O que ela vê que eu não vejo?
Alguma coisa com certeza, do contrário não estaria apontando esse troço para cá. E de onde eles vieram, todos eles?
Do meu lado vejo apenas cadeiras empilhadas, o bar que freqüento há 43 anos e a mesma rua de sempre, com as mesmas pessoas, até a mesma comida que peço sempre que venho aqui. Só mesmice. Não entendo. Só me resta esticar as pernas e vigiar esse pessoal com máquinas fotográficas. Bem...que isso não se torne uma rotina! Caso contrário é bem capaz do Manoel querer subir o preço da cerveja e do bolinho de bacalhau, que nem é lá essas coisas, massa de mais, bacalhau de menos. A vida é assim, as pessoas vem procurar poesia longe de casa e agente é que acaba pagando a conta.
Foto: Cecília Bhering
Ué...tá querendo o que com a sacada da Rita? Bem se vê que a moça não é daqui, se soubesse como a Rita é desconfiada... Não duvido que ela apareça na calçada para tomar satisfações. Não vai gostar nada de ver a moça tirando foto da casa dela.
- Olha lá Manoel; foi tirar retrato da casa do Mustafá. Eu sempre gostei dessa casa. É bonita aquela porta com arabescos brancos, né?
- Arabescos, Jair? Até que tu sabes das coisas, o nome é esse mesmo. Vais querer outra cerveja, oh pá?
- Vou querer sim, Manoel. Agora que arranjei uma distração, vou ficar mais um pouquinho. Agora que me dou conta, ainda não vi a dona Alzira aguando as plantas hoje. Estranho, ela nunca se atrasa e nem se esquece das plantas dela.
- Parece que saiu cedo, hoje. O Zé disse que carregava uma mala, veio até um taxi para buscar a Alzira. Ele só não soube dizer para onde ela foi e nem quando ela volta. Sabes como é desinteressado o Zé, né? Conta tudo pela metade e nunca sabe de nada, basta fazeres uma pergunta para ele dizer: “Ih, sei não!”
- ... com mala e de taxi?! E o Zé não perguntou nada? Olha lá, Manoel! Aquele moleque da mercearia do Geraldo. Eu tenho vontade de pegá-lo pelos fundilhos cada vez que ele larga aquela maldita bicicleta na parede da minha casa, não agüento mais falar com o Geraldo sobre essa porcaria desse costume horroroso, mas você sabe o que eu vou fazer? Um dia não vou pagar a conta para poder me ressarcir dos buracos que ele deixa na parede. Olha lá ele...Ôh moleque, já não te falei para não apoiar a bicicleta na parede, porra?
- Fique calmo, homem! Não fiques nervoso por tão pouco, isso faz até mal a saúde.
- Oh Manoel, pois eu vou te dizer o que é que faz mal à saúde: é essa fritura que como aqui no teu boteco. Tome aqui o teu dinheiro, vou dar uma olhada no que essa turma tá aprontando, porque se vê logo que eles não são daqui.
E seguiu atrás daqueles rapazes e moças que estavam ali tirando foto disso e daquilo, mas realmente não conseguia entender que tipo de interesse aquele lugar humilde, simples, com casas antigas e descuidadas pudesse ter despertado. Olhou para cima e viu o marido da dona Antonia lendo o jornal na sacada, concluiu que ele ou estava se exibindo para aparecer nos retratos ou estava ali fingindo ler o jornal para ficar de olho naquela gente toda. Achou mesmo que estava querendo aparecer, pois botou uma camiseta, coisa que geralmente não faz, prefere ficar alisando o barrigão peludo em movimentos circulares e quando se cansa termina dando um tapa com a mão aberta na altura do umbigo antes de entrar. Sim, sim...estava posando.
Logo no início da subida da ladeira, Jair sentiu suas pernas fraquejarem, como se depois de tanto tempo já não agüentassem mais o peso do corpo, como se suas pernas também tivessem se cansado daquela mesmice de carregá-lo para baixo e para cima, todo santo dia, um após o outro, uma perna na frente enquanto a de trás dava o impulso e assim sucessivamente. É, parece que a grande novidade daquele dia era que suas pernas quiseram fazer uma pausa. Pensou que poderia pedir emprestado um daqueles tripés que sustentam a máquina fotográfica. Que besteira. A sensação era de assustadora insegurança, mas seus olhos ainda alcançaram ver um banco vazio que pudesse lhe servir de apoio. Mesmo sua vista parecia estar cansada, tanto assim que só viu com clareza o banco, o resto estava embaçado. As mãos trêmulas agarraram o encosto do banco e Jair sentou-se ali para se recuperar. A respiração estava tão estranha...ofegante. E aquela fraqueza das pernas parecia apoderar-se de todo seu corpo, até mesmo de seus pensamentos, que lentamente foram silenciando. Deitou-se então naquele banco, que foi a última coisa que viu com nitidez. Achou que ao menos alguém poderia tê-lo envernizado.
Muito bem escrito como de hábito. Parabéns Susana!
ResponderExcluirPedro, muito obrigada. Fico feliz que tenha gostado. Abraço.
Excluir