Reparando em algumas
perguntas que o facebook faz ao usuário, tipo: “o que você está pensando?”, entendo a razão pela qual ele tenha se
transformado num divã. É mais ou menos como uma terapia coletiva. Juro que não
estou criticando, pelo contrário, eu me divirto muito, apesar de falar pouco na
rede, é que eu gosto mesmo é de olhar.
A pergunta inicial é
boa, te deixa a vontade para falar e falar, ou melhor, escrever, mas também há
quem grite, fazendo uso da caixa alta. Não me incomoda, ao contrário de um
amigo que outro dia desabafou comigo sobre a raiva em relação a um fulano
porque este mandava e-mail gritando. Sim, é verdade, mas deve ser porque ele
tem certa idade e não deve sentir-se confortável com as letrinhas,
contemporizei. Não aceitou, respondeu que ele também tinha idade e não fazia
uso da caixa alta, apesar das grossas lentes de seus óculos.
Depois de um tempo de
relacionamento, o facebook pede o número do seu telefone celular. E ele não é o
único, tenho uma conta de e-mail no yahoo que há tempos vinha pedindo o número
do meu telefone. Eu o ignorei, pensei: “Que
abuso! Como assim, meu telefone? Negativo, não darei.” O yahoo não desistiu
e um dia usou um estratagema. Eu queria mandar uma mensagem para várias
pessoas. Sabe o que ele fez? Bloqueou. Não me deixou mandar. Por que? Porque eu
não tinha informado o meu celular. Donde se conclui que se ele fosse uma
pessoa, poderíamos enquadrá-lo no perfil controlador e até perigoso. Eu acho.
Mas enfim, voltando ao
facebook, com o passar do tempo ele vai te perguntando mais coisas. Agora
mesmo, rolou uma insistência para que eu botasse a instituição de ensino na
qual cursei o 2º grau. E para que eu não reclame da falta de colaboração, ele
até sugeriu a escola, tendo em vista que vários dos meus amigos estudaram lá. E
sim, foi lá que eu estudei e não me importaria de dizer, mas não disse.
E tem outra coisa
interessante; algumas vezes, antes da pergunta que pode parecer invasiva, você
se depara com a seguinte observação: “O
(qualquer que seja a empresa/provedor ou rede social) quer te conhecer melhor”.
Chega a ser meigo, né? Que bonitinho, poderíamos pensar. Aliás, será que uma
pessoa mais fragilizada e carente já não pensou em se apaixonar por...sei lá,
pelo(a) programador(a) ou então pelo Mark Zuckerberg?
Toda essa leva de
perguntas me fez lembrar a primeira vez que estive em Moises Ville, interior da
Província de Santa Fé/Argentina. É um “pueblo”
(assim chamam as pequenas cidades) de origem judaica que recebeu imigrantes
provenientes de vários lugares da Europa; Rússia, Lituânia, Polônia e etc. A
ideia central, concebida por seu fundador Baron Hirsch, era uma colônia cuja
base econômica fosse a agricultura. E Moises Ville é a colônia judaica mais
antiga da Argentina nesses moldes. Em 2009 comemorou 120 anos de fundação.
E que relação Moises Ville tem com o facebook? As perguntas. A diferença básica é que em Moises Ville o seu interlocutor se posta à sua frente, te olha nos olhos e espera a sua resposta que, fatalmente, dará ensejo a outra pergunta e mais outra e outra mais. E caso você pense em dar uma resposta evasiva ou mesmo mentirosa, prepare-se, pois caso ele não acredite vai te questionar, ao contrário do facebook.
Adrián é um homem de pouca fala, mas dotado de um humor peculiar. Obviamente, não me alertou para o costume da terrinha de submeter os visitantes a interrogatórios. E numa tarde de dezembro com temperaturas escaldantes, fomos à farmácia.
Quando já estávamos de saída, pensando em nos dirigir à porta, uma conhecida da família de Adrián entrou. Ela e o pai dela, um senhor idoso, com cabelos brancos e de pouca fala. Ao contrário da filha que, assim que me viu, perguntou quem eu era. Adrián me apresentou como esposa. Ela se apresentou, parou à minha frente, posicionou o dedo indicador na bochecha o dedo médio no queixo e iniciou o longo repertório de perguntas; nome, profissão, onde morávamos, como fui parar no Rio de Janeiro já que eu era do interior de São Paulo, onde estudei, quantos irmãos, o que meus pais faziam, quais eram meus planos para o futuro, eu queria filhos?
Bem, não estou, ou melhor, não estava acostumada a semelhante costume e fiquei impressionada com aquilo. Em meio à chuva de perguntas peguei na mão de Adrián, na esperança de que ele me salvasse. Nada. Quando consegui olhar para ele, ele estava sereno e achando tudo muito natural. Em dado momento olhei para o pai dela. Ele havia conseguido uma cadeira e estava sentadinho com as mãos apoiadas nas pernas. Quando cruzamos olhares, ele fez um vagaroso movimento com as sobrancelhas. Entendi, respondi tudo para poder sair.
Como eu não perguntei nada a ela, ao final ela me disse o nome, a profissão e que estava fazendo mestrado em Israel. Quando finalmente cheguei à calle, dei uma bronca em Adrián. Onde já se viu me deixar naquela situação, por que não me chamou para ir embora? Ele riu e disse que eu deveria me acostumar aos hábitos de Moises Ville. Reclamei com minha sogra, que me deu razão, porém confirmou que era isso mesmo. Minha cunhada tentou me explicar. E completou dizendo que também era como a moça da farmácia, porque informação é tudo. “La gente tiene que saber con quien esta hablando, me entendes Susana?” O lado bom, disse ela, é que eu também poderia perguntar o quanto quisesse.
Antes que alguém diga que isso é coisa de mulher, não importa a nacionalidade, adianto logo que dois dias depois sofri um novo interrogatório na piscina do clube. Por um homem, amigo do meu sogro, ele queria saber como era a economia de Penápolis, minha cidade natal, o que meus pais faziam e etc.
Entre as amigas da minha sogra, a abordagem foi diferente. Uma delas perguntou-me à queima roupa: “Você gosta de ler? Hum, e de quais autores você gosta? Algum sul-americano?” Por sorte, naquele ano ganhei um exemplar de Mário Vargas Llosa de uma prima e há apenas três ou quatro dias, minha sogra havia me emprestado “Crônicas de uma morte anunciada” do Gabriel G. Marques. Ufa! “Algum argentino?” Ainda não. Pretendo ler Borges em breve, respondi. Sabem o que ganhei de presente de “navidad” de minha cunhada? “Aleph” (Borges), “Final del Juego” (J. Cortazar) y “Cuentos Escogidos” (Manuel Mujica Lainez).
E é assim, atualmente já não sofro interrogatórios, pois já me conhecem, tenho apenas que atualizar uma informação ou outra. Ah sim. O assunto da vez é que Dante precisa de um irmão. Não se deve ter apenas um filho. Ao contrário do que pode parecer, gosto muito de ir a Moises Ville. É como um retiro. Bom poder andar no meio da rua, passear de bicicleta, dormir depois do almoço, comer um asado hecho em la parilla e comer knishe em noite de natal. Outro dado peculiar: a única igreja católica de Moises Ville foi construída por judeus, para que os católicos que lá chegaram para viver e trabalhar tivessem também seu lugar de oração.
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