terça-feira, 27 de outubro de 2020

Chile Despierto.

 Hoje pela manhã recebi um vídeo de um entre os tantos protestos que tomaram o Chile em 2019 em razão da forte crise econômica, fruto de um modelo neoliberal que, até aquele momento, servia de exemplo para nosso Cone Sul.

Milhares de chilenos tomaram as ruas do país para gritar “basta” ao Estado que pesa nas costas de quem trabalha e não está presente para garantir direitos sociais e amparo para os que dele necessitam.

Estado que perpetua privilégios de bancos e elite econômica e toma daqueles que trabalharam a vida toda o direito de se aposentar com o mínimo de dignidade, levando, inclusive, alguns deles a atentar contra a própria vida por não terem como se manter.

O vídeo emociona aos que se identificam como povo, que não se olham, portanto, em espelhos que não refletem a própria imagem. Nele vê-se uma multidão empunhando bandeiras e cantando um hino de levante popular, que exalta a FORÇA que nasce da UNIDADE; um chamado ao despertar com destino à liberdade, levantando a cabeça daquele que se tenta oprimir para que ostente sua dignidade. É uma música que ecoa o dia todo na cabeça e dá um calor no coração.

No último domingo, 25 de outubro de 2020, o povo chileno foi às urnas para dizer se queria a instauração de uma assembleia constituinte para votar uma nova Constituição para o país.

Eu particularmente não sabia que o Chile não havia rompido com a Constituição da ditadura Pinochet. Entretanto, cada país sul-americano saiu de sua ditadura como pôde; nós brasileiros saímos anistiando os crimes perpetrados pelos militares e seus comandados e hoje sentimos o que essa impunidade significa. A Argentina foi certamente a que melhor saiu de sua ditadura, instaurando uma assembleia constituinte e levando seus militares ao banco dos réus e às prisões. Chile, assim como nós, saiu como pôde; fazendo concessões como a de suportar uma Constituição de regime ditatorial.

O plebiscito mostrou que 80% dos chilenos querem uma nova Constituição. A assembleia constituinte será instaurada em abril de 2021, com parlamentares que ainda serão eleitos pelo povo, garantida uma representatividade de 50% das vagas para mulheres e 50% para homens. Já nasce consciente de que igualdade deve ser garantida para afastar séculos de patriarcado institucionalizado.

Sinto-me feliz e esperançosa pelos chilenos, pois me vejo como classe trabalhadora, povo, brasileira e sul-americana. É diante deste espelho que vejo minha imagem refletida.

Uma amiga para qual mandei o vídeo disse ter chorado, não apenas pela beleza que lhe é inerente, mas por sentir que nós brasileiros estamos tão distantes de semelhante consciência de classe.

Não há como negar esse sentimento. Nossa sociedade é comandada por uma elite predadora e especulativa que não se interessa por produzir; uma classe média que pensa ser elite por ter tido acesso à educação e bons salários, que proporcionaram aos seus integrantes viajarem para os mesmos lugares antes reservados aos seus patrões e uma classe abastada. A classe mais baixa da população ascendeu socialmente e ocupou espaços na cena social. Chegamos a ocupar o posto de sexta economia mundial, depois de termos saído do mapa da fome.

O que deu errado? Uma pesquisa realizada há anos atrás traçou um perfil dos brasileiros quanto à essa ascensão social. Chamou minha atenção justamente a falta de consciência de que tudo o que havia sido conquistado nos últimos anos era fruto de políticas públicas, de preceitos constitucionais finalmente cumpridos, como acesso à saúde, educação, emprego e demais direitos sociais.

Vários fatores foram levantados para o que o brasileiro havia conquistado em sua ascensão social; mérito próprio, sorte, vontade divina...

Infelizmente a nós brasileiros falta muita coisa, mas a principal é mesmo a consciência de quem somos de verdade.

Talvez tenha sido a maldição do nosso próprio hino nacional:

“(...) Brasil, um sonho intenso (...)

 

(...) Gigante pela própria natureza,

És belo, és forte,

Impávido colosso,

E o teu futuro espelha essa grandeza.

 

(...) Deitado eternamente em berço esplêndido (...)”

 

Os trechos acima nos dão alguns indícios do que se passa conosco; vivemos num sonho, somos um gigante adormecido à espera do futuro (que nunca chega), deitado ETERNAMENTE em berço esplêndido.

Que ao menos saibamos apreciar a beleza daqueles que se despertaram.

Chile despierto! No vuelvas a dormir.

  https://www.youtube.com/watch?v=Cuzl_QTBlWI&feature=youtu.be