Hoje desativei minha conta na rede social. As razões foram muitas no final, mas uma em especial foi o que comumente chamamos de gota d´água.
Não lembro bem como e quando começou, mas com o passar do tempo as pessoas foram se soltando e se sentindo bem confortável para quase tudo, até mesmo para postar "selfie after sex". Não. Não sou moralista, meu olhar é outro. É de quem se pergunta qual a razão de tanta exposição. Por que você quer ser visto após o sexo com seu parceiro? Porque o sexo é íntimo demais e isso você não aguenta ou porque se você não mostrar que dormiu com aquele(a) gato(a), qual a graça? E não, não lembro de nenhum dos meus contatos terem postado selfie pós sexo.
O que percebi em algumas das pessoas com as quais me relacionava na rede foi a necessidade exacerbada de falar, de opinar sobre tudo e em velocidade máxima. O que, obviamente, leva o usuário a compartilhar toda a classe de informação, sem a menor preocupação de se certificar da sua veracidade. "Eu quero falar, não importa o que", parecia ser o lema.
Facebook me ajudou muito, sem qualquer ironia, pois aos poucos fui descobrindo coisas que eu nem imaginava ou pelo menos não a intensidade de determinado traço. Aspectos que não estão à mostra num evento social ou mesmo numa conversa ao redor de uma mesa de bar. E então me perguntava; como eu não percebi isso antes? E então descobri; a máscara social que todos usamos para viabilizar uma vida em sociedade foi caindo das faces das pessoas. Mas isso é ótimo, você dirá. Sim, eu também achei. Afinal, é sempre bom saber com que estamos lidando.
Os discursos se multiplicaram e o tom foi aumentando. De repente todos falavam de tudo e quando alguém, dissonante, tenta apresentar um outro lado da questão é rapidamente classificado no velho sistema binário; se você não é isso, só pode ser aquilo. As pessoas não pensam ao menos que você esteja analisando do ponto de vista técnico.
Comigo aconteceu na época do julgamento do mensalão pelo STF. Numa exposição de ponto de vista puramente jurídico, expus meu assombro com decisões conflitantes, arbitrárias, contrárias à jurisprudência do próprio Tribunal e a princípios básicos do Direito. Rapidamente fui classificada como "petralha". Sim, porque se eu não aplaudo ministros de STF dizendo que "A Constituição é o que o STF diz que ela é", em arroubos absolutistas ao estilo "Je souis la loi" não existe outra alternativa a não ser ter certeza de que eu aplaudo os réus.
Comecei a achar assustador esse caminho de apenas duas vias. Um mundo sem nuances, sem lugar para discussões onde se mantem um respeito mútuo pelas opiniões divergentes.
A militância política virou terreno fértil para discursos violentos e agressões na rede social.
Observei o que deu e tirei, em silêncio, minhas próprias conclusões com base no que as pessoas me diziam de si através daquilo que postavam; opiniões políticas, posicionamento perante a sociedade e visão dos menos favorecidos. Algumas boas surpresas e outras tantas chocantes. Não apenas pela visão em si, mas pela falta de informação que se escancarava em público.
Mas então veio a Copa do Mundo. E com ela sua grande torcida por uma ou outra seleção. E eu, que gosto de futebol, assisti vários jogos, ri de favoritos que voltaram para casa logo na primeira fase, vibrei com a surpreendente Costa Rica nas quartas de final e óbvio, me espantei com o antológico 7X1 da Alemanha sobre o Brasil.
Após o jogo corri para o facebook e sim, ri muito com as piadinhas que envolviam o tema. Meu irmão caçula me ligou para contar o que ele via e ouvia em São Paulo e eu aqui no Rio, o que ele mais gostou foi a observação de uma senhora que eu encontrei na sala de espera da minha médica: "menina, depois do primeiro gol eu achei que a emissora estava passando o replay".
Um amigo argentino ligou incrédulo para comentar: "Parecia que o jogo era no Estádio de Macondo".
Sim, um amigo argentino. A Argentina então cometeu o mau gosto de não levar uma goleada da Holanda. Pior, ela ousou ir para a final da Copa do Mundo no Maracanã. Um facada no coração de torcedores exacerbados.
Rapidamente, entrou em campo a Síndrome de Estocolmo e boa parte do torcedor canarinho vestiu as cores da Alemanha frente a um perigo maior; Argentina campeã em solo brasileiro. Isso era ainda pior, infinitamente pior, do que a goleada germânica.
Todos nos posicionamos a favor de um e contra o outro; futebol é isso. E é absolutamente compreensível e aceitável que se torça pela Alemanha contra a Argentina. O que estraga, uma vez mais, é a patrulha ideológica quando você escolhe e torna público.
A maioria achou os alemães uns "fofos". Ótimo. E então, começaram os discursos inflamados contra os argentinos, que obviamente, não eram limitados ao futebol de Lionel Messi e Seleção Argentina. Era essencialmente uma agressão a todos os argentinos, à Nação, ao povo e a tudo o que a eles se relacionava.
Falava-se em como eram provocadores, em como se comportavam mal e...em como eram imundos com suas lonas. O mote era de como lhes faltava educação para o que quer que fosse. O interessante era como o possível mau comportamento de alguns torcedores em segundos se converteu para todo um povo. Tudo isso nas redes sociais.
Não posso deixar de dizer que esses discursos de alguns dos meus compatriotas "não me representa", para usar a expressão da modinha. Tampouco vaiar o hino de outras nações ou gastar dinheiro para assistir Argentina e Bósnia e gritar o nome de Neymar.
Quanto à imundice propagada era aquela relativa à invasão argentina na cidade do Rio de Janeiro para acompanhar de perto a final. Muitos vieram de motor home, outros com barracas, enfim, um lindo improviso de última hora para prestigiar a seleção que estava numa final de Copa do Mundo.
Particularmente, eu achei lindo ver a cidade cheia e tomada por estrangeiros empolgados. Achei bacana o enorme acampamento argentino montado pela cidade.
Mas então, para meu assombro, vi cariocas postando comentários impregnados de ódio e xingamentos aos hermanos. Festejavam a derrota e os mandavam embora com suas lonas imundas, arrogância e prepotência.
Não sou carioca. Quando há pouco mais de dez anos mudei para cá, fui morar em Copacabana e fiquei muito mal impressionada com pessoas que atiravam lixo pela janela da sala de apartamento em plena Av. Nossa Senhora de Copacabana, ou então que mandavam o lixo para dentro do poço de ar e atiravam pela janela preservativos usados. Isso foi o que eu vi, não li em nenhuma rede social. Precisamos de argentinos para sujar a cidade e dar lições de falta de cidadania? Quando ao final da tarde, as praias estão cheias de lixo na areia, foram eles que vieram aqui sujar?
Esses cariocas representam toda a cidade? Não. Claro que não. Aqui encontrei pessoas solidárias, gentis, amigas, cidadãs e inteligentes em diversas classes sociais. E são elas que devem representar o que de melhor tem essa cidade, com todos os seus problemas.
No episódio em questão, um dos pontos que mais me chamou a atenção foi o fato de que pessoas falam muito facilmente que não são racistas ou preconceituosas, algumas vezes até por terem entes queridos que são alvo de potencial preconceito. A lição mais valorosa que eu aprendi no livro que mostra a face das pessoas é que tal ideia é fragmentada, ou seja, condenar o preconceito pode chegar até o ponto onde ele te toca efetivamente, e só.
Sim, foi por isso que encerrei minha conta. Cansei dessa agressividade gratuita, dessa falta de critério que impede que as pessoas com uma mínima análise separe os assuntos e não caia na tentação de propagar, como bem observou meu irmão caçula, discursos de ódio.
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