sexta-feira, 13 de maio de 2016

"É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade" - Nise da Silveira.

Minha primeira lição de política veio de forma meio atabalhoada. O último presidente da ditadura militar, o que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro de povo, havia caído de um de seus cavalos e fraturado a perna. Passou no jornal nacional como um acontecimento importante. Eu, criança de tudo, olhei para a cara velha dele e disse:"Tadinho!"

Aí veio a lição. Meu pai veio em minha direção com o dedo em riste e disse:"Coitado não! É um filho da puta, Susana. Filho da puta, ditador, bandido!" Aproveitou e me disse que o tal regime matava pessoas.

Eu escutei tudo e repeti: "Filho da puta! Filho da puta!"

Na sequência vieram as Diretas Já, e meus pais carregavam no carro o tal adesivo preto e amarelo que pedia que os cidadãos brasileiros pudessem votar eles mesmos para presidente. As eleições diretas não vieram naquele momento, mas a redemocratização foi chegando aos poucos. E com ela foi instalada a Assembleia Constituinte, onde o Congresso Nacional votava a Constituição da República Federativa do Brasil. Durante a semana, os trabalhos da Assembleia eram transmitidos por algum tempo pela televisão.

Aí outro fato interessante. Eu e minha avó Júlia sentávamos juntas, na mesma chaise long, e lá ficávamos ouvindo como se fazia uma Constituição. Penso que talvez aí esteja a raiz de uma futura decisão em cursar direito na faculdade. Talvez. Ela não chegou a ver a Constituição promulgada, morreu antes. Mas eu vi.

No dia 05 de outubro de 1988 eu tinha 13 anos e me lembro apenas que estava no quintal de casa pulando e gritando porque a Constituição existia enfim. Não lembro o que passava em minha cabeça ou mesmo se eu tinha noção do que isso significava de fato. Só consigo lembrar que sentia um tipo de alegria.

Depois disso, muita coisa aconteceu. Muitas lições mais vieram através de professores, amigos e muita observação. A diversidade de crenças e opiniões sempre me atraiu e instigou. Sempre me pareceu saudável e honesta essa convivência com pessoas que divergem de você.

Quando foi mesmo que isso deixou de ser interessante? Quando foi mesmo que ataques raivosos começaram a nos enxovalhar, a nos apontar o dedo e nos aplicarem adjetivos carregados de preconceitos e esvaziados de razão?

Eu particularmente passei a conhecer o lado B de muita gente no facebook. E descobri logo que ali não era o meu lugar. Obviamente, as redes sociais não são a razão dessa virulência, são apenas plataformas de disseminação de opiniões. A raiz penso que seja outra; a opinião massificada da grande mídia, que se dedica a uma campanha de destruição do jornalismo e adoção de um comportamento político partidário coadunado ao seu interesse particular, o que no meu muito humilde entender, não me parece ser a função da imprensa. E isso, claro, não é de agora.

O golpe de 1964 teve a mesma dinâmica, campanha massiva dos jornais para o linchamento moral de Jango, pesquisas de opinião em que se demonstrava baixa popularidade e acusações de corrupção. Tudo pronto. Marcha da família com Deus para referendar e aprovar o golpe que a elite e a classe média queriam.

Um ano depois do golpe, Roberto Marinho ganha a concessão para operar uma emissora de televisão e se torna, a partir de então, um dos homens mais ricos do Brasil, com um absurdo volume de dinheiro público injetado em seu negócio. Contraprestação? Apoio ao regime ditatorial, porta-voz e propagandista.  Outro dado interessante é a revelação de que Roberto Marinho "convenceu" Castelo Branco a não chamar eleições diretas para sua sucessão e indicou um nome linha dura para o ministério das comunicações. Em 1969 veio o Ato Institucional nº 5, o terrível. http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/04/eua-confirma-acao-de-roberto-marinho-nos-bastidores-da-ditadura-3931.html

Perseguição, tortura e assassinatos. Sobre tudo isso repousa a fortuna dessas famílias donas da grande mídia brasileira. Então, eu realmente tenho dificuldade em entender que pessoas se conduzam cegamente pela opinião desses meios nos dias de hoje. Atualmente, com o advento da internet, aconteceu a democratização da opinião. Jornalistas que antes se submetiam, sem outra alternativa, aos caprichos dos seus patrões, donos de jornais e revistas, para exercerem suas profissões, hoje podem ao menos expressarem suas ideias facilmente. E nós, leitores, podemos escolher, comparar e tirarmos nós mesmos nossas próprias conclusões. Hoje, não precisamos mais sermos reféns da grande mídia. É uma opção pessoal não querer analisar e pensar.

Logo pela manhã, no twitter, li uma postagem do Xico Sá em que ele dizia respeitar quem foi de certa forma levado a acreditar nesse golpe, pois a mídia fez uma campanha incansável por ele. Eu não consigo respeitar. Xico é certamente um ser mais evoluído que eu e eu entendi a essência do que ele quis dizer.

