segunda-feira, 29 de abril de 2013

Escusas.

 - Onde você foi ontem? Por que não me esperou para voltarmos juntos?

 - Para que? Para te ouvir reclamar do trabalho ou então daquela colega que não sabe se vestir e usa bolsa Prada falsificada?

 - Credo! Como você é grosso...estúpido!

 - Não acho, você perguntou e eu respondi, respondi a verdade para experimentar alguma variação.

 - Então minha conversa te incomoda, te enche o saco?

 - Olha, quando você resolve falar mal do trabalho e de seus colegas, sim.  Eu não conheço ninguém, não posso fazer nada se sua colega não usa roupas que você considera adequadas e ainda preciso manter a calma quando você se exalta e abaixa o volume do rádio do carro enquanto eu ouço Clapton. Como saí mais cedo, decidi dar uma volta, fazer alguma coisa diferente.

 - E eu posso saber o que e onde? Ou é pedir demais?

 - Assim que estivermos em casa te conto em detalhes, faço questão.

 - Que conversa é essa? Pode começar a falar.

 - Não. E nem pense em aproximar a sua mão do volume do rádio.

Renato estava diferente, com uma promessa de sorriso sarcástico nos lábios. Não se lembrava de tê-lo visto assim antes. Uma satisfação saltava-lhe do olhar. O que teria acontecido com ele? Parecia mais bonito até. E aquela determinação em falar sobre o assunto apenas no momento indicado por ele a deixara ansiosa e insegura. Ele respondia tão prontamente quando demandado, por que isso agora? Levou o dedo indicador à boca e mordeu a unha enquanto pensava. De onde viera aquela firmeza repentina? A ordem de que esperasse o momento foi seguida até passarem pela porta do apartamento.

 - Estou esperando: fale!

 - O que?

 - Onde você foi ontem que não foi possível me esperar.

 - Ah é...olha Luíza, você quer mesmo saber? Sem rodeios, suponho.

 - Sim.

 - Está bem. Saí com uma garota de programa.

 - Estou falando sério.

 - Eu também, amor. Disse Renato apoiando o corpo na cômoda e cruzando os braços.

Quieta e com os olhos grudados no rosto de Renato, ela ficou imóvel por alguns instantes em busca de palavras que pudessem dar continuidade àquela conversa estranha. O que era afinal? Um jogo, sinceridade sem aviso prévio, uma maneira de botar fim à relação? E agora? O que fazer? Que rumo ela poderia dar à situação? Aliás, que rumo ela desejava dar àquilo tudo?

 - E então Luíza, o que você me diz? Eu saí com uma garota.

Mordeu os lábios e num rápido movimento enfiou a mão na cara de Renato. Raiva era o que sentia, agora se dera conta. A mão doía por causa da bofetada. Renato virou o rosto lentamente e a olhou sorrindo. E depois riu.

 - É isso então? Agora eu vou apanhar de você? Quem sabe é isso que eu quero. Gostei de sentir essa mão pesada na minha cara. Tá doendo, sabia? Minha pele está ardendo. Finalmente, queridinha, alguma coisa nova ainda se encontra em você. E a aplaudiu sorrindo em aviltante provocação, enquanto se aproximava. 

 - Você tem ideia de por que eu saí com uma garota?

 - Porque você é um puto?

 - Não, amor. Não sou um puto e você sabe disso. O problema é que nossa relação está uma droga morninha sem um pingo de qualquer classe de emoção. Viramos um grande nada. E nem eu nem você fazemos qualquer movimento para mudar. Aí tive a ideia de sair com uma garota para que ela pudesse me ensinar umas coisas novas para eu fazer com você. E algum resultado já surtiu, já que até levei um tapa na cara.

 - Você vai ficar longe de mim, seu merda, e não vai me ensinar porra nenhuma das coisas que você aprendeu com uma prostituta.

 - Ah vou sim, sua vadia. O objetivo era justamente esse.

- Vadia?!

- Vadia sim. Daqui por diante, minha vadia e vai fazer tudo que eu te ensinar.

- Não...eu não vou...para! Seu idiooooooooota...

