O meu sonho é tomar banho de
chuveiro e lavar o cabelo com xampu, disse a senhora sem rodeios nem
constrangimentos para o repórter que a entrevistava.
Ele, sua equipe e quem fosse ouvir
suas palavras é que deveriam se envergonhar. Ela, a senhora de pele marrom e
ressacada, cabelos grisalhos bem ondulados e presos para trás tinha uma
legítima vida seca, como os personagens de Graciliano Ramos em “Vidas Secas”.
Moradora do sertão nordestino que é
não tem acesso à água encanada. E o pouco de água a que tem direito deve ser
dividida entre a higiene, consumo e cozimento de alimentos. Pelo que me lembro,
ela armazenava a água em algum lugar até que o próximo caminhão pipa voltasse à
localidade e nesse cenário, parece óbvio que um chuveiro não fosse um objeto
que tivesse alguma serventia.
A idade dessa senhora não sei
dizer, é até difícil saber, provavelmente mais nova do que imagino, tendo em
vista o clima árido que tanto resseca as pessoas por dentro e por fora. Ela não
chorou nem se lamentou, não. Apenas contou ao repórter qual era o sonho dela,
enquanto passava a mão direita sobre o antebraço esquerdo com o olhar baixo.
Completou dizendo que um dia ela já tinha lavado os cabelos com xampu, mas que
há muitos anos isso não acontecia mais, pois o banho dela era com caneca.
Nada mais foi perguntado e a
entrevista terminou em silêncio. O que mais se pode dizer? Do meu lado, fiquei
imóvel por alguns segundos olhando a imagem da mulher. Aos poucos meu coração passou
a bater mais forte enquanto eu me esforçava para não deixar as lágrimas caírem
dos meus olhos. Lembrei que já tinha tomado meu banho de chuveiro e lavado meus
cabelos com xampu e condicionador. Era tão banal, apenas uma parte do meu dia.
Naquele momento pensei: qual é o meu sonho? Qual é o seu?