“Em tempos difíceis, de tanto retrocesso, nos
quais somos chamados de vagabundos, pedófilos, mercenários e sofremos censura,
eu ofereço a vocês o meu corpo, como uma folha em branco”, dizia a atriz
enquanto despia-se de suas vestes e convidava o público a pintá-la toda com
tintas coloridas e pincéis.
Aplausos
enlouquecidos e um grito: “Maravilhoooooooooooooooosa”.
A atriz não era uma jovem de vinte e poucos anos, mas uma mulher de cinquenta. Fez-se
um breve silêncio, até que a banda começou a cantar:
“Dizem que sou louca, por pensar assim
Se eu sou muito louca, por eu ser
feliz
Mais louco é quem me diz e não é
feliz, não é feliz”
Parte
da plateia levantou-se em direção a ela e, respeitosamente, adornou seu corpo
nu com símbolos e abstrações, sob uma iluminação incidente, exclusivamente,
sobre o local onde tudo acontecia.
Performance
e música levaram-me para longe dali. Voltei no tempo; década de noventa, quando
eu estava com quinze anos de idade e me inscrevi para uma oficina de teatro no
interior paulista, ministrada por um diretor espanhol.
Os
participantes da oficina formavam um grupo heterogêneo, composto de estudantes
adolescentes locais e de cidades vizinhas, além de adultos de variadas formações.
Os
trabalhos duraram manhã, tarde e noite. Era um intensivo com intervalos de
algumas horas para descanso e alimentação. Não me lembro bem se foi no segundo
dia de oficina que veio o exercício de nudez. Desnecessário aclarar que só praticou
quem se sentiu confortável e seguro. Sem imposições. Vários adolescentes homens
fizeram, para minha surpresa. Adultos não ficaram de fora; homens e mulheres.
A
notícia correu a cidade e causou comoção. Alguns adolescentes não voltaram
mais. Alguns adultos foram demitidos de seus trabalhos. A nudez causou
escândalo, mas a oficina seguiu seu curso até o fim.
No
colégio, um dos garotos tinha feito o polêmico exercício. Ficamos amigos. Ele
sempre vinha falar comigo. As meninas riam dele pelas costas, enquanto diziam
que eu era amiga do “pelado”. Eu assentia, confirmava com orgulho que éramos
amigos.
Parece
mesmo ser função da arte, em suas diversas manifestações, provocar, incomodar,
chocar, subverter o que está posto e consolidado, desconstruir e reformular,
desconectar, incutir a dúvida, ser amada e odiada e, sobretudo, causar
reflexão. A tranquilidade pode ser alcançada num colchão macio e no travesseiro
com penas de ganso. Não na arte.
A
performance da atriz teve para mim um efeito mágico e intenso; pois me tirou de
um lugar absolutamente previsível e enquadrado, seja por questões profissionais
e de cotidiano, e me lançou num êxtase contemplativo àquela cena, com suas
cores, expressões corporais, entrega corajosa da atriz, iluminação e música,
que tão perfeitamente vestia tudo aquilo.
Ao
final, as pessoas foram deixando as tintas e os pincéis no chão e se despediram
dela com beijos nos lábios, um hábito comum no meio artístico, mas também um
inequívoco sinal de gratidão. Apesar do silêncio, muitas palavras podem
descrever aquele momento. Essas são as minhas.
“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar
Que Deus sou eu”