Há muito Luíza não sentia vontade de estar com Renato, e supunha que ele também estava acomodado na situação. Mas naquele dia, ela perdera a cabeça e o comportamento polido que tanto ensaiava para ter.

Percebeu, porém, que uma mulher mais instintiva também a habitava e ela tinha força para fazer o que queria, apesar da Luíza predominante. Nunca na vida levantara a mão para alguém e bater no rosto do marido era absolutamente impensável. Achava que a agressão física era para os destemperados e ela...ora, era tão dona de si.   

Enquanto a raiva em saber que fora traída se espalhava por seu corpo, Luíza sentiu um profundo descontrole para recusar as investidas atrevidas e inéditas de Renato; um homem decidido, viril e vestido com um cinismo que o fazia sorrir irônico durante o sexo. Quem era ele, afinal? Estivera ali o tempo todo? E que urgência era aquela? Fechou os olhos, por fim, e apenas sentiu. Não sabia se aquele seria o último sexo que estavam fazendo na vida. Pensou que pudesse ser.

 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Um objeto, muitos olhares.


O que ela vê que eu não vejo?

Alguma coisa com certeza, do contrário não estaria apontando esse troço para cá. E de onde eles vieram, todos eles?

Do meu lado vejo apenas cadeiras empilhadas, o bar que freqüento há 43 anos e a mesma rua de sempre, com as mesmas pessoas, até a mesma comida que peço sempre que venho aqui. Só mesmice. Não entendo. Só me resta esticar as pernas e vigiar esse pessoal com máquinas fotográficas. Bem...que isso não se torne uma rotina! Caso contrário é bem capaz do Manoel querer subir o preço da cerveja e do bolinho de bacalhau, que nem é lá essas coisas, massa de mais, bacalhau de menos. A vida é assim, as pessoas vem procurar poesia longe de casa e agente é que acaba pagando a conta.
Foto: Cecília Bhering

Ué...tá querendo o que com a sacada da Rita? Bem se vê que a moça não é daqui, se soubesse como a Rita é desconfiada... Não duvido que ela apareça na calçada para tomar satisfações. Não vai gostar nada de ver a moça tirando foto da casa dela.
 Foto: Cecília Bhering


 - Olha lá Manoel; foi tirar retrato da casa do Mustafá. Eu sempre gostei dessa casa. É bonita aquela porta com arabescos brancos, né?
                                                                  Foto: Cecília Bhering

 - Arabescos, Jair? Até que tu sabes das coisas, o nome é esse mesmo. Vais querer outra cerveja, oh pá?

 - Vou querer sim, Manoel. Agora que arranjei uma distração, vou ficar mais um pouquinho. Agora que me dou conta, ainda não vi a dona Alzira aguando as plantas hoje. Estranho, ela nunca se atrasa e nem se esquece das plantas dela.

 - Parece que saiu cedo, hoje. O Zé disse que carregava uma mala, veio até um taxi para buscar a Alzira. Ele só não soube dizer para onde ela foi e nem quando ela volta. Sabes como é desinteressado o Zé, né? Conta tudo pela metade e nunca sabe de nada, basta fazeres uma pergunta para ele dizer: “Ih, sei não!”

 - ... com mala e de taxi?! E o Zé não perguntou nada? Olha lá, Manoel! Aquele moleque da mercearia do Geraldo. Eu tenho vontade de pegá-lo pelos fundilhos cada vez que ele larga aquela maldita bicicleta na parede da minha casa, não agüento mais falar com o Geraldo sobre essa porcaria desse costume horroroso, mas você sabe o que eu vou fazer? Um dia não vou pagar a conta para poder me ressarcir dos buracos que ele deixa na parede. Olha lá ele...Ôh moleque, já não te falei para não apoiar a bicicleta na parede, porra?
 Foto: Cecília Bhering


 - Fique calmo, homem! Não fiques nervoso por tão pouco, isso faz até mal a saúde.

 - Oh Manoel, pois eu vou te dizer o que é que faz mal à saúde: é essa fritura que como aqui no teu boteco. Tome aqui o teu dinheiro, vou dar uma olhada no que essa turma tá aprontando, porque se vê logo que eles não são daqui.

