza mas em pão de queijo.
ResponderExcluir