domingo, 14 de outubro de 2012

A ameaça.

 

...sim, a verdade. Vanessa costumava ser uma boa amiga, sendo que nos áureos tempos dessa amizade trocávamos cartas...ou melhor, longas cartas, cartas relatos do cotidiano; preocupações e aflições da vida, impressões sobre determinada instalação composta por bacias coloridas em uma bienal da década de 90, decepções, novas amizades, paixões e desamores, enfim...coisas que ocupam coraçõezinhos jovens e bem humorados. Cartas, cartas mesmo...com papel, selo e grandes envelopes pardos ou amarelos. A correspondência era tão intensa que nessa época minha primeira personagem também começou escrever cartas à Vanessa. Sim, com alguma sorte Vanessa talvez ainda tenha tais missivas grafadas com letras cursivas, já que eu escrevo com letras de forma. A personagem era minha irmã gêmea e cursava psicologia. Nossa...Vanessa e ela se entenderam tão bem que...sim, fiquei com uma pontinha de ciúme. As duas conversavam ao telefone durante horas, sendo que para mim sobrava apenas um “mande um beijo para a Susana” e o faro investigativo/jornalístico de Vanessa estava decidido a desvendar aquela menina, queria conhecê-la, como conhecia a mim. Após a primeira conversa percebeu que minha irmã era mais reservada, contida e menos dada às paixões a que se entregava a sua irmã, ou melhor, eu mesma. O tom de voz era outro, o ritmo da fala mais pausado e algumas respostas lacônicas. Discorreram, Vanessa e minha irmã/personagem, sobre uma paixão platônica que eu desenvolvi, uma transferência erótica, para ser mais técnica e alegrar minha irmã, digo, minha personagem. A amizade entre elas foi quase instantânea, elas se gostaram. A nossa realidade cheia de dúvidas e indagações acerca de nossas profissões, caminhos a seguir e outras questões que assolam os vinte aninhos era permeada por instantes criativos, reflexivos, às vezes dramáticos e quase sempre engraçados e surpreendentes. Imaginação não nos faltava, isso jamais. Certa vez, Vanessa encontrou na rua um conhecido nosso que nos era um tanto misterioso e... bem, podíamos tolerar quase tudo, mas nunca um mistério e uma oportunidade de se descobrir um pouco mais sobre quem não quisesse ser percebido, nunca era descartada. Claro que não se recorria à abordagem, mas a uma disfarçada perseguição esgueirando-se atrás de árvores para não ser notada. Bloquinho e caneta? Para que? Quando se tem uma memória prodigiosa para detalhes. A caneta servia sim, para depois de finalizada a investigação, todos os dados de campo serem lançados a termo numa longa e detalhada carta com destino a Campinas, aos cuidados de Susana. E antes que aquele que nos lê se perguntar se não tínhamos nada para fazer, vai a resposta: éramos muito ocupadas, Vanessa inclusive fazia duas faculdades. E depois, tínhamos as noites e quiçá algumas madrugadas de inspiração. Quando eu chegava à portaria do prédio onde eu morava e via uma carta da Vanessa, subia correndo e já abrindo o envelope quase sempre volumoso. Mesmo quando não tínhamos muitas coisas a contar, contávamos as que tínhamos em detalhes e também usávamos comentar a carta uma da outra. E tinha outra coisa...quando não muito acontecia em nossas vidas podíamos inventar estórias, imaginar situações e assim, escrever cartas. Certa vez, de férias em Penápolis, recebi um envelopão vindo de São Paulo com muitas folhas escritas. Não me lembro do conteúdo, lembro apenas que ria muito, tipo chorar de rir, o que chamou a atenção da minha mãe, que correu ao meu quarto e quis saber a razão de tudo aquilo. Engoli a risada e respondi que era carta da Vanessa. Mami queria saber o que estava escrito ali, mas lembro vagamente que o conteúdo era relativo à minha intimidade. Enfiei rapidamente a carta no bolso de trás da calça e deitei em cima, recusando compartilhar o que ali estava escrito. Fui torturada com cócegas até não ter mais forças e lá estava a minha intimidade devassada. Minha mãe também riu e disse que escrevíamos peças de teatro e não cartas. É pode ser. Sim sim...bons tempos aqueles. Tempos em que internet era artigo de luxo, nem todo mundo tinha computador em casa, não existia fecebook e muito menos esse tal song pop, que Vanessa parece preferir jogar a responder às minhas cartas, digo, meus e-mails. Sim, Vanessa era minha correspondente mais ativa e constante e, certamente eu a dela. Agora...bem, agora estou aqui, nesse lamento solitário, porém bem público, que é para ver se ela se envergonha e retoma já tão esquecido hábito. Aviso ainda que caso essa indiscrição não surta efeito, darei início a um impiedoso Vanleaks.