E seguiu atrás daqueles rapazes e moças que estavam ali tirando foto disso e daquilo, mas realmente não conseguia entender que tipo de interesse aquele lugar humilde, simples, com casas antigas e descuidadas pudesse ter despertado. Olhou para cima e viu o marido da dona Antonia lendo o jornal na sacada, concluiu que ele ou estava se exibindo para aparecer nos retratos ou estava ali fingindo ler o jornal para ficar de olho naquela gente toda. Achou mesmo que estava querendo aparecer, pois botou uma camiseta, coisa que geralmente não faz, prefere ficar alisando o barrigão peludo em movimentos circulares e quando se cansa termina dando um tapa com a mão aberta na altura do umbigo antes de entrar. Sim, sim...estava posando.
                                                                   Foto: Cecília Bhering
Logo no início da subida da ladeira, Jair sentiu suas pernas fraquejarem, como se depois de tanto tempo já não agüentassem mais o peso do corpo, como se suas pernas também tivessem se cansado daquela mesmice de carregá-lo para baixo e para cima, todo santo dia, um após o outro, uma perna na frente enquanto a de trás dava o impulso e assim sucessivamente. É, parece que a grande novidade daquele dia era que suas pernas quiseram fazer uma pausa. Pensou que poderia pedir emprestado um daqueles tripés que sustentam a máquina fotográfica. Que besteira. A sensação era de assustadora insegurança, mas seus olhos ainda alcançaram ver um banco vazio que pudesse lhe servir de apoio. Mesmo sua vista parecia estar cansada, tanto assim que só viu com clareza o banco, o resto estava embaçado. As mãos trêmulas agarraram o encosto do banco e Jair sentou-se ali para se recuperar. A respiração estava tão estranha...ofegante. E aquela fraqueza das pernas parecia apoderar-se de todo seu corpo, até mesmo de seus pensamentos, que lentamente foram silenciando. Deitou-se então naquele banco, que foi a última coisa que viu com nitidez. Achou que ao menos alguém poderia tê-lo envernizado.

Foto: Cecília Bhering 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ode à Vaca.


O ônibus fez a curva no Largo do Machado e parou em frente à catedral para que alguns passageiros subissem e outros descessem. Havia um movimento em frente à igreja. A primeira imagem que captei foi um menino de uns vinte e poucos anos em uma cadeira de rodas, com um joelho enfaixado e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço; ele a examinava com atenção.

Pensei: o que será que essa garotada está fazendo em frente à igreja? Olhei ao redor e vi uma turma numerosa sentada nos degraus da entrada principal. Em segundos meus olhos grudaram em duas pessoas. Um garoto louro com cabelos cacheados e barba tinha entre suas pernas abertas uma outra pessoa. O rapaz sorria e acariciava um dos mamilos de uma blusa florida.

E eu, que sempre ando com meu mp3 nos ouvidos, naquele momento notei que tocava “Vaca Profana” do Caetano: “Vaca profana põe teus cornos, prá fora e acima da manada”. Nossa...a trilha perfeita para cena.

Enfim, voltando àquela carícia tão pública, pensei: Caramba...o menino está passando a mão no seio da namorada sem a menor preocupação. Bem, deixe-me ver ao menos se ela está gostando.

A cabeça estava jogada para trás, encostada no peito dele, mas vi um sorriso estampando o rosto de pele clara. Sim ela estava gostando. Notava-se logo. Prendi-me a eles por alguns segundos. As carícias continuaram. Resolvi então analisar o entorno.

Ora ora...o rapaz que estava do lado direito do casal, sentado no mesmo degrau do rapaz louro, dono dos carinhos desinibidos, olhava-os com um sorriso. Hum...que interessante. E tudo isso em frente à Catedral do Largo do Machado. O riso veio sozinho e sem esforço.

Logo que o ônibus iniciou a saída dei aquela olhada derradeira. Notei então que a menina não tinha seios, apenas mamilos. E suas pernas eram peludas e seus cabelos pretos eram curtos. A menina era menino, mas a cena se deu mesmo nas escadarias da igreja. E não é mentira que no momento eu ouvia:

“Dona das divinas tetas derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas”