- Cadê o Tiago? Perguntou Luiz segundos depois
de Tiago ter saído da mesma sala onde eu me encontrava.
Expressão incrédula no
olhar e um meio sorriso interrogativo. Silêncio enquanto eu pensava qual seria
a pergunta mais apropriada para investigar o que estava acontecendo, já que
achava impossível que eles não tivessem se cruzado em intervalo temporal tão
pequeno. Enquanto meu sorriso se atrevia a crescer, Luiz resolveu esclarecer:
- Sabe o que é?
- Não. Respondi já com todo o sorriso irônico armado.
- Ele foi lá na minha sala, parou na porta e
disse “É”, virou as costas e saiu. O que será que ele queria falar comigo?
- Bem, então acho que ele foi ao banheiro.
Deduzi pela direção tomada por Tiago.
- Tá doido. Disse Luiz entre risos nervosos.
- Pensando bem, pelo o que você falou ele
disse “É”.
- Sim, segunda vogal.
Em meio a apuração dos
fatos Tiago retorna à sala onde estávamos eu e Luiz e rapidamente se inteira do
assunto em discussão: o “É” por ele proferido.
- Segunda vogal só não... Disse Tiago.
E eu:
- Realmente. Não é só a segunda vogal, é a
segunda vogal com acento, o que muda totalmente o significado das coisas, pois
fosse apenas a segunda vogal poderíamos pensar em nπ.coisas!
- Eu parei na porta e
disse “É...”
- Hum, aparentemente é uma afirmação, mas pelo
tom que ele usou eu acho que na verdade é um “É” seguido de reticências.
Palpitei.
- Sim. Confirmou Tiago.
- Ué! E daí, porra? Eu tava lá todo
estressado...
- Fazendo o que? Interrompi.
- Pô, lançando os pontos georreferenciados no
desenho para fechar a poligonal lá da propriedade, pensando em sade 69...
- Olha só que interessante, Luiz; você estava
num momento palpável, concreto e totalmente limitado, né? Ainda mais lidando
com georreferenciamento. Putz, limites por todos os lados.
- Isso.
- Eu acho que eu entendi a proposta do Tiago,
cara. Ele percebeu essa limitação em que você estava inserido e te propôs um
exercício para que você pudesse expandir.
- Ah! Disse Luiz entre risos curtos e tensos.
- Sim, um momento de relaxamento. Seguiu
Tiago.
- Luiz, pense na gama de possibilidades que a
fala do Tiago pode te proporcionar. Um “é” seguido de reticências é tudo. Eu
gosto de reticências. Ela te dá muitas possibilidades. Tiago foi generoso.
Gostei muito mesmo da proposta dele.
- Vocês são malucos, né?
- Não. Respondi.
- Claro que não, cara. Você é que tem que
abrir sua mente. Sugeriu Tiago.
- Luiz, esse “É...” foi tão forte que te tirou
de toda aquela pressão e pontos limitadores e te lançou em questionamentos
acerca dos possíveis significados que ele pudesse ter...cara, você foi lançado,
primeiro, na autorreflexão e, posteriormente, saiu para compartilhar a sua
busca. Impressionante! Refleti.
- Vocês estão de brincadeira. E a senhora é o
que? Uma psicóloga frustrada, né? Já fez análise? Não, porque tá falando igual
a uma psicóloga que eu fui. Disse Luiz.
- Você já fez análise? Que legal... Conta
mais! Pedi.
- Não. Só fui duas vezes e nunca mais
voltei...pô ela ficava fazendo um monte de perguntas a meu respeito. Contou
irritado Luiz.
- Claro Luiz. E você se irritou? Não pode, ela
estava tentando te conhecer, saber seu modo de pensar...Pô, você tinha que
estar com as portas abertas para que ela pudesse...
- Portas abertas, não
senhora, que eu não sou homem dessa conversinha de porta aberta prá ninguém.
Reagiu prontamente Luiz.
- Ah não. Nesse ponto eu concordo com Luiz, eu
também não deixo minha porta aberta prá ninguém. Emendou Tiago.