No entanto, o que sinto é raiva por saber que os direitos de tantas pessoas, incluindo os meus e dos chamados idiotas úteis, estão ameaçados.

A tv aqui em casa não é ligada na globo ou afins. Meus filhos não precisam ser submetidos a essa grande mídia enquanto estão em formação. Precisam de estudo e de poder de análise, coisa inexistente nessa mídia de famiglia.

Ontem, assisti ao discurso de despedida da Dilma. Enquanto ela falava e não derrubava uma lágrima, apesar de seu visível abatimento e tristeza, eu escutava cada uma daquelas palavras prestando atenção àquela força, olhar altivo e dignidade que dela emanavam. Invejei aquela MULHER. Enquanto eu chorava, ela dizia que não desistiria de lutar, porque a vida nunca foi fácil prá ela. Prisão. Tortura. Doença. Linchamento moral, de cunho sexual inclusive, promovido por uma imprensa ela mesma atolada em corrupção (Panama Papers), podridão e histórico de promoção de golpes de Estado. E depois de tudo, Dilma ainda fez questão de abraçar pessoas aos prantos que a esperavam do lado de fora do Palácio. Quanta admiração e carinho eu senti por aquela MULHER. Como no dia em que vários jovens morreram queimados no interior de uma boate no RS e ela saiu de um compromisso oficial e foi até lá abraçar as famílias das vítimas.

No dia anterior ao golpe, eu tinha lido duas cartas; uma de uma trabalhadora sexual e outra de uma lésbica - denominações usadas pelas próprias autoras. Tão bonitas, tão carregadas de humanidade e carinho, escritas pelas mãos de pessoas que sabem bem o que é dificuldade, desrespeito e preconceito. Eram delas para Dilma. Seguem os links;
http://www.revistaforum.com.br/2016/05/11/monique-prada-carta-a-dilma/ http://farofafa.cartacapital.com.br/2016/05/10/voces-ja-estao-mortos/?utm_content=buffer85ae1&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

Votei nela as duas vezes, porque com todos os defeitos dela e os erros que o PT cometeu, eu votei num programa de diminuição do abismo social, da desigualdade, da luta contra a fome de um Brasil que a maioria de nós desconhece e nem tem interesse em conhecer. Votei nas políticas afirmativas. Votei pela ascensão social de milhares de pessoas. Votei por termos chegado a ser a 6ª maior economia mundial e pelo pré-sal. Não me arrependo e nem me envergonho, como muitas pessoas do meu círculo acham que eu deveria. Não tenho a mesma força da Dilma, mas minha cabeça não se abaixa para gente desinformada, reacionária e desumana, que trata os beneficiados de Bolsa Família como pessoas sem mérito e vagabundos, sem nunca terem lido uma reportagem sobre os resultados (http://revistapegn.globo.com/Mulheres-empreendedoras/noticia/2016/03/empreendedorismo-traz-autonomia-mulheres-na-luta-contra-pobreza.html) que o programa alcançou, sem contar o prêmio internacional que o programa recebeu da Associação Internacional da Seguridade Social (ISSA): http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=20191

Não me arrependo de ter ido às ruas, durante o ano de 2015 já, para defender o meu voto que se traduz na soberania popular. Ela, que em 1988 foi elencada logo no inciso I do art. 1º da Constituição; a soberania. O parágrafo único diz que todo poder emana do povo. Será?

Hoje o que sinto é imensa vergonha. No domingo 17 de abril assisti estarrecida o circo de horrores que foi a votação na Câmara dos Deputados. Um desfile de canalhice, sexismo, covardia, apologia aos torturadores e alta traição. Tudo isso com a mais alta dose de desfaçatez. Ao final daquilo, percebi que estava com um hematoma na palma da mão; uma veia estourada e dor de garganta, que evoluiu para uma intensa sinusite. Não liguei mais a tv, não dei conta de ver o espetáculo do Senado. Apenas lia as notícias pela internet.

Contudo, foi esclarecedor assistir à sessão da Câmara, porque ali deu para entender bem com que tipo de gente Dilma estava lidando desde que foi reeleita e todas as chantagens que ela sofreu para tentar governar. A verdade é que ela não conseguiu governar um dia sequer. Ela nada conseguiria aprovar num Congresso tão conservador e retrógrado como tivemos a oportunidade de ver.

Aos que dizem que ela deveria ter se aproximado mais da esquerda, não tiro a razão, mas também nesse ponto, vimos o tamanho da esquerda no Congresso e pudermos ver que sem alianças com outros partidos, nada teria condições de andar.