                                                                                              Foto: Cecília Bhering de Araújo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

É...


 - Cadê o Tiago? Perguntou Luiz segundos depois de Tiago ter saído da mesma sala onde eu me encontrava.

Expressão incrédula no olhar e um meio sorriso interrogativo. Silêncio enquanto eu pensava qual seria a pergunta mais apropriada para investigar o que estava acontecendo, já que achava impossível que eles não tivessem se cruzado em intervalo temporal tão pequeno. Enquanto meu sorriso se atrevia a crescer, Luiz resolveu esclarecer:

 - Sabe o que é?

 - Não. Respondi já com todo o sorriso irônico armado.

 - Ele foi lá na minha sala, parou na porta e disse “É”, virou as costas e saiu. O que será que ele queria falar comigo?

 - Bem, então acho que ele foi ao banheiro. Deduzi pela direção tomada por Tiago.

 - Tá doido. Disse Luiz entre risos nervosos.

 - Pensando bem, pelo o que você falou ele disse “É”.

 - Sim, segunda vogal.

Em meio a apuração dos fatos Tiago retorna à sala onde estávamos eu e Luiz e rapidamente se inteira do assunto em discussão: o “É” por ele proferido.

 - Segunda vogal só não... Disse Tiago.

 E eu:

 - Realmente. Não é só a segunda vogal, é a segunda vogal com acento, o que muda totalmente o significado das coisas, pois fosse apenas a segunda vogal poderíamos pensar em nπ.coisas!

- Eu parei na porta e disse “É...”

 - Hum, aparentemente é uma afirmação, mas pelo tom que ele usou eu acho que na verdade é um “É” seguido de reticências. Palpitei.

 - Sim. Confirmou Tiago.

 - Ué! E daí, porra? Eu tava lá todo estressado...

 - Fazendo o que? Interrompi.

 - Pô, lançando os pontos georreferenciados no desenho para fechar a poligonal lá da propriedade, pensando em sade 69...

 - Olha só que interessante, Luiz; você estava num momento palpável, concreto e totalmente limitado, né? Ainda mais lidando com georreferenciamento. Putz, limites por todos os lados.

 - Isso.

 - Eu acho que eu entendi a proposta do Tiago, cara. Ele percebeu essa limitação em que você estava inserido e te propôs um exercício para que você pudesse expandir.

 - Ah! Disse Luiz entre risos curtos e tensos.

 - Sim, um momento de relaxamento. Seguiu Tiago.

 - Luiz, pense na gama de possibilidades que a fala do Tiago pode te proporcionar. Um “é” seguido de reticências é tudo. Eu gosto de reticências. Ela te dá muitas possibilidades. Tiago foi generoso. Gostei muito mesmo da proposta dele.

 - Vocês são malucos, né?

 - Não. Respondi.

 - Claro que não, cara. Você é que tem que abrir sua mente. Sugeriu Tiago.

 - Luiz, esse “É...” foi tão forte que te tirou de toda aquela pressão e pontos limitadores e te lançou em questionamentos acerca dos possíveis significados que ele pudesse ter...cara, você foi lançado, primeiro, na autorreflexão e, posteriormente, saiu para compartilhar a sua busca. Impressionante! Refleti.

 - Vocês estão de brincadeira. E a senhora é o que? Uma psicóloga frustrada, né? Já fez análise? Não, porque tá falando igual a uma psicóloga que eu fui. Disse Luiz.

 - Você já fez análise? Que legal... Conta mais! Pedi.

 - Não. Só fui duas vezes e nunca mais voltei...pô ela ficava fazendo um monte de perguntas a meu respeito. Contou irritado Luiz.

 - Claro Luiz. E você se irritou? Não pode, ela estava tentando te conhecer, saber seu modo de pensar...Pô, você tinha que estar com as portas abertas para que ela pudesse...

- Portas abertas, não senhora, que eu não sou homem dessa conversinha de porta aberta prá ninguém. Reagiu prontamente Luiz.

 - Ah não. Nesse ponto eu concordo com Luiz, eu também não deixo minha porta aberta prá ninguém. Emendou Tiago.

