segunda-feira, 29 de abril de 2013

Escusas.

 - Onde você foi ontem? Por que não me esperou para voltarmos juntos?

 - Para que? Para te ouvir reclamar do trabalho ou então daquela colega que não sabe se vestir e usa bolsa Prada falsificada?

 - Credo! Como você é grosso...estúpido!

 - Não acho, você perguntou e eu respondi, respondi a verdade para experimentar alguma variação.

 - Então minha conversa te incomoda, te enche o saco?

 - Olha, quando você resolve falar mal do trabalho e de seus colegas, sim.  Eu não conheço ninguém, não posso fazer nada se sua colega não usa roupas que você considera adequadas e ainda preciso manter a calma quando você se exalta e abaixa o volume do rádio do carro enquanto eu ouço Clapton. Como saí mais cedo, decidi dar uma volta, fazer alguma coisa diferente.

 - E eu posso saber o que e onde? Ou é pedir demais?

 - Assim que estivermos em casa te conto em detalhes, faço questão.

 - Que conversa é essa? Pode começar a falar.

 - Não. E nem pense em aproximar a sua mão do volume do rádio.

Renato estava diferente, com uma promessa de sorriso sarcástico nos lábios. Não se lembrava de tê-lo visto assim antes. Uma satisfação saltava-lhe do olhar. O que teria acontecido com ele? Parecia mais bonito até. E aquela determinação em falar sobre o assunto apenas no momento indicado por ele a deixara ansiosa e insegura. Ele respondia tão prontamente quando demandado, por que isso agora? Levou o dedo indicador à boca e mordeu a unha enquanto pensava. De onde viera aquela firmeza repentina? A ordem de que esperasse o momento foi seguida até passarem pela porta do apartamento.

 - Estou esperando: fale!

 - O que?

 - Onde você foi ontem que não foi possível me esperar.

 - Ah é...olha Luíza, você quer mesmo saber? Sem rodeios, suponho.

 - Sim.

 - Está bem. Saí com uma garota de programa.

 - Estou falando sério.

 - Eu também, amor. Disse Renato apoiando o corpo na cômoda e cruzando os braços.

Quieta e com os olhos grudados no rosto de Renato, ela ficou imóvel por alguns instantes em busca de palavras que pudessem dar continuidade àquela conversa estranha. O que era afinal? Um jogo, sinceridade sem aviso prévio, uma maneira de botar fim à relação? E agora? O que fazer? Que rumo ela poderia dar à situação? Aliás, que rumo ela desejava dar àquilo tudo?

 - E então Luíza, o que você me diz? Eu saí com uma garota.

Mordeu os lábios e num rápido movimento enfiou a mão na cara de Renato. Raiva era o que sentia, agora se dera conta. A mão doía por causa da bofetada. Renato virou o rosto lentamente e a olhou sorrindo. E depois riu.

 - É isso então? Agora eu vou apanhar de você? Quem sabe é isso que eu quero. Gostei de sentir essa mão pesada na minha cara. Tá doendo, sabia? Minha pele está ardendo. Finalmente, queridinha, alguma coisa nova ainda se encontra em você. E a aplaudiu sorrindo em aviltante provocação, enquanto se aproximava. 

 - Você tem ideia de por que eu saí com uma garota?

 - Porque você é um puto?

 - Não, amor. Não sou um puto e você sabe disso. O problema é que nossa relação está uma droga morninha sem um pingo de qualquer classe de emoção. Viramos um grande nada. E nem eu nem você fazemos qualquer movimento para mudar. Aí tive a ideia de sair com uma garota para que ela pudesse me ensinar umas coisas novas para eu fazer com você. E algum resultado já surtiu, já que até levei um tapa na cara.

 - Você vai ficar longe de mim, seu merda, e não vai me ensinar porra nenhuma das coisas que você aprendeu com uma prostituta.

 - Ah vou sim, sua vadia. O objetivo era justamente esse.

- Vadia?!

- Vadia sim. Daqui por diante, minha vadia e vai fazer tudo que eu te ensinar.

- Não...eu não vou...para! Seu idiooooooooota...