O sistema de alianças, costurado lá atrás pelo próprio Lula, faliu nas mãos dela, por vários aspectos, mas basicamente porque um homem quase octogenário, marido de uma mulher bela, recatada e do lar, queria ser presidente. Aliado ao fato de um playboy da zona sul carioca, que finge ser mineiro, não ter aceitado a derrota nas urnas e ter encontrado em seu partido apoio para uma oposição irresponsável, que jogou o país no aprofundamento de uma recessão econômica. Homens vaidosos, à sombra de uma MULHER, que não lograram chegar ao poder, acharam normal jogar nossa jovem democracia no lixo e desmoralizar o país na comunidade internacional.

O mote para promover o que a grande mídia chama de dia histórico? A corrupção, sempre ela. Nunca falha. Para que mudar a fórmula se ela sempre funciona? Pois bem, então. Este é o 2º dia do tal governo e já temos 7 ministros acusados na Lava-Jato, que agora tem foro privilegiado e um ministro do STF empenhadíssimo em livrar a cara do Aécio Neves, esse sim fartamente delatado na Lava-Jato, ao contrário da Dilma, cuja única menção em delações foi de ter tentado interferir nas investigações. Tese desmentida pelos próprios integrantes da tal força-tarefa da Lava-Jato. Estou perdida! Não era contra a corrupção? Uma PresidentA sem acusação de corrupção cai e entra um vice, ele sim delatado como recebedor direto de proprina? Onde foi que eu perdi o raciocínio lógico? Já o ministro da justiça, advogado do PCC, tem um  histórico altamente repressor e que já manifestou clara intensão de criminalizar movimentos sociais que farão oposição.

Em relação à liberdade de expressão, rola uma notícia por aí que é bom ficarmos atentos, pois hoje o tal governo tem quórum para fazer o que bem entender, é bom que se diga. Existe um projeto que torna crime falar mal de políticos na internet. A pena chega a dois anos de prisão e o crime é inafiançável, esta última parte não está no link (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/camara-quer-punir-quem-fala-mal-de-politico-na-internet/).

Esse processo todo foi muito doloroso, deixei de admirar e mesmo de depositar sobre pessoas sentimentos como amor, amizade e admiração. Por tudo isso, o que vivo hoje é um luto. Sinto que finalmente, depois de muito ser ameaçada, fui efetivamente violentada em meus direitos. A Constituição Federal foi sendo rasgada pouco a pouco bem diante do meu nariz. O direito, no qual eu tinha alguma crença, foi sendo sistematicamente negado a uns e "flexibilizado" em relação a outros.

Aos 13 anos eu festejei uma Constituição, hoje eu assisto à sua morte. STF? Não mesmo. Ele segue sendo o que sempre foi; o mesmo que entregou Olga Benário grávida ao estado nazista para morrer num campo de concentração. Um dos ministros dá nome a uma das principais ruas do Leblon - Ataulfo de Paiva.

Ontem fui assistir ao filme "Nise, O Coração da Loucura". Nise da Silveira, uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil, se especializou em psiquiatria. Afastada de suas funções porque uma enfermeira a acusou de comunismo, foi presa política. Depois de sair da prisão foi reintegrada ao cargo público. Sofreu preconceito e boicote ao tentar implantar práticas mais humanas dentro um hospital psiquiátrico comandado por médicos homens que aplicavam eletrochoque e faziam lobotomia nos pacientes. A certa altura, um deles em meio a uma discussão a xinga de "comunista" que quer promoção pessoal. Ao que ela responde; minha ferramenta é o pincel, a sua; o picador de gelo. Os resultados que ela obtém no hospital são a incrível melhora da condição clínica dos pacientes e uma vasta produção artística, aclamada pela crítica. Resultados que incomodaram sobremaneira os seus colegas médicos.

Depois do filme fiquei pensando; o que mudou de lá prá cá?

domingo, 19 de julho de 2015

Dante e o fim do mundo.

A caminho da escola, por volta de 8:30 da manhã, depois de falar sobre os meses com 30 e 31 dias, Dante achou por bem agitar um pouco o papo:
 
 - Ôh mãe, quando é que o Rio de Janeiro vai morrer?
 - Oi?
 - Quando o Rio de Janeiro vai morrer?

Suspirei, ajeitei os óculos escuros em cima do nariz, lamentei, intimamente, que estivesse um calor de quase 30º em pleno inverno e respondi decidida a mudar o rumo da conversa:

 - O Rio de Janeiro não vai morrer!
 - Vai sim...
 - Não meu amor, o Rio de Janeiro é uma cidade.

Dante soltou a mochila, abriu os bracinhos, arregalou os olhos verdes olhando bem para minha cara e disse o seguinte:
 - Quando o mundo explodir?

Já imaginaram ouvir isso da boca de uma criança de 6 anos? Eu fiquei tão estupefata que minha primeira reação foi pedir-lhe satisfação:

 - De onde você tirou essa porcaria de informação?

Nesse momento, só me vinha à mente a imagem de Adrián assistindo àqueles programas de física no History, Discovery e National, com Dante ao lado. Minha vontade era ligar para a central da NET e cancelar essa porcaria toda, só de raiva.

- Não é? O Rio de Janeiro vai morrer quando o mundo explodir, não é? Quando isso acontecer - explicava ele com didática sádica, até abaixando o tom de voz - as cidades vão ficar pequenininhas assim ó.

A cena era um menino atrevido contando como se daria o fim dos tempos diante de uma mãe atônita, com olhos arregalados, boca aberta e batimentos cardíacos alterados.

- Responda Dante! De onde você tirou essa informação?

Que raiva eu sentia do Adrián!

- Ué...do meu "célebro", disse Dante exibindo o perfil e passando o dedo indicador desde o meio da testa até a parte de trás da cabeça.
- Do seu cérebro?
- É! Ôh mãe, se o "célebro" é divido em dois, por que a minha cabeça não?
- Porque o crânio, que protege o cérebro, não é.
- Ah tá.

Eu quase atravessei a rua com o sinal fechado para pedestre. Quase tudo, menos ouvir sobre o fim do mundo de uma criança. 

- Ôh mãe, eu gosto de fazer parada técnica!
- Parada técnica?
- Sim, ali na lanchonete do posto de gasolina. É que eu estou com sede e queria beber uma coisinha.
- Beber uma coisinha? Tá bem, eu também tô precisando beber uma coisinha.

Em outras condições tal parada técnica seria vedada, mas àquela altura quem precisava dela era eu. Saímos de lá, ele com um Gatorade de uva e eu com uma água bem gelada. A conversa daí para frente foi bem amena:
- Aaaaaaaaaai, que gostoso, mamãe! Bem refrescante.
- É, que bom, né Dante? Que bom.
- É. Muito bom.

Mãe, o que é deus?


 - O que é deus?

Adrián e eu nos entreolhamos. Ele, rapidamente se esquivou:

 - A mamãe vai te explicar, ela estudou em colégio de freiras.

 - Mãe, o que é deus?

Entre duas cadeiras de criança no banco traseiro do carro, fui alvo da tal pergunta. Não teve introdução ou rodeios, ela veio assim mesmo e acompanhada de um olhar em expectativa.

 - Deeeeeeeeus... Deus é... Deus é uma ideia (tom indeciso)... Quer dizer, Deus é um ser (mais confiante), que você nunca vai conhecer!

 - Por que?

 - Porque o segredo é esse. Você acredita mesmo sabendo que nunca vai conhecer. É o que se chama fé. Ah, e também tem outra coisa, você pode acreditar ou não em Deus, entendeu?

 - E você, acredita?

Perceberam que até o momento Dante não respondeu a uma única pergunta? São apenas outras perguntas como respostas.

 - Hum...sim.

 - E o que mais?

 - Bem...dizem que ele é o criador de todas as coisas (tom relutante, temendo incutir na mente dele o criacionismo). Mas olha, assim...o universo foi criado por uma grande explosão. Não foi isso que você aprendeu na EDEM (escola laica, cujo prédio é um antigo convento, a logomarca é uma maçã e a dona é judia – eu adoro isso)?

 - Sim.

 - Exatamente. Continuando, Deus é importante para todas as religiões (em dúvida após a afirmação feita), sabe?

 - E o Cristo Redentor?

 - É uma estátua que fica lá no alto do Corcovado (não resisti).

 - Ah tá...

Adrián não aguentou e achou por bem participar da conversa.

 - Não! Ele não é só uma estátua. Explica direito.

  - Mãe, não foi o Cristo que morreu na cruz?

 - Dante, de onde você tirou essas informações?

 - Ué, eu tava conversando com meus amigos.

 - Ah tá. Jesus...é o filho de Deus (para alguns, pensei e calei, a coisa já estava bem complexa).

 - Filho?

 - Sim.

 - E quem é a namorada de Deus?

 - Não tem namorada.

 - Namorado?

 - Tampouco (pensei em dizer que era um ser assexuado, mas só pensei).

 - Ué...então como é que ele tem filho?

 - Pois é...como é que eu vou te explicar? Olha, dizem que foi assim, Deus escolheu a Maria para gerar Jesus (tipo uma inseminação artificial, pensei e calei). E ela engravidou e Jesus nasceu.

 - Hum...E por que mataram Jesus?

 - Então, ele tinha ideias muito avançadas para a época e o poder vigente se sentiu muito ameaçado com os ensinamentos dele. Aliás, se fosse hoje, teria o mesmo fim, acredite na mami.

 - E quando ele nasceu?

 - Há mais de 2000 anos.

 - Em que dia?

 - No dia 25 de dezembro. Por isso comemoramos o Natal.

Adrián completou dizendo que a data não era apenas para as pessoas gastarem dinheiro com presentes. E que o real significado do Natal era o nascimento do “niño Dios”.

 - Ah tá...e depois mataram Jesus?

 - Sim.  

 - E onde ele está enterrado?

 - Bem...como é que eu vou te dizer? Assim; depois que tiraram Jesus da cruz, levaram-no para uma gruta. O problema é que, quando voltaram lá, ele não estava mais.

