terça-feira, 27 de outubro de 2020

Chile Despierto.

 Hoje pela manhã recebi um vídeo de um entre os tantos protestos que tomaram o Chile em 2019 em razão da forte crise econômica, fruto de um modelo neoliberal que, até aquele momento, servia de exemplo para nosso Cone Sul.

Milhares de chilenos tomaram as ruas do país para gritar “basta” ao Estado que pesa nas costas de quem trabalha e não está presente para garantir direitos sociais e amparo para os que dele necessitam.

Estado que perpetua privilégios de bancos e elite econômica e toma daqueles que trabalharam a vida toda o direito de se aposentar com o mínimo de dignidade, levando, inclusive, alguns deles a atentar contra a própria vida por não terem como se manter.

O vídeo emociona aos que se identificam como povo, que não se olham, portanto, em espelhos que não refletem a própria imagem. Nele vê-se uma multidão empunhando bandeiras e cantando um hino de levante popular, que exalta a FORÇA que nasce da UNIDADE; um chamado ao despertar com destino à liberdade, levantando a cabeça daquele que se tenta oprimir para que ostente sua dignidade. É uma música que ecoa o dia todo na cabeça e dá um calor no coração.

No último domingo, 25 de outubro de 2020, o povo chileno foi às urnas para dizer se queria a instauração de uma assembleia constituinte para votar uma nova Constituição para o país.

Eu particularmente não sabia que o Chile não havia rompido com a Constituição da ditadura Pinochet. Entretanto, cada país sul-americano saiu de sua ditadura como pôde; nós brasileiros saímos anistiando os crimes perpetrados pelos militares e seus comandados e hoje sentimos o que essa impunidade significa. A Argentina foi certamente a que melhor saiu de sua ditadura, instaurando uma assembleia constituinte e levando seus militares ao banco dos réus e às prisões. Chile, assim como nós, saiu como pôde; fazendo concessões como a de suportar uma Constituição de regime ditatorial.

O plebiscito mostrou que 80% dos chilenos querem uma nova Constituição. A assembleia constituinte será instaurada em abril de 2021, com parlamentares que ainda serão eleitos pelo povo, garantida uma representatividade de 50% das vagas para mulheres e 50% para homens. Já nasce consciente de que igualdade deve ser garantida para afastar séculos de patriarcado institucionalizado.

Sinto-me feliz e esperançosa pelos chilenos, pois me vejo como classe trabalhadora, povo, brasileira e sul-americana. É diante deste espelho que vejo minha imagem refletida.

Uma amiga para qual mandei o vídeo disse ter chorado, não apenas pela beleza que lhe é inerente, mas por sentir que nós brasileiros