quinta-feira, 30 de agosto de 2012

É...


 - Cadê o Tiago? Perguntou Luiz segundos depois de Tiago ter saído da mesma sala onde eu me encontrava.

Expressão incrédula no olhar e um meio sorriso interrogativo. Silêncio enquanto eu pensava qual seria a pergunta mais apropriada para investigar o que estava acontecendo, já que achava impossível que eles não tivessem se cruzado em intervalo temporal tão pequeno. Enquanto meu sorriso se atrevia a crescer, Luiz resolveu esclarecer:

 - Sabe o que é?

 - Não. Respondi já com todo o sorriso irônico armado.

 - Ele foi lá na minha sala, parou na porta e disse “É”, virou as costas e saiu. O que será que ele queria falar comigo?

 - Bem, então acho que ele foi ao banheiro. Deduzi pela direção tomada por Tiago.

 - Tá doido. Disse Luiz entre risos nervosos.

 - Pensando bem, pelo o que você falou ele disse “É”.

 - Sim, segunda vogal.

Em meio a apuração dos fatos Tiago retorna à sala onde estávamos eu e Luiz e rapidamente se inteira do assunto em discussão: o “É” por ele proferido.

 - Segunda vogal só não... Disse Tiago.

 E eu:

 - Realmente. Não é só a segunda vogal, é a segunda vogal com acento, o que muda totalmente o significado das coisas, pois fosse apenas a segunda vogal poderíamos pensar em nπ.coisas!

- Eu parei na porta e disse “É...”

 - Hum, aparentemente é uma afirmação, mas pelo tom que ele usou eu acho que na verdade é um “É” seguido de reticências. Palpitei.

 - Sim. Confirmou Tiago.

 - Ué! E daí, porra? Eu tava lá todo estressado...

 - Fazendo o que? Interrompi.

 - Pô, lançando os pontos georreferenciados no desenho para fechar a poligonal lá da propriedade, pensando em sade 69...

 - Olha só que interessante, Luiz; você estava num momento palpável, concreto e totalmente limitado, né? Ainda mais lidando com georreferenciamento. Putz, limites por todos os lados.

 - Isso.

 - Eu acho que eu entendi a proposta do Tiago, cara. Ele percebeu essa limitação em que você estava inserido e te propôs um exercício para que você pudesse expandir.

 - Ah! Disse Luiz entre risos curtos e tensos.

 - Sim, um momento de relaxamento. Seguiu Tiago.

 - Luiz, pense na gama de possibilidades que a fala do Tiago pode te proporcionar. Um “é” seguido de reticências é tudo. Eu gosto de reticências. Ela te dá muitas possibilidades. Tiago foi generoso. Gostei muito mesmo da proposta dele.

 - Vocês são malucos, né?

 - Não. Respondi.

 - Claro que não, cara. Você é que tem que abrir sua mente. Sugeriu Tiago.

 - Luiz, esse “É...” foi tão forte que te tirou de toda aquela pressão e pontos limitadores e te lançou em questionamentos acerca dos possíveis significados que ele pudesse ter...cara, você foi lançado, primeiro, na autorreflexão e, posteriormente, saiu para compartilhar a sua busca. Impressionante! Refleti.

 - Vocês estão de brincadeira. E a senhora é o que? Uma psicóloga frustrada, né? Já fez análise? Não, porque tá falando igual a uma psicóloga que eu fui. Disse Luiz.

 - Você já fez análise? Que legal... Conta mais! Pedi.

 - Não. Só fui duas vezes e nunca mais voltei...pô ela ficava fazendo um monte de perguntas a meu respeito. Contou irritado Luiz.

 - Claro Luiz. E você se irritou? Não pode, ela estava tentando te conhecer, saber seu modo de pensar...Pô, você tinha que estar com as portas abertas para que ela pudesse...

- Portas abertas, não senhora, que eu não sou homem dessa conversinha de porta aberta prá ninguém. Reagiu prontamente Luiz.

 - Ah não. Nesse ponto eu concordo com Luiz, eu também não deixo minha porta aberta prá ninguém. Emendou Tiago.

Justamente nesse momento, chegaram os engenheiros com suas urgências, dentre elas achar as chaves que abrissem suas portas. As portas das salas em que eles trabalham, esclareço logo.

Foto: Cecília Bhering de Araújo.

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