A caminho da escola, por volta de 8:30 da manhã, depois de falar sobre os meses com 30 e 31 dias, Dante achou por bem agitar um pouco o papo:
- Ôh mãe, quando é que o Rio de Janeiro vai morrer?
- Oi?
- Quando o Rio de Janeiro vai morrer?
Suspirei, ajeitei os óculos escuros em cima do nariz, lamentei, intimamente, que estivesse um calor de quase 30º em pleno inverno e respondi decidida a mudar o rumo da conversa:
- O Rio de Janeiro não vai morrer!
- Vai sim...
- Não meu amor, o Rio de Janeiro é uma cidade.
Dante soltou a mochila, abriu os bracinhos, arregalou os olhos verdes olhando bem para minha cara e disse o seguinte:
- Quando o mundo explodir?
Já imaginaram ouvir isso da boca de uma criança de 6 anos? Eu fiquei tão estupefata que minha primeira reação foi pedir-lhe satisfação:
- De onde você tirou essa porcaria de informação?
Nesse momento, só me vinha à mente a imagem de Adrián assistindo àqueles programas de física no History, Discovery e National, com Dante ao lado. Minha vontade era ligar para a central da NET e cancelar essa porcaria toda, só de raiva.
- Não é? O Rio de Janeiro vai morrer quando o mundo explodir, não é? Quando isso acontecer - explicava ele com didática sádica, até abaixando o tom de voz - as cidades vão ficar pequenininhas assim ó.
A cena era um menino atrevido contando como se daria o fim dos tempos diante de uma mãe atônita, com olhos arregalados, boca aberta e batimentos cardíacos alterados.
- Responda Dante! De onde você tirou essa informação?
Que raiva eu sentia do Adrián!
- Ué...do meu "célebro", disse Dante exibindo o perfil e passando o dedo indicador desde o meio da testa até a parte de trás da cabeça.
- Do seu cérebro?
- É! Ôh mãe, se o "célebro" é divido em dois, por que a minha cabeça não?
- Porque o crânio, que protege o cérebro, não é.
- Ah tá.
Eu quase atravessei a rua com o sinal fechado para pedestre. Quase tudo, menos ouvir sobre o fim do mundo de uma criança.
- Ôh mãe, eu gosto de fazer parada técnica!
- Parada técnica?
- Sim, ali na lanchonete do posto de gasolina. É que eu estou com sede e queria beber uma coisinha.
- Beber uma coisinha? Tá bem, eu também tô precisando beber uma coisinha.
Em outras condições tal parada técnica seria vedada, mas àquela altura quem precisava dela era eu. Saímos de lá, ele com um Gatorade de uva e eu com uma água bem gelada. A conversa daí para frente foi bem amena:
- Aaaaaaaaaai, que gostoso, mamãe! Bem refrescante.
- É, que bom, né Dante? Que bom.
- É. Muito bom.
domingo, 19 de julho de 2015
Mãe, o que é deus?
- O que é deus?
Adrián e eu nos entreolhamos. Ele, rapidamente se esquivou:
- A mamãe vai te
explicar, ela estudou em colégio de freiras.
- Mãe, o que é deus?
Entre duas cadeiras de criança no banco traseiro do carro,
fui alvo da tal pergunta. Não teve introdução ou rodeios, ela veio assim mesmo
e acompanhada de um olhar em expectativa.
- Deeeeeeeeus... Deus
é... Deus é uma ideia (tom indeciso)... Quer dizer, Deus é um ser (mais
confiante), que você nunca vai conhecer!
- Por que?
- Porque o segredo é
esse. Você acredita mesmo sabendo que nunca vai conhecer. É o que se chama fé. Ah,
e também tem outra coisa, você pode acreditar ou não em Deus, entendeu?
- E você, acredita?
Perceberam que até o momento Dante não respondeu a uma única
pergunta? São apenas outras perguntas como respostas.
- Hum...sim.
- E o que mais?
- Bem...dizem que ele
é o criador de todas as coisas (tom relutante, temendo incutir na mente dele o
criacionismo). Mas olha, assim...o universo foi criado por uma grande explosão.
Não foi isso que você aprendeu na EDEM (escola laica, cujo prédio é um antigo
convento, a logomarca é uma maçã e a dona é judia – eu adoro isso)?
- Sim.
- Exatamente.
Continuando, Deus é importante para todas as religiões (em dúvida após a
afirmação feita), sabe?
- E o Cristo Redentor?
- É uma estátua que
fica lá no alto do Corcovado (não resisti).
- Ah tá...
Adrián não aguentou e achou por bem participar da conversa.
- Não! Ele não é só
uma estátua. Explica direito.
- Mãe, não foi o
Cristo que morreu na cruz?
- Dante, de onde você
tirou essas informações?
- Ué, eu tava
conversando com meus amigos.
- Ah tá. Jesus...é o
filho de Deus (para alguns, pensei e calei, a coisa já estava bem complexa).
- Filho?
- Sim.
- E quem é a namorada
de Deus?
- Não tem namorada.
- Namorado?
- Tampouco (pensei em
dizer que era um ser assexuado, mas só pensei).
- Ué...então como é
que ele tem filho?
- Pois é...como é que
eu vou te explicar? Olha, dizem que foi assim, Deus escolheu a Maria para gerar
Jesus (tipo uma inseminação artificial, pensei e calei). E ela engravidou e
Jesus nasceu.
- Hum...E por que mataram
Jesus?
