terça-feira, 24 de outubro de 2017

Terapia da Loucura



Em tempos difíceis, de tanto retrocesso, nos quais somos chamados de vagabundos, pedófilos, mercenários e sofremos censura, eu ofereço a vocês o meu corpo, como uma folha em branco”, dizia a atriz enquanto despia-se de suas vestes e convidava o público a pintá-la toda com tintas coloridas e pincéis. 

Aplausos enlouquecidos e um grito: “Maravilhoooooooooooooooosa”. A atriz não era uma jovem de vinte e poucos anos, mas uma mulher de cinquenta. Fez-se um breve silêncio, até que a banda começou a cantar:

“Dizem que sou louca, por pensar assim
Se eu sou muito louca, por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz e não é feliz, não é feliz”

Parte da plateia levantou-se em direção a ela e, respeitosamente, adornou seu corpo nu com símbolos e abstrações, sob uma iluminação incidente, exclusivamente, sobre o local onde tudo acontecia. 

Performance e música levaram-me para longe dali. Voltei no tempo; década de noventa, quando eu estava com quinze anos de idade e me inscrevi para uma oficina de teatro no interior paulista, ministrada por um diretor espanhol. 

Os participantes da oficina formavam um grupo heterogêneo, composto de estudantes adolescentes locais e de cidades vizinhas, além de adultos de variadas formações.

Os trabalhos duraram manhã, tarde e noite. Era um intensivo com intervalos de algumas horas para descanso e alimentação. Não me lembro bem se foi no segundo dia de oficina que veio o exercício de nudez. Desnecessário aclarar que só praticou quem se sentiu confortável e seguro. Sem imposições. Vários adolescentes homens fizeram, para minha surpresa. Adultos não ficaram de fora; homens e mulheres.

A notícia correu a cidade e causou comoção. Alguns adolescentes não voltaram mais. Alguns adultos foram demitidos de seus trabalhos. A nudez causou escândalo, mas a oficina seguiu seu curso até o fim. 

No colégio, um dos garotos tinha feito o polêmico exercício. Ficamos amigos. Ele sempre vinha falar comigo. As meninas riam dele pelas costas, enquanto diziam que eu era amiga do “pelado”. Eu assentia, confirmava com orgulho que éramos amigos. 

Parece mesmo ser função da arte, em suas diversas manifestações, provocar, incomodar, chocar, subverter o que está posto e consolidado, desconstruir e reformular, desconectar, incutir a dúvida, ser amada e odiada e, sobretudo, causar reflexão. A tranquilidade pode ser alcançada num colchão macio e no travesseiro com penas de ganso. Não na arte.  

A performance da atriz teve para mim um efeito mágico e intenso; pois me tirou de um lugar absolutamente previsível e enquadrado, seja por questões profissionais e de cotidiano, e me lançou num êxtase contemplativo àquela cena, com suas cores, expressões corporais, entrega corajosa da atriz, iluminação e música, que tão perfeitamente vestia tudo aquilo.

Ao final, as pessoas foram deixando as tintas e os pincéis no chão e se despediram dela com beijos nos lábios, um hábito comum no meio artístico, mas também um inequívoco sinal de gratidão. Apesar do silêncio, muitas palavras podem descrever aquele momento. Essas são as minhas.

“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar
Que Deus sou eu”


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Crônica de uma noite insana.