Há muito Luíza não sentia vontade de estar com Renato, e supunha que ele também estava acomodado na situação. Mas naquele dia, ela perdera a cabeça e o comportamento polido que tanto ensaiava para ter.

Percebeu, porém, que uma mulher mais instintiva também a habitava e ela tinha força para fazer o que queria, apesar da Luíza predominante. Nunca na vida levantara a mão para alguém e bater no rosto do marido era absolutamente impensável. Achava que a agressão física era para os destemperados e ela...ora, era tão dona de si.   

Enquanto a raiva em saber que fora traída se espalhava por seu corpo, Luíza sentiu um profundo descontrole para recusar as investidas atrevidas e inéditas de Renato; um homem decidido, viril e vestido com um cinismo que o fazia sorrir irônico durante o sexo. Quem era ele, afinal? Estivera ali o tempo todo? E que urgência era aquela? Fechou os olhos, por fim, e apenas sentiu. Não sabia se aquele seria o último sexo que estavam fazendo na vida. Pensou que pudesse ser.

 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Um objeto, muitos olhares.


O que ela vê que eu não vejo?

Alguma coisa com certeza, do contrário não estaria apontando esse troço para cá. E de onde eles vieram, todos eles?

Do meu lado vejo apenas cadeiras empilhadas, o bar que freqüento há 43 anos e a mesma rua de sempre, com as mesmas pessoas, até a mesma comida que peço sempre que venho aqui. Só mesmice. Não entendo. Só me resta esticar as pernas e vigiar esse pessoal com máquinas fotográficas. Bem...que isso não se torne uma rotina! Caso contrário é bem capaz do Manoel querer subir o preço da cerveja e do bolinho de bacalhau, que nem é lá essas coisas, massa de mais, bacalhau de menos. A vida é assim, as pessoas vem procurar poesia longe de casa e agente é que acaba pagando a conta.
Foto: Cecília Bhering

Ué...tá querendo o que com a sacada da Rita? Bem se vê que a moça não é daqui, se soubesse como a Rita é desconfiada... Não duvido que ela apareça na calçada para tomar satisfações. Não vai gostar nada de ver a moça tirando foto da casa dela.
 Foto: Cecília Bhering


 - Olha lá Manoel; foi tirar retrato da casa do Mustafá. Eu sempre gostei dessa casa. É bonita aquela porta com arabescos brancos, né?
                                                                  Foto: Cecília Bhering

 - Arabescos, Jair? Até que tu sabes das coisas, o nome é esse mesmo. Vais querer outra cerveja, oh pá?

 - Vou querer sim, Manoel. Agora que arranjei uma distração, vou ficar mais um pouquinho. Agora que me dou conta, ainda não vi a dona Alzira aguando as plantas hoje. Estranho, ela nunca se atrasa e nem se esquece das plantas dela.

 - Parece que saiu cedo, hoje. O Zé disse que carregava uma mala, veio até um taxi para buscar a Alzira. Ele só não soube dizer para onde ela foi e nem quando ela volta. Sabes como é desinteressado o Zé, né? Conta tudo pela metade e nunca sabe de nada, basta fazeres uma pergunta para ele dizer: “Ih, sei não!”

 - ... com mala e de taxi?! E o Zé não perguntou nada? Olha lá, Manoel! Aquele moleque da mercearia do Geraldo. Eu tenho vontade de pegá-lo pelos fundilhos cada vez que ele larga aquela maldita bicicleta na parede da minha casa, não agüento mais falar com o Geraldo sobre essa porcaria desse costume horroroso, mas você sabe o que eu vou fazer? Um dia não vou pagar a conta para poder me ressarcir dos buracos que ele deixa na parede. Olha lá ele...Ôh moleque, já não te falei para não apoiar a bicicleta na parede, porra?
 Foto: Cecília Bhering


 - Fique calmo, homem! Não fiques nervoso por tão pouco, isso faz até mal a saúde.

 - Oh Manoel, pois eu vou te dizer o que é que faz mal à saúde: é essa fritura que como aqui no teu boteco. Tome aqui o teu dinheiro, vou dar uma olhada no que essa turma tá aprontando, porque se vê logo que eles não são daqui.