- Então, ele tinha
ideias muito avançadas para a época e o poder vigente se sentiu
muito ameaçado com os ensinamentos dele. Aliás, se fosse hoje, teria o mesmo
fim, acredite na mami.
- E quando ele nasceu?
- Há mais de 2000 anos.
- Em que dia?
- No dia 25 de
dezembro. Por isso comemoramos o Natal.
Adrián completou dizendo que a data não era apenas para as
pessoas gastarem dinheiro com presentes. E que o real significado do Natal era
o nascimento do “niño Dios”.
- Ah tá...e depois mataram
Jesus?
- Sim.
- E onde ele está
enterrado?
- Bem...como é que eu
vou te dizer? Assim; depois que tiraram Jesus da cruz, levaram-no para uma
gruta. O problema é que, quando voltaram lá, ele não estava mais.
- Ué, e onde ele
estava?
- E foi então
que...bom...eles acharam que Jesus havia ressuscitado.
- O que é isso?
- Ressuscitar é voltar
à vida, entendeu?
- Ah tá. Então, Jesus
é tipo um zumbi, né?
Eu fiz uma cara de reflexão pensando no que tinha ouvido, expressão
rapidamente captada por Adrián, que mais uma vez, fez uma intervenção:
- Não!
E eu:
- Não. Não.
- Ué...então é o que?
- Ressuscitar é voltar
à vida em toda a sua plenitude e não pela metade, feito o zumbi, que é um morto vivo.
- Ah...e para onde ele
foi depois disso?
- Hum...ele?
Bom...parece que...dizem que ele...
E Adrián:
- Ele voltou a viver
com o pai dele, amor.
- É, disse eu. E nesse
dia a gente comemora a Páscoa. O dia em que ele ressuscitou.
- E o ovo da Páscoa?
- Ah filho...mais uma
invenção do homem para as pessoas gastarem dinheiro, mas o ovo deveria
simbolizar essa história toda. O fato é, meu amor, que até hoje procuram os
restos mortais de Jesus.
- O que são restos
mortais?
- Ah...os ossos.
- Hum.
- Essa história é
muito complicada, né?
- E se acharem os
ossos de Jesus? É por que ele não ressuscitou?
- Ah...o que importa é
a alma, filho. E ela ressuscitou.
- O que é alma?!
terça-feira, 17 de março de 2015
O disco vermelho do Chico.
Estava eu, cabisbaixa, lendo notícias pela internet, quando me deparo com um palpite do Xico Sá em que ele faz uma alusão à música "Pelas Tabelas" do Chico Buarque. Disse ele: "quando vi os reaças batendo as panelas, eu achei que era ela voltando prá mim". No momento em que li "batendo as panelas" letra e música invadiram minha mente e me arrancaram um sorriso.
E fiquei a tarde toda cantarolando mentalmente aquela maravilha que há tanto tempo não ecoava em meus pensamentos tão atribulados e aflitos. "Claro que ninguém se importa com minha aflição".
Cansada e em estado de alerta fui caminhando até às redondezas do lugar onde faço uma pós graduação. À minha direita, uma loja que vendia CDs tocava um blues sofrido que me fez entrar para olhar o que tinha por ali.
Um senhor se aproximou e me perguntou se eu procurava algum cd em especial. Nada, só estou olhando. Ah...será que o senhor não tem algum cd da Elba Ramalho, daqueles em que ela cantava xotes e frevos?
Mostrou-me então o único dela na loja. Depois de uma olhadela disse que poderia ser aquele sim. Segui procurando sabe-se lá o que. Há quanto tempo não compro um cd? Anos. Logo eu, que adoro uma música tocando no ouvido. Que rio e choro com elas. É certo que eu prefiro as que me fazem chorar. Não que sejam tristes, não necessariamente, não todas. Elas me tocam, me emocionam. Às vezes a letra, outras a melodia e muitas vezes as duas juntas, combinadas.
Ao dedilhar os itens da prateleira eis que ele para à minha frente. Ele mesmo. O álbum vermelho do Chico Buarque; "Vai Passar" de 1984. Nossa! Era o que eu precisava para voltar 30 anos no tempo e recordar de um sábado a tarde em que meu pai chegou em casa com um pacote.
Ele, também Chico, entrou e anunciou que tinha comprado cinco LPs. Eu corri antes que ele abrisse o pacote e perguntei se ali tinha o disco novo do Chico. Ele disse: "Olha aí, tem de tudo".
O primeiro era do Luiz Gonzaga, os três do meio não me lembro, e o último era o do Chico, o álbum vermelho em que ele aparece vestido de azul para combinar com seus lindos olhos claros. Ele sorria. Era 1984. Sorríamos todos.
O objeto do desejo imediato era a faixa "Vai Passar", virou hino da época. E apenas depois de ouvirmos sei lá quantas vezes a mesma música, pusemos o LP para tocar inteiro. Lá estava ela; "Pelas Tabelas". Tão bonita, marcante, provocativa.
Que momento feliz aquele cd me devolveu. Um sábado alegre e ensolarado, em todos os sentidos. Eu tinha 9 anos, não entendia muito bem o momento, mas sabia que aquele adesivo amarelo e preto pregado no carro dos meus pais que dizia "Diretas Já" era importante. Muito importante.
Ontem esteve nublado, céu cinza com previsão de tempestade para os próximos dias. Há quem goste, não eu. Gosto de sol, de dias iluminados que prometem sorrisos e provocações. Saudades daquele sábado de 1984 em que todos sorríamos esperançosos, como o Chico da capa do disco vermelho.
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