O início foi leve e parecia ter final previsto. Para tanto, o vinho eleito era um tinto espanhol, cuja principal característica era a inocência, mas que no decorrer da degustação, revelou dominar a arte da sedução. Beba-me todo, faltou dizer. Obedecemos ao comando silencioso. 
Quando tudo parecia se aproximar do fim, em companhia do inocente sedutor, eis que chegam as meninas que, naquela noite, saíram em tapas. Voltar para casa tão cedo? Não, não. 
Saímos daquele ambiente sério e caímos num barzinho cheio e barulhento, com cardápio etílico variado e tentador. Meu corpo me dizia que bastava e eu me encantei por um mate com especiarias, porém, quando se está em grupo opinião não é algo solitário. O que vi em meu copo foi um colorido e dissimulado Cleriquot. E água, para que nada de desastroso me acontecesse mais tarde. 
Uma das meninas se interessou por uma cerveja que prometia “explosão e potência”, antes da vírgula, como fez questão de ressaltar. Curiosa, perguntei a ela se a bebida entregava o que prometia. Após rápida reflexão, sentenciou, com base em sua convicção, que ela era surpreendente por ser incoerente. Uau! Que interessante. Restou-me apenas acreditar, já que provar não estava em meus planos.
A outra garota, de fala mansa e jeans customizado, optou por uma vodca de delicadeza indiscreta, pareceu ao final que era suave, mas ordinária. Após suas impressões, notei que o garçom entregou-lhe um punhado de bolachas de chope, sem que ela pedisse. Ela riu e nos esclareceu que ele deveria tê-la visto se apropriando de umas poucas que estavam à mesa. Aí, como quem diz, não precisa furtar, basta pedir, prestou-lhe tal gentileza. Rimos todas. E com aquela delicadeza ordinária da vodca correndo em suas veias, contou que sentou no colo daquele surfista porque ele era legal. Mais risadas e, depois, pedidos de esclarecimentos. Eu sempre quero saber a razão das coisas, mesmo que elas não existam. Ela contou que era uma questão de disposição no carro, faltava lugar, mas que não podia se furtar de proferir a frase de efeito. Concordei com ela. Um efeito assim não se descarta. 
E uma vez que o mote era esse, logo se lembraram do P.F. (personal fucker), de grande utilidade para momentos de alguma tensão e solidão entre um relacionamento e outro. Sobre as características masculinas desejáveis, seja para um relacionamento ou para um amigo íntimo; eis algumas: Não precisa ser bonito, mas tem que ter um elã; homem com mão delicada não tem credibilidade e quanto à pegada mais forte, foi dito que não é agressão, é eficiência. 
Nessas horas, ninguém se importa com o volume da conversa e se alguém da mesa ao lado está ouvindo as tão efusivas impressões. Ao final, foi dito o seguinte: Não sei o que é melhor; viver as noites estranhas ou escutar histórias das noites estranhas. 
Ao chegar a casa, abri a porta sem fazer barulho, mas assim que entrei na sala, escutei passos; era Lorenzo, meu pequeno de três anos. Carregava o gato de pano e olhou-me de cima abaixo, com uma cara de “Onde você estava até uma hora dessas?” A sensação foi a mesma de quando eu tinha quinze anos e meu pai me olhava torto, quase furioso, quando me flagrava. Homens!




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Carvão

O pedaço de carvão passeava pela parede branca em busca de formas que a mente queria exteriorizar.
A mão corria de um lado a outro acompanhada pelos olhos, que conferiam a compatibilidade das formas. 

Em cima do banco ficou o gênio nanico saído de uma lâmpada mágica imaginária. Atrás dele, duas mulheres. Uma delas com artefato semicircular na cabeça, com fio que o ligava a algum lugar. Os olhos da outra transmitiam medo, enquanto a boca se abria em solidário sentimento. Ela olhava à frente com o braço esticado, apontando o perigo.

No entanto, eis que surge o dono da parede que servia de abrigo para a trama inacabada. Não gostou da bagunça e brigou com a dona daquela mão atrevida. Isso não poderia mais se repetir. A parede voltaria a ser branca durante a semana. 

De tudo, sobrou uma foto do desenho e da desenhista, sentada em frente à sua criação com final suspenso, como é hoje a maneira que mais gosta de contar histórias. 




domingo, 14 de maio de 2017

Felicidade Sintética

O sorriso é sempre o mesmo, bem aberto e animado. Em plena segunda-feira de manhã.
A vida é bela.
Ali não cabe cansaço, queixas ou questionamentos. Aparentemente, a disposição reina absoluta. Talvez absolutista.

Aqui não. Aparece e desaparece. O sorriso é variável, sendo que nem sempre está disposto a se formar. As limitações são conhecidas em sua maioria.
Porque é assim. Nem sempre queremos ou estamos dispostos a sermos felizes. Não de qualquer jeito.

Falsas Confidências

Gostei do nome e vi que o filme era francês. Nada além disso, não tive tempo de ler sobre o que se tratava. Uma experiência no escuro.

A sessão começava às 13:50 h. e esse era o horário em que eu estava comprando o ingresso.

 - Ainda dá para entrar?
 - Sim.
 - Hum...você sabe se o filme é bom?
 - Olha, as sessões têm lotado, não é o caso de hoje, mas nas últimas três semanas lotou.
 - Eu vou nesse mesmo.

Entrei na sala quase vazia e escolhi onde sentar. Não havia perdido nenhuma cena do filme. Que bom.

O espectador se vê no domínio da narrativa, sem que os segredos da trama lhe sejam ocultados. Parece bem fácil; é só se acomodar na poltrona e assistir o desenrolar dos acontecimentos, que parecem óbvios. Todos os personagens são interessantes. Todos.

No entanto, algumas coisas incomuns vão sendo deixadas no meio do caminho, tal qual pistas para que, quem sabe, o espectador se dê conta do que está passando. Eu as vi e as estranhei ali, mas não resisti à sedução proposta. 

Não ignorei os sinais deixados, cheguei perto, mas não descobri o que de fato se passava. Numa das últimas cenas, antes da descoberta final, pensei: “Nossa! Um golpe dentro do outro!”

Pois é, eu ainda nem tinha chegado ao último, esse sim, destinado a quem assiste. E revelado na maior naturalidade, na cena menos carregada de todas.