- Para que? Para te ouvir reclamar do trabalho
ou então daquela colega que não sabe se vestir e usa bolsa Prada falsificada?
- Credo! Como você é grosso...estúpido!
- Não acho, você perguntou e eu respondi,
respondi a verdade para experimentar alguma variação.
- Então minha conversa te incomoda, te enche o
saco?
- Olha, quando você resolve falar mal do
trabalho e de seus colegas, sim. Eu não
conheço ninguém, não posso fazer nada se sua colega não usa roupas que você
considera adequadas e ainda preciso manter a calma quando você se exalta e
abaixa o volume do rádio do carro enquanto eu ouço Clapton. Como saí mais cedo,
decidi dar uma volta, fazer alguma coisa diferente.
- E eu posso saber o que e onde? Ou é pedir
demais?
- Assim que estivermos em casa te conto em
detalhes, faço questão.
- Que conversa é essa? Pode começar a falar.
- Não. E nem pense em aproximar a sua mão do
volume do rádio.
Renato estava
diferente, com uma promessa de sorriso sarcástico nos lábios. Não se lembrava
de tê-lo visto assim antes. Uma satisfação saltava-lhe do olhar. O que teria acontecido
com ele? Parecia mais bonito até. E aquela determinação em falar sobre o
assunto apenas no momento indicado por ele a deixara ansiosa e insegura. Ele
respondia tão prontamente quando demandado, por que isso agora? Levou o dedo
indicador à boca e mordeu a unha enquanto pensava. De onde viera aquela firmeza
repentina? A ordem de que esperasse o momento foi seguida até passarem pela
porta do apartamento.
- Estou esperando: fale!
- O que?
- Onde você foi ontem que não foi possível me
esperar.
- Ah é...olha Luíza, você quer mesmo saber?
Sem rodeios, suponho.
- Sim.
- Está bem. Saí com uma garota de programa.
- Estou falando sério.
- Eu também, amor. Disse Renato apoiando o
corpo na cômoda e cruzando os braços.
Quieta e com os olhos
grudados no rosto de Renato, ela ficou imóvel por alguns instantes em busca de
palavras que pudessem dar continuidade àquela conversa estranha. O que era
afinal? Um jogo, sinceridade sem aviso prévio, uma maneira de botar fim à
relação? E agora? O que fazer? Que rumo ela poderia dar à situação? Aliás, que
rumo ela desejava dar àquilo tudo?
- E então Luíza, o que você me diz? Eu saí com
uma garota.
Mordeu os lábios e num
rápido movimento enfiou a mão na cara de Renato. Raiva era o que sentia, agora
se dera conta. A mão doía por causa da bofetada. Renato virou o rosto
lentamente e a olhou sorrindo. E depois riu.
- É isso então? Agora eu vou apanhar de você?
Quem sabe é isso que eu quero. Gostei de sentir essa mão pesada na minha cara.
Tá doendo, sabia? Minha pele está ardendo. Finalmente, queridinha, alguma coisa
nova ainda se encontra em você. E a aplaudiu sorrindo em aviltante provocação,
enquanto se aproximava.
- Você tem ideia de por que eu saí com uma
garota?
- Porque você é um puto?
- Não, amor. Não sou um puto e você sabe
disso. O problema é que nossa relação está uma droga morninha sem um pingo de
qualquer classe de emoção. Viramos um grande nada. E nem eu nem você fazemos
qualquer movimento para mudar. Aí tive a ideia de sair com uma garota para que
ela pudesse me ensinar umas coisas novas para eu fazer com você. E algum
resultado já surtiu, já que até levei um tapa na cara.
- Você vai ficar longe de mim, seu merda, e
não vai me ensinar porra nenhuma das coisas que você aprendeu com uma
prostituta.
- Ah vou sim, sua vadia. O objetivo era
justamente esse.
- Vadia?!
- Vadia sim. Daqui por
diante, minha vadia e vai fazer tudo que eu te ensinar.
- Não...eu não vou...para!
Seu idiooooooooota...
Há muito Luíza não
sentia vontade de estar com Renato, e supunha que ele também estava acomodado
na situação. Mas naquele dia, ela perdera a cabeça e o comportamento polido que
tanto ensaiava para ter.
Percebeu, porém, que
uma mulher mais instintiva também a habitava e ela tinha força para fazer o que
queria, apesar da Luíza predominante. Nunca na vida levantara a mão para alguém
e bater no rosto do marido era absolutamente impensável. Achava que a agressão
física era para os destemperados e ela...ora, era tão dona de si.
Enquanto a raiva em
saber que fora traída se espalhava por seu corpo, Luíza sentiu um profundo
descontrole para recusar as investidas atrevidas e inéditas de Renato; um homem
decidido, viril e vestido com um cinismo que o fazia sorrir irônico durante o
sexo. Quem era ele, afinal? Estivera ali o tempo todo? E que urgência era aquela?
Fechou os olhos, por fim, e apenas sentiu. Não sabia se aquele seria o último
sexo que estavam fazendo na vida. Pensou que pudesse ser.
Muito bom, adorei.
ResponderExcluirObrigada, prima.
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