 - Ué, e onde ele estava?

 - E foi então que...bom...eles acharam que Jesus havia ressuscitado.

 - O que é isso?

 - Ressuscitar é voltar à vida, entendeu?

 - Ah tá. Então, Jesus é tipo um zumbi, né?

Eu fiz uma cara de reflexão pensando no que tinha ouvido, expressão rapidamente captada por Adrián, que mais uma vez, fez uma intervenção:

 - Não!

E eu:

 - Não. Não.

 - Ué...então é o que?

 - Ressuscitar é voltar à vida em toda a sua plenitude e não pela metade, feito o zumbi, que é um morto vivo.

 - Ah...e para onde ele foi depois disso?

 - Hum...ele? Bom...parece que...dizem que ele...

E Adrián:

 - Ele voltou a viver com o pai dele, amor.

 - É, disse eu. E nesse dia a gente comemora a Páscoa. O dia em que ele ressuscitou.

 - E o ovo da Páscoa?

 - Ah filho...mais uma invenção do homem para as pessoas gastarem dinheiro, mas o ovo deveria simbolizar essa história toda. O fato é, meu amor, que até hoje procuram os restos mortais de Jesus.

 - O que são restos mortais?

 - Ah...os ossos.

 - Hum.

 - Essa história é muito complicada, né?

 - E se acharem os ossos de Jesus? É por que ele não ressuscitou?

 - Ah...o que importa é a alma, filho. E ela ressuscitou.

  - O que é alma?!

terça-feira, 17 de março de 2015

O disco vermelho do Chico.

Estava eu, cabisbaixa, lendo notícias pela internet, quando me deparo com um palpite do Xico Sá em que ele faz uma alusão à música "Pelas Tabelas" do Chico Buarque. Disse ele: "quando vi os reaças batendo as panelas, eu achei que era ela voltando prá mim". No momento em que li "batendo as panelas" letra e música invadiram minha mente e me arrancaram um sorriso. 

E fiquei a tarde toda cantarolando mentalmente aquela maravilha que há tanto tempo não ecoava em meus pensamentos tão atribulados e aflitos. "Claro que ninguém se importa com minha aflição"

Cansada e em estado de alerta fui caminhando até às redondezas do lugar onde faço uma pós graduação. À minha direita, uma loja que vendia CDs tocava um blues sofrido que me fez entrar para olhar o que tinha por ali.

Um senhor se aproximou e me perguntou se eu procurava algum cd em especial. Nada, só estou olhando. Ah...será que o senhor não tem algum cd da Elba Ramalho, daqueles em que ela cantava xotes e frevos? 

Mostrou-me então o único dela na loja. Depois de uma olhadela disse que poderia ser aquele sim. Segui procurando sabe-se lá o que. Há quanto tempo não compro um cd? Anos. Logo eu, que adoro uma música tocando no ouvido. Que rio e choro com elas. É certo que eu prefiro as que me fazem chorar. Não que sejam tristes, não necessariamente, não todas. Elas me tocam, me emocionam. Às vezes a letra, outras a melodia e muitas vezes as duas juntas, combinadas. 

Ao dedilhar os itens da prateleira eis que ele para à minha frente. Ele mesmo. O álbum vermelho do Chico Buarque; "Vai Passar" de 1984. Nossa! Era o que eu precisava para voltar 30 anos no tempo e recordar de um sábado a tarde em que meu pai chegou em casa com um pacote. 

Ele, também Chico, entrou e anunciou que tinha comprado cinco LPs. Eu corri antes que ele abrisse o pacote e perguntei se ali tinha o disco novo do Chico. Ele disse: "Olha aí, tem de tudo"

O primeiro era do Luiz Gonzaga, os três do meio não me lembro, e o último era o do Chico, o álbum vermelho em que ele aparece vestido de azul para combinar com seus lindos olhos claros. Ele sorria. Era 1984. Sorríamos todos.

O objeto do desejo imediato era a faixa "Vai Passar", virou hino da época. E apenas depois de ouvirmos sei lá quantas vezes a mesma música, pusemos o LP para tocar inteiro. Lá estava ela; "Pelas Tabelas". Tão bonita, marcante, provocativa.

Que momento feliz aquele cd me devolveu. Um sábado alegre e ensolarado, em todos os sentidos. Eu tinha 9 anos, não entendia muito bem o momento, mas sabia que aquele adesivo amarelo e preto pregado no carro dos meus pais que dizia "Diretas Já" era importante. Muito importante. 

Ontem esteve nublado, céu cinza com previsão de tempestade para os próximos dias. Há quem goste, não eu. Gosto de sol, de dias iluminados que prometem sorrisos e provocações. Saudades daquele sábado de 1984 em que todos sorríamos esperançosos, como o Chico da capa do disco vermelho.



sábado, 25 de outubro de 2014

Dante e seu conto fantástico.