Justamente nesse momento, chegaram os engenheiros com suas urgências, dentre elas achar as chaves que abrissem suas portas. As portas das salas em que eles trabalham, esclareço logo.

Foto: Cecília Bhering de Araújo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Dante e o buraco negro.


Um dia saí para almoçar com Adrián e o pessoal que trabalha comigo. Entre as conversas amenas, surgiu a problemática do buraco negro. Adrián e Santoni contavam-me empolgados que o tempo para em buracos negros. E eu: como assim? Eles: o tempo para, ninguém sabe por que, mas é sabido que o tempo para. E eu: que coisa!

Empolgados, contaram-me mais: que há na equação da teoria da relatividade uma singularidade representando esse fenômeno. Essa singularidade indica que no buraco negro as leis da física não se aplicam e que o tempo para.

Fiquei realmente fascinada com a revelação. Achei o máximo. Fiquei pensando nisso um bom tempo.

No dia seguinte, Dante nos acordou pedindo café da manhã. Levantei-me e fui  para a cozinha providenciar a primeira refeição com olhos semicerrados. Minutos depois, todos à mesa, Dante começa falar animadamente. Uma coisa é importante esclarecer; antes de ingerir a primeira xícara de café eu não fico bem.

Isso, porém, não importa a Dante e ele olhava para minha cara e falava e falava e falava. Pedi para ele ficar quietinho, só um pouquinho. Não ficou. Mais; começou a repetir como um mantra o seguinte: eu sei tudo, eu sei tudo, eu sei tudo. Isso sem nem parar para respirar.

Diante de tal situação, resolvi reagir. Botei a mão na cintura e um olhar desafiador na expressão e disparei: ah é? Você sabe tudo? E ele: sei, eu sei tudo, com olhar igualmente desafiador e um biquinho para demonstrar autoridade. E eu: então me diga; o que significa a singularidade na equação da teoria da relatividade?

Falei mesmo! Ouvi o Adrián dizer baixinho: tadiiiiinho! Entretanto, quase ao mesmo tempo ao lamento do pai, Dante devolve: é stop! Rapidamente, a expressão de dó de Adrián transformou-se em gargalhada. A derrotada botou a mesma cara de choque do episódio narrado anteriormente. O pai ainda concluiu: está certo...é isso mesmo, Dante. Esse menino sabe tudo.


                                   Foto: Cecília Bhering de Araújo.

Ensinamentos de Dante


Hoje, Vanessa me pediu que eu lhe mandasse um email contando as peripécias de Dante. Prometi que o faria, porém farei por aqui mesmo, assim, outros interessados podem acompanhar.

Quando saímos de férias em junho desse ano fomos para Trancoso/Bahia. Ficamos em uma pousada perto do famoso Quadrado. Todos os dias comíamos por lá. Numa das noites, ele disse que queria voltar para a pousada, pois estava com sono e queria dormir. Adrián ofereceu-lhe o colo para que ele dormisse, oferta que ele não só aceitou como simulou uma dormida fechando os olhinhos. Eu tirei uma foto. E ficamos brincando com isso. Em uma das fotos ele está com olhos fechados, na outra com olhos arregalados.

O fato é que ele queria mesmo voltar para a pousada, para a “casa blue”, como ele chamava nosso chalé azul. Ao voltarmos ele não só não dormiu como ficou agitado, pulando na cama e gritando. Eu não dei mole e fui logo questionando: Escuta, você não falou que queria voltar para casa porque queria dormir?

Ele me olhou surpreso e com os olhinhos mirando para cima em busca de alguma resposta que o salvasse pôs-se a repetir: é...é...é...

Eu não dava mole: você falou isso sim, disse que queria dormir, durma agora, Dante. Vamos, estou esperando. Você nos fez voltar e agora tá aí, todo acordado. Como é que é isso? Agora quero ver você dormir!

E ele: é...é...mas...

Até que lhe ocorreu um fato muito importante e que aquela minha conduta acusatória cheia de razão não estava levando em conta: “óla mamãe...eu dumi, você tilo foto”

Diante do meu olhar chocado e boca entreaberta, Adrián apontou-me o dedo e morreu de rir. Eu, do meu lado, estava incrédula com o que ouvi, porém em êxtase. O meu menino, com tão pouca idade, diante de discurso tão veemente, requereu provas sabidamente produzidas.

Não. Não me esqueci de que ele simulou uma situação. Mas isso já é outra história.