E seguiu atrás daqueles rapazes e moças que estavam ali tirando foto disso e daquilo, mas realmente não conseguia entender que tipo de interesse aquele lugar humilde, simples, com casas antigas e descuidadas pudesse ter despertado. Olhou para cima e viu o marido da dona Antonia lendo o jornal na sacada, concluiu que ele ou estava se exibindo para aparecer nos retratos ou estava ali fingindo ler o jornal para ficar de olho naquela gente toda. Achou mesmo que estava querendo aparecer, pois botou uma camiseta, coisa que geralmente não faz, prefere ficar alisando o barrigão peludo em movimentos circulares e quando se cansa termina dando um tapa com a mão aberta na altura do umbigo antes de entrar. Sim, sim...estava posando.
                                                                   Foto: Cecília Bhering
Logo no início da subida da ladeira, Jair sentiu suas pernas fraquejarem, como se depois de tanto tempo já não agüentassem mais o peso do corpo, como se suas pernas também tivessem se cansado daquela mesmice de carregá-lo para baixo e para cima, todo santo dia, um após o outro, uma perna na frente enquanto a de trás dava o impulso e assim sucessivamente. É, parece que a grande novidade daquele dia era que suas pernas quiseram fazer uma pausa. Pensou que poderia pedir emprestado um daqueles tripés que sustentam a máquina fotográfica. Que besteira. A sensação era de assustadora insegurança, mas seus olhos ainda alcançaram ver um banco vazio que pudesse lhe servir de apoio. Mesmo sua vista parecia estar cansada, tanto assim que só viu com clareza o banco, o resto estava embaçado. As mãos trêmulas agarraram o encosto do banco e Jair sentou-se ali para se recuperar. A respiração estava tão estranha...ofegante. E aquela fraqueza das pernas parecia apoderar-se de todo seu corpo, até mesmo de seus pensamentos, que lentamente foram silenciando. Deitou-se então naquele banco, que foi a última coisa que viu com nitidez. Achou que ao menos alguém poderia tê-lo envernizado.

Foto: Cecília Bhering 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ode à Vaca.


O ônibus fez a curva no Largo do Machado e parou em frente à catedral para que alguns passageiros subissem e outros descessem. Havia um movimento em frente à igreja. A primeira imagem que captei foi um menino de uns vinte e poucos anos em uma cadeira de rodas, com um joelho enfaixado e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço; ele a examinava com atenção.

Pensei: o que será que essa garotada está fazendo em frente à igreja? Olhei ao redor e vi uma turma numerosa sentada nos degraus da entrada principal. Em segundos meus olhos grudaram em duas pessoas. Um garoto louro com cabelos cacheados e barba tinha entre suas pernas abertas uma outra pessoa. O rapaz sorria e acariciava um dos mamilos de uma blusa florida.

E eu, que sempre ando com meu mp3 nos ouvidos, naquele momento notei que tocava “Vaca Profana” do Caetano: “Vaca profana põe teus cornos, prá fora e acima da manada”. Nossa...a trilha perfeita para cena.

Enfim, voltando àquela carícia tão pública, pensei: Caramba...o menino está passando a mão no seio da namorada sem a menor preocupação. Bem, deixe-me ver ao menos se ela está gostando.

A cabeça estava jogada para trás, encostada no peito dele, mas vi um sorriso estampando o rosto de pele clara. Sim ela estava gostando. Notava-se logo. Prendi-me a eles por alguns segundos. As carícias continuaram. Resolvi então analisar o entorno.

Ora ora...o rapaz que estava do lado direito do casal, sentado no mesmo degrau do rapaz louro, dono dos carinhos desinibidos, olhava-os com um sorriso. Hum...que interessante. E tudo isso em frente à Catedral do Largo do Machado. O riso veio sozinho e sem esforço.

Logo que o ônibus iniciou a saída dei aquela olhada derradeira. Notei então que a menina não tinha seios, apenas mamilos. E suas pernas eram peludas e seus cabelos pretos eram curtos. A menina era menino, mas a cena se deu mesmo nas escadarias da igreja. E não é mentira que no momento eu ouvia:

“Dona das divinas tetas derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas”

terça-feira, 12 de março de 2013

Livros e Dilemas.


"...mas os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro
 Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo"
Caetano Veloso. 


Há muito gosto de tê-los por perto. Mentira seria dizer que adquiri o hábito da leitura desde muito cedo. Não. Lia por obrigação e, apenas os livros indicados nas aulas de língua portuguesa, que seriam objeto de prova no colégio. E não era por falta de estímulo, pois meus pais sempre tiveram muitos exemplares em casa e assim também era na casa dos meus avós. Olhava-os, achava-os bonitos em suas encadernações e pensava que deveria me dedicar a ler, ao menos alguns deles.

O contato visual lançou-me em reflexão sobre a razão de minha indisponibilidade. A resposta não tardou; eu era jovem demais e tinha muitas coisas a fazer, como por exemplo; ginástica olímpica, natação, tênis, judô...eu era muito ocupada. Nessa época, mesmo estudando em colégio de freiras, decidi abandonar as aulas de catecismo que cursava, pois meu tempo estava curto; ou saía de uma dessas modalidades esportivas ou do catecismo. Nunca fiz primeira comunhão e, tanto na formatura do colégio quanto na da Faculdade de Direito, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), não comunguei. Em ambas as ocasiões, mantive-me com um sorrisinho em silencioso orgulho por não entrar numa fila em busca da hóstia.

Voltando aos livros, o que me impedia, enfim, era a falta de tempo para descobri-los, essa foi a conclusão da Susana adolescente. Um dia, a professora do colégio disse que haveria uma prova sobre um livro de livre escolha, mas deveria ser um clássico; fosse de um autor da língua portuguesa ou não. Adoro o “ou não”. Qual seria o meu clássico? Na casa dos meus avós paternos havia duas estantes bem altas e cheias de livros. Dentre tantos, encontrei uma coleção de livros vermelhos chamada “Teatro Vivo” e entre eles estava “Édipo Rei”. Bem, eu não era íntima dos livros, como disse mais acima, e achei melhor averiguar com meu pai se esse tal de Sófocles poderia ter sua obra enquadrada no quesito “clássico”. Podem rir.

Os livros dessa coleção tinham uma estrutura interessante. O início contava sobre algumas montagens teatrais mundo afora e também no Brasil e falava quais atores e atrizes interpretaram seus personagens. Essa parte era ilustrada com fotos lindas das atuações. A segunda parte era o livro propriamente dito, mas em estrutura teatral, separado por falas dos personagens e até com indicação das pausas e do fim dos atos das peças. Daí o nome; Teatro Vivo.

Podem imaginar o que foi isso para uma adolescente não habituada aos livros? E a linguagem teatral? Aquelas falas de um personagem em sofrida reflexão por páginas e páginas seguidas. Sim. Nada fácil, mas a trama era instigante o suficiente para que eu não me desse por vencida pelas dificuldades encontradas no caminho; fui até o fim para saber o destino de Édipo. E gostei, gostei tanto que continuei a ler alguns outros livros da coleção, sendo que muitos dos autores eu não conhecia, nem de ouvir falar. Antes tarde do que nunca. Assim iniciei meu relacionamento com os livros, depois de “Édipo Rei” vieram “A profissão da Sra. Warren” (B. Shaw), “Entre quatro paredes” (P. Sartre), “A morte do caixeiro viajante” (A. Miller), “Um bonde chamado desejo” (T. Williams), “Casa de Bonecas” (Ibsen), “O arquiteto e o imperador da Assíria” (F. Arrabal), “Volta ao lar” (H. Pinter) e “Hamlet” (W. Shakespeare). Sim eu sabia quem era esse último, também não é para tanto.

Quando eu comecei com isso, tinha entre treze e quatorze anos. Alguns deles foram realmente impactantes; lembro-me como me impressionava com “Volta ao Lar”, quão chocada, porém interessada, eu ficava com o andamento da trama e dos diálogos cruéis e fluídos dos personagens.

O grande barato era chegar da escola, almoçar e me jogar no sofá com uma das pernas no encosto e começar a busca pela próxima intriga. Na sequência e, por exigência das bancas examinadoras de vestibulares, comecei a ler Machado de Assis, Graciliano Ramos e outros. Não me esqueço dos dois senhores porque, apesar da necessidade adorei o estilo deles, sendo que de Machado não só li o título indicado pela banca, como também alguns outros. A poesia de Manuel Bandeira cativou-me ao escutar seus versos declamados por um professor de Literatura.

Carlos Drummond de Andrade foi-me apresentado por Tom Jobim, por quem eu morria de amores e cujas músicas não saiam do meu toca-fitas. Poema da Necessidade foi lido por ele em meio a paisagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com uma de suas músicas ao fundo. A partir desse dia, Drummond ganhou uma fã.

À margem da necessidade escolar, passei a explorar os exemplares que estavam disponíveis em casa; Fernando Sabino causou-me calafrios com as agruras de “O homem nu”. Sonhei várias vezes com minha própria nudez. Um tormento. 

Essa foi minha iniciação. Depois vieram muitos outros, sendo que outros tantos tardaram ainda mais a serem descobertos e precisaram de uma apresentação formal de excelentes intermediários que, praticamente pegaram em minha mão e mostraram que a resistência em conhecer um estilo ou um(a) autor(a) pode se transformar depois em incômoda sensação de perda de tempo.

Ao contrário das minhas convicções de adolescente, agora protelo para inscrever-me em uma academia de ginástica, pois sigo muito ocupada e, caso perca uma hora do meu curto dia praticando uma atividade física, é uma hora que perco da minha leitura noturna. Talvez a Esfinge tenha a resposta para o dilema tempo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Felicidade e Solidão.

Parecem excludentes. E penso que são, para a maioria das pessoas. A felicidade requer o outro para amar e ser amado. Solidão? O que teria ela a acrescentar na dinâmica da felicidade?


Na verdade, não me fiz essa pergunta, pois não vejo a solidão com maus olhos. Há momentos em que a desejo muito em meio ao cotidiano de afazeres e compromissos. Gosto dela. E desfruto dos momentos em que nos encontramos, pois são raros e preciosos.

Houve um tempo em que éramos íntimas, mas então eu almejava que nossos encontros fossem menos freqüentes. Natural, suponho.

Justamente por conta disso, foi que o título “Felicidade através da Solidão” não me causou estranheza, mas sim me jogou em inquietante curiosidade. Qual seria a história desse Ensaio, cujo autor, teima em não mandar um de seus originais para uma editora a fim de se testar?

Em minha nada abalizada opinião, parece-me que suas tramas despertariam interesse, porém, meu amigo prefere insistir no anonimato absoluto, primo da solidão. Apenas algumas pessoas tem a oportunidade de mergulhar num mundo de sentimentos como curiosidade, ansiedade, aflição e angústia, para só então constatar que todos os temores em que foram lançados, ao final, se concretizarão.

Não. Não é obviedade que descreve a narrativa tensa desse Ensaio. Os elementos são disponibilizados desde o início como peças de quebra-cabeças que, juntando-as, vão contornando aquele final que parece inevitável. O desfecho é desenhado ao longo de todo o texto e não apenas no último capítulo ou derradeiras frases.

"Felicidade através da Solidão" não é um texto longo; tem 152 páginas, das quais li trinta na noite em que chegou às minhas mãos e as outras 122 na noite seguinte; o que me lançou em insone reflexão. O sono que me vence em minhas leituras noturnas, dessa vez foi impiedosamente afastado por momentos de tensão, incredulidade, tristeza e nostalgia.

E apesar de o autor não descrever fisicamente seus personagens, atendo-se mais aos gestos e construções de perfis psicológicos, o rosto e o olhar de Letícia se revelaram a mim em sua primeira aparição.

A trama se passa no final do século XIX e início do XX, quando os produtores de café estavam em franca decadência financeira e de valores, tidos até então como inabaláveis.

O tempo é longínquo, mas a Solidão e a Felicidade são questões atemporais e, que nesse Ensaio, formam um belo casal.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Arquitetura e Malícia.


No dia 03 de janeiro de 2013 o pequeno Dante foi conhecer o estádio “La Bombonera”, o templo cheio de malícia do Clube Boca Juniors. A paixão começou quando minha sogra o presenteou com uma camisa oficial do clube enquanto acontecia a Libertadores da América do ano passado. Para quem não sabe, sou corintiana e vinha, timidamente, o convencendo a torcer pelo timão. Até então tudo ia bem e, no final de 2011, comemoramos juntos o título de campeão brasileiro.

O fato é que quando meu pequeno botou suas mãozinhas naquela camisa, tudo mudou de maneira repentina e, desconfio, irreversível. Vestiu a camisa em todos os sentidos. Lembro-me de uma manhã em que passava na tevê a notícia da vitória do Boca sobre não sei que time pela Libertadores. Ao assistir às imagens dos melhores momentos e dos gols, Dante começou a gritar o nome do Boca e agitar os braços em comemoração. Aí foi que me dei conta e pensei: “Perdi”.

Como sabemos, o embate foi inevitável e a final da Libertadores da América foi protagonizada por Boca e Corinthians. Adrián, meu marido, mesmo sendo torcedor do Colón de Santa Fé, não aguentou a pressão de Dante e cedeu aos seus apelos chorosos para que torcesse pelo Boca, apesar de meus protestos injuriados. Por óbvio, a paixão de Dante o enterneceu mais.

O primeiro jogo foi em “La Bombonera” e sem tomar conhecimento de toda a pressão e ajuda arquitetônica do estádio, Romarinho fez um gol que nos deu a vantagem. A última partida foi no Pacaembu, mas essa torcedora cautelosa não cantou vitória antes do tempo e assistiu nervosíssima àqueles 90 minutos que dariam o título inédito ao timão.

Obviamente, Dante não assistiu ao jogo, pois dormia. Na manhã seguinte comuniquei-lhe orgulhosa a vitória. Ele não acreditou. Liguei a tevê para comprovar. Ao assistir os melhores momentos ele se apegou a uma imagem em que Émerson estava sentado no gramado tentando morder a mão de um jogador do Boca que estava em pé ao lado dele. Olhou bem seriamente para minha cara e disse: “Viu, o Colintias perdeu, ele tava caído e o Boca tava em pé, o Boca ganhou.” Expliquei que aquilo não era MMA ou coisa que o valha, mas ele já tinha encontrado a solução para não admitir a derrota. Eu que não o incomodasse mais.

E cada vez que eu repetia que o timão era o campeão da Libertadores da América ele respondia indignado: “Não é nããããããão, é o Boca! Só o Boca que ganha.” A minha felicidade foi cerceada dentro da minha própria casa. O jeito foi aceitar os fatos; meu filho brasileiro e carioca escolheu torcer pelo Boca. E foi por essa desmedida e típica paixão de torcedor que Adrián e eu resolvemos levá-lo para conhecer o estádio do Boca; a lendária Bombonera.

Ao chegar, passamos pelo museu, onde Adrián mostrou a quantidade de Libertadores conquistada pelo time, finalizando assim a explanação com tom piedoso; “O Corinthians só tem uma, filho.” Aproveitei a oportunidade para esclarecer que o Independientes conquistou mais Libertadores do que o Boca. O meu fervoroso torcedor conheceu um pouco da história, dos títulos, troféus e personagens do clube. Os olhinhos esverdeados brilhavam e o sorrisinho satisfeito não lhe saia da cara.
E eis que se inicia a visita guiada pelo estádio. De saída o guia comentou que, na época em que “La Bombonera” fora concebida era comum os estádios serem em forma de ferradura. Anos mais tarde, quando o clube quis fechar a ferradura e dar uma cara mais padronizada e em consonância com os demais estádios, não foi possível, pois havia uma casa no caminho do projeto de expansão. Todas as casas vizinhas foram compradas, menos uma. O valor foi elevado várias vezes, mas o dono não cedia. Um dia, resolveram perguntar a ele a razão, já que o clube chegou à conclusão que não era dinheiro o problema. Realmente não, respondeu ele. O fato é que ele era torcedor do River Plate, portanto, não faria absolutamente nada que pudesse beneficiar o rival. Assunto encerrado.

Essa é apenas uma das particularidades da arquitetura. Ao entrarmos no estádio vimos onde fica a “12”, torcida organizada do Boca. Um lugar com vista privilegiada. Depois, o guia apontou os 3.000 lugares reservados à torcida visitante; o último andar da arquibancada, num ângulo de 45º em relação ao gramado. Péssimo. E dependendo do horário, ainda pega o sol na cara. Outro ponto interessante é que “La Bombonera” ainda conserva aquele espaço que, atualmente, já não tem mais nos estádio modernos; a geral. Os torcedores da geral ficam logo abaixo da torcida organizada, a “12”, e bem em cima do que? Do vestiário do time visitante. Sim. E eles pulam organizadamente...e gritam bem alto que é para os jogadores não conseguirem ouvir o treinador e, com alguma sorte, saírem dali completamente tontos e com a cabeça e os ouvidos zunindo. O vestiário do Boca? Ah sim...silencioso, como também o é o dos árbitros, para que possam relaxar.

A entrada em campo. O corredor vai do vestiário do Boca até o meio do campo, para uma entrada triunfal. O corredor do time visitante até o campo desemboca num dos escanteios. Para assegurar uma entrada tímida.

O ponto alto, no entanto, encontra-se na parte externa, quando os jogadores do time visitante ainda estão por ingressar no estádio. Essa é sem dúvida a mais ostensiva. O guia nos mostrou uma portinha e nos perguntou se a achávamos pequena. Sim, era. Depois esclareceu que jogadores um pouco mais altos, tipo 1,80 m., tinham que abaixar a cabeça para passar pela porta e, assim...fazer uma reverência obrigatória a “La Bombonera”. Não é genial? Depois fomos averiguar a porta por onde passam os jogadores do Boca...devia ter 4 metros de altura. Eu gostei tanto dessa arquitetura desportivamente incorreta. É de um humor ímpar.

Uma curiosidade a mais; o estádio tem esse nome porque o arquiteto contratado para a elaboração do projeto ganhou uma caixa de bombons e achou que o estádio se parecia com ela; daí o nome.

Bem, Dante adorou a visita e logo de início, para demonstrar todo o seu amor pelo clube, começou a cantar a música da torcida: “Si si señores, yo soy de Boca. Si si señores de corazón. Porque este año desde la Boca, desde la Boca sale el nuevo campeón”. O guia não acreditava e espantado o aplaudiu junto com alguns outros visitantes que ali estavam; a maioria esmagadora de brasileiros e corintianos. Perguntou-me quantos anos ele tinha e depois me informou que dali a pouco Dante estaria na “12”.

Ao final, quando o guia quis saber se alguém tinha perguntas a fazer, eu realmente pensei em perguntar se tudo aquilo tinha sido concebido por um arquiteto ou se foram “adaptações” posteriores. Decidi que não, que ficaria na dúvida e a compartilharia com você que me lê agora. Quando for a Buenos Aires vale a pena visitar “La Bombonera” e conhecer suas histórias e estratégias provocativas. “Dale Boca!


domingo, 14 de outubro de 2012

A ameaça.

 

...sim, a verdade. Vanessa costumava ser uma boa amiga, sendo que nos áureos tempos dessa amizade trocávamos cartas...ou melhor, longas cartas, cartas relatos do cotidiano; preocupações e aflições da vida, impressões sobre determinada instalação composta por bacias coloridas em uma bienal da década de 90, decepções, novas amizades, paixões e desamores, enfim...coisas que ocupam coraçõezinhos jovens e bem humorados. Cartas, cartas mesmo...com papel, selo e grandes envelopes pardos ou amarelos. A correspondência era tão intensa que nessa época minha primeira personagem também começou escrever cartas à Vanessa. Sim, com alguma sorte Vanessa talvez ainda tenha tais missivas grafadas com letras cursivas, já que eu escrevo com letras de forma. A personagem era minha irmã gêmea e cursava psicologia. Nossa...Vanessa e ela se entenderam tão bem que...sim, fiquei com uma pontinha de ciúme. As duas conversavam ao telefone durante horas, sendo que para mim sobrava apenas um “mande um beijo para a Susana” e o faro investigativo/jornalístico de Vanessa estava decidido a desvendar aquela menina, queria conhecê-la, como conhecia a mim. Após a primeira conversa percebeu que minha irmã era mais reservada, contida e menos dada às paixões a que se entregava a sua irmã, ou melhor, eu mesma. O tom de voz era outro, o ritmo da fala mais pausado e algumas respostas lacônicas. Discorreram, Vanessa e minha irmã/personagem, sobre uma paixão platônica que eu desenvolvi, uma transferência erótica, para ser mais técnica e alegrar minha irmã, digo, minha personagem. A amizade entre elas foi quase instantânea, elas se gostaram. A nossa realidade cheia de dúvidas e indagações acerca de nossas profissões, caminhos a seguir e outras questões que assolam os vinte aninhos era permeada por instantes criativos, reflexivos, às vezes dramáticos e quase sempre engraçados e surpreendentes. Imaginação não nos faltava, isso jamais. Certa vez, Vanessa encontrou na rua um conhecido nosso que nos era um tanto misterioso e... bem, podíamos tolerar quase tudo, mas nunca um mistério e uma oportunidade de se descobrir um pouco mais sobre quem não quisesse ser percebido, nunca era descartada. Claro que não se recorria à abordagem, mas a uma disfarçada perseguição esgueirando-se atrás de árvores para não ser notada. Bloquinho e caneta? Para que? Quando se tem uma memória prodigiosa para detalhes. A caneta servia sim, para depois de finalizada a investigação, todos os dados de campo serem lançados a termo numa longa e detalhada carta com destino a Campinas, aos cuidados de Susana. E antes que aquele que nos lê se perguntar se não tínhamos nada para fazer, vai a resposta: éramos muito ocupadas, Vanessa inclusive fazia duas faculdades. E depois, tínhamos as noites e quiçá algumas madrugadas de inspiração. Quando eu chegava à portaria do prédio onde eu morava e via uma carta da Vanessa, subia correndo e já abrindo o envelope quase sempre volumoso. Mesmo quando não tínhamos muitas coisas a contar, contávamos as que tínhamos em detalhes e também usávamos comentar a carta uma da outra. E tinha outra coisa...quando não muito acontecia em nossas vidas podíamos inventar estórias, imaginar situações e assim, escrever cartas. Certa vez, de férias em Penápolis, recebi um envelopão vindo de São Paulo com muitas folhas escritas. Não me lembro do conteúdo, lembro apenas que ria muito, tipo chorar de rir, o que chamou a atenção da minha mãe, que correu ao meu quarto e quis saber a razão de tudo aquilo. Engoli a risada e respondi que era carta da Vanessa. Mami queria saber o que estava escrito ali, mas lembro vagamente que o conteúdo era relativo à minha intimidade. Enfiei rapidamente a carta no bolso de trás da calça e deitei em cima, recusando compartilhar o que ali estava escrito. Fui torturada com cócegas até não ter mais forças e lá estava a minha intimidade devassada. Minha mãe também riu e disse que escrevíamos peças de teatro e não cartas. É pode ser. Sim sim...bons tempos aqueles. Tempos em que internet era artigo de luxo, nem todo mundo tinha computador em casa, não existia fecebook e muito menos esse tal song pop, que Vanessa parece preferir jogar a responder às minhas cartas, digo, meus e-mails. Sim, Vanessa era minha correspondente mais ativa e constante e, certamente eu a dela. Agora...bem, agora estou aqui, nesse lamento solitário, porém bem público, que é para ver se ela se envergonha e retoma já tão esquecido hábito. Aviso ainda que caso essa indiscrição não surta efeito, darei início a um impiedoso Vanleaks.

                                                                                              Foto: Cecília Bhering de Araújo.