Dante e eu vamos caminhando para a escola dele, cujo percurso tem mais ou menos 1 km. Enquanto andamos de mãos dadas, ele não para de falar; faz planos para a festa de aniversário dele (abril de 2015), comenta de modo despretensioso que da próxima vez que eu for comprar uma chuteira para ele, que seja a do Neymar e outras tantas pautas da máxima urgência.
Hoje estávamos já quase chegando à escola quando ele narrou o que foi o seu segundo conto fantástico. O primeiro foi no final da minha segunda gravidez e, infelizmente, não tomei nota, lembro apenas que era bastante bom, pois envolvia espionagem, demanda por alimentos e um mundo caótico. A verdade é que fiquei tão chocada que demorei para reagir ao que ouvi. Enquanto ele falava eu me lembrava de “1984” e o grande irmão.
Então, antes que eu me esqueça, vamos a essa nova trama.
Comecei a captar quando ele disse o seguinte:
 - Eu tenho que cuidar da prateleira.
 - Por que?
 - Porque os dragões vão começar a voar de um lado para o outro.
 - Ah é? Mas por que isso?
 - Porque é assim, eles faziam parte de uma brincadeira que...(Nesse momento ele ergueu os bracinhos em movimentos lentos e circulares) saiu do lugar.
 - O que saiu do lugar?
 - A brincadeira.
 - Caramba! A brincadeira saiu do lugar? Mas como?
 - Ela saiu do lugar e se espalhou para o mundo inteiro, foi até para Moises Ville, para Avanhandava, para Penápolis. E aí os dragões estão soltos voando por aí e brigando uns com os outros.
 - E quem estava nessa brincadeira que saiu do lugar?
 - Eu, o Arthur e o Rafa. Agora nós somos os guerreiros que vão deter os dragões.
 - Isso é o que? Algum vídeo game?
 - Não mãe! Já falei, é uma brincadeira que saiu do lugar. A brincadeira estava num círculo e saiu dele...entendeu?
 - Entendi, disse sorrindo toda orgulhosa.
Ele continuou narrando como derrotaria os dragões baderneiros que se espalhavam pelo mundo. Usaria golpes de judô, cujos nomes foram ditos em termos técnicos que eu não consigo reproduzir exatamente (sotogari – assim soou). Perguntei que golpe era esse. Ele parou na calçada, postou-se à minha frente, pediu que eu abaixasse, pegou a gola da minha camisa e passou a perna dele por trás das minhas, quase me derrubando mesmo, para alegria de uma senhora que nos observava.
 - É isso, sentenciou.
 - Dante, e de onde saiu toda essa história da brincadeira que saiu do lugar?
 - Do meu cérebro, ué!
 - Adorei amor!
 Infelizmente chegamos ao portão da EDEM, uma escola laica instalada num antigo convento, onde nos despedimos e combinamos de nos encontrar no final da tarde.
Assim foi. Quando começamos nossa volta para a casa, retomei o assunto dos dragões dizendo que estava muito curiosa para saber mais detalhes da brincadeira que saiu do lugar.
 - Mãe, dragões existem?
 - Não.
 - Mas eles já existiram algum dia, igual os dinossauros?
 - Não, meu amor, são seres mitológicos.
 - O que é isso?
 - Seres que foram inventados pela imaginação do homem, sem nunca terem existido um dia.
 - Hum...mas esses dragões existem, viu?
 - E onde eles estão?
 - Eles saíram do círculo e vieram para esse mundo nosso, mas nós não vemos porque eles são invisíveis.
 - Viu, não existem.
 - Existem sim, você não vê, mas eles existem, não é porque você não consegue ver que eles deixam de existir.
 - Sério?
 - É sério. Eles saíram da roupa de judô do Alan para voarem por aí.
Claro que meu olhar de mãe acha linda a história, mas eu realmente fiquei feliz em notar que Dante pode olhar para um desenho numa roupa e imaginar toda uma trama a partir dela. A fantasia é mesmo libertadora. Mamãe deseja que você nunca perca essa capacidade de criar suas próprias histórias para fugir da rotina que desde cedo adotamos para organizar a vida.
E concordo muito com você, meu amor; o fato de não vermos não quer dizer que não exista. Além imaginar contos fantásticos, você é um sábio, meu Dante.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lições aprendidas no Facebook.

Hoje desativei minha conta na rede social. As razões foram muitas no final, mas uma em especial foi o que comumente chamamos de gota d´água.
Não lembro bem como e quando começou, mas com o passar do tempo as pessoas foram se soltando e se sentindo bem confortável para quase tudo, até mesmo para postar "selfie after sex". Não. Não sou moralista, meu olhar é outro. É de quem se pergunta qual a razão de tanta exposição. Por que você quer ser visto após o sexo com seu parceiro? Porque o sexo é íntimo demais e isso você não aguenta ou  porque se você não mostrar que dormiu com aquele(a) gato(a), qual a graça? E não, não lembro de nenhum dos meus contatos terem postado selfie pós sexo. 
O que percebi em algumas das pessoas com as quais me relacionava na rede foi a necessidade exacerbada de falar, de opinar sobre  tudo e em velocidade máxima. O que, obviamente, leva o usuário a compartilhar toda a classe de informação, sem a menor preocupação de se certificar da sua veracidade. "Eu quero falar, não importa o que", parecia ser o lema.
Facebook me ajudou muito, sem qualquer ironia, pois aos poucos fui descobrindo coisas que eu nem imaginava ou pelo menos não a intensidade de determinado traço. Aspectos que não estão à mostra num evento social ou mesmo numa conversa ao redor de uma mesa de bar. E então me perguntava; como eu não percebi isso antes? E então descobri; a máscara social que todos usamos para viabilizar uma vida em sociedade foi caindo das faces das pessoas. Mas isso é ótimo, você dirá. Sim, eu também achei. Afinal, é sempre bom saber com que estamos lidando.
Os discursos se multiplicaram e o tom foi aumentando. De repente todos falavam de tudo e quando alguém, dissonante, tenta apresentar um outro lado da questão é rapidamente classificado no velho sistema binário; se você não é isso, só pode ser aquilo. As pessoas não pensam ao menos que você esteja analisando do ponto de vista técnico.
Comigo aconteceu na época do julgamento do mensalão pelo STF. Numa exposição de ponto de vista puramente jurídico, expus meu assombro com decisões conflitantes, arbitrárias, contrárias à jurisprudência do próprio Tribunal e a princípios básicos do Direito. Rapidamente fui classificada como "petralha". Sim, porque se eu não aplaudo ministros de STF dizendo que "A Constituição é o que o STF diz que ela é", em arroubos absolutistas ao estilo "Je souis la loi" não existe outra alternativa a não ser ter certeza de que eu aplaudo os réus. 
Comecei a achar assustador esse caminho de apenas duas vias. Um mundo sem nuances, sem lugar para discussões onde se mantem um respeito mútuo pelas opiniões divergentes.
A militância política virou terreno fértil para discursos violentos e agressões na rede social. 
Observei o que deu e tirei, em silêncio, minhas próprias conclusões com base no que as pessoas me diziam de si através daquilo que postavam; opiniões políticas, posicionamento perante a sociedade e visão dos menos favorecidos. Algumas boas surpresas e outras tantas chocantes. Não apenas pela visão em si, mas pela falta de informação que se escancarava em público.
Mas então veio a Copa do Mundo. E com ela sua grande torcida por uma ou outra seleção. E eu, que gosto de futebol, assisti vários jogos, ri de favoritos que voltaram para casa logo na primeira fase, vibrei com a surpreendente Costa Rica nas quartas de final e óbvio, me espantei com o antológico 7X1 da Alemanha sobre o Brasil.
Após o jogo corri para o facebook e sim, ri muito com as piadinhas que envolviam o tema. Meu irmão caçula me ligou para contar o que ele via e ouvia em São Paulo e eu aqui no Rio, o que ele mais gostou foi a observação de uma senhora que eu encontrei na sala de espera da minha médica: "menina, depois do primeiro gol eu achei que a emissora estava passando o replay".
Um amigo argentino ligou incrédulo para comentar: "Parecia que o jogo era no Estádio de Macondo".
Sim, um amigo argentino. A Argentina então cometeu o mau gosto de não levar uma goleada da Holanda. Pior, ela ousou ir para a final da Copa do Mundo no Maracanã. Um facada no coração de torcedores exacerbados.
Rapidamente, entrou em campo a Síndrome de Estocolmo e boa parte do torcedor canarinho vestiu as cores da Alemanha frente a um perigo maior; Argentina campeã em solo brasileiro. Isso era ainda pior, infinitamente pior, do que a goleada germânica.
Todos nos posicionamos a favor de um e contra o outro; futebol é isso. E é absolutamente compreensível e aceitável que se torça pela Alemanha contra a Argentina. O que estraga, uma vez mais, é a patrulha ideológica quando você escolhe e torna público.
A maioria achou os alemães uns "fofos". Ótimo. E então, começaram os discursos inflamados contra os argentinos, que obviamente, não eram limitados ao futebol de Lionel Messi e Seleção Argentina. Era essencialmente uma agressão a todos os argentinos, à Nação, ao povo e a tudo o que a eles se relacionava.
Falava-se em como eram provocadores, em como se comportavam mal e...em como eram imundos com suas lonas. O mote era de como lhes faltava educação para o que quer que fosse. O interessante era como o possível mau comportamento de alguns torcedores em segundos se converteu para todo um povo. Tudo isso nas redes sociais.
Não posso deixar de dizer que esses discursos de alguns dos meus compatriotas "não me representa", para usar a expressão da modinha. Tampouco vaiar o hino de outras nações ou gastar dinheiro para assistir Argentina e Bósnia e gritar o nome de Neymar.
Quanto à imundice propagada era aquela relativa à invasão argentina na cidade do Rio de Janeiro para acompanhar de perto a final. Muitos vieram de motor home, outros com barracas, enfim, um lindo improviso de última hora para prestigiar a seleção que estava numa final de Copa do Mundo.
Particularmente, eu achei lindo ver a cidade cheia e tomada por estrangeiros empolgados. Achei bacana o enorme acampamento argentino montado pela cidade.
Mas então, para meu assombro, vi cariocas postando comentários impregnados de ódio e xingamentos aos hermanos. Festejavam a derrota e os mandavam embora com suas lonas imundas, arrogância e prepotência.
Não sou carioca. Quando há pouco mais de dez anos mudei para cá, fui morar em Copacabana e fiquei muito mal impressionada com pessoas que atiravam lixo pela janela da sala de apartamento em plena Av. Nossa Senhora de Copacabana, ou então que mandavam o lixo para dentro do poço de ar e  atiravam pela janela preservativos usados. Isso foi o que eu vi, não li em nenhuma rede social. Precisamos de argentinos para sujar a cidade e dar lições de falta de cidadania? Quando ao final da tarde, as praias estão cheias de lixo na areia, foram eles que vieram aqui sujar?
Esses cariocas representam toda a cidade? Não. Claro que não. Aqui encontrei pessoas solidárias, gentis, amigas, cidadãs e inteligentes em diversas classes sociais. E são elas que devem representar o que de melhor tem essa cidade, com todos os seus problemas.
No episódio em questão, um dos pontos que mais me chamou a atenção foi o fato de que pessoas falam muito facilmente que não são racistas ou preconceituosas, algumas vezes até por terem entes queridos que são alvo de potencial preconceito. A lição mais valorosa que eu aprendi no livro que mostra a face das pessoas é que tal ideia é fragmentada, ou seja, condenar o preconceito pode chegar até o ponto onde ele te toca efetivamente, e só.
 Sim, foi por isso que encerrei minha conta. Cansei dessa agressividade gratuita, dessa falta de critério que impede que as pessoas com uma mínima análise separe os assuntos e não caia na tentação de propagar, como bem observou meu irmão caçula, discursos de ódio.





 


 
 

 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ESTADO DE COMA ESTADO DE SÍTIO - uma aventura em Brasília,


Naqueles tempos de repressão e nenhuma explicação, seguindo o raciocínio "eu não sei porque estou batendo, mas ele sabe porque está apanhando", meu pai e mais outros dois penapolenses estudavam em Brasília, na UnB. E em uma dessas noites quentes que castigam a capital do país, resolveram sair para beber.
Após várias cervejas, decidiram caminhar pelas ruas conversando e rindo, afinal não existia proibição legal para tanto. Ou será que sim? Bem, pode ser que sim. Tudo era possível.
Durante essa caminhada, os três foram repentinamente recolhidos das ruas para serem gentilmente acomodados dentro de uma viatura policial, com destino à delegacia mais próxima.
Obviamente que nessa situação, a primeira coisa que passava pela cabeça do sujeito era se ele sairia vivo do lugar para onde estava sendo levado. E foi esse o pensamento dos dois amigos de meu pai que, imediatamente, se calaram e sentiram o efeito do álcool sumir abruptamente.
Já devidamente encarcerados, os elementos perigosos, subversivos e perturbadores da paz social e da sagrada família, caíram em silêncio, talvez pensando que nunca mais voltassem a ver suas mãezinhas e que merda seria morrer tão cedo e em decorrência de tanta porrada que tomariam até lá.
No entanto, os dois amigos de meu pai descobriram ter um outro problema para lidar, que naquela situação era bastante grave. Ao contrário deles, a bebedeira do terceiro não havia passado da forma mais conveniente. Aliás, não se sabia se ela havia passado. Chico, meu pai, estava muito valente e destemido e com o peito inflado dentro da cela, andava de um lado para o outro, tal qual bicho enjaulado (que realmente era), aos gritos de "ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO".
Impossível sair vivo daqui, pensavam os outros dois que, mesmo se esforçando, não conseguiam fazê-lo parar. Pediam encarecidamente: Cala a boca Chico, a gente vai morrer!
Ao que ele respondia convencido: Não me calo...isso é um absurdo. ESTADO DE COMA, ESTADO DE SÍTIO!
Como se vê, saíram ilesos de lá, pois alguém apareceu para o resgate e, sinceramente, não sei como, foram parar no apartamento de um parlamentar, que se não me falha a memória era o Tancredo Neves.
A noite continuou com uma entrevista para uma revista inglesa, onde o destemido Chico contou, com igual valentia, o grande feito dos três amigos: saírem vivos e ilesos fisicamente.
Um dos amigos, sempre que encontrava meu pai, contava essa história e terminava sempre com uma risada ainda nervosa: FILHO DA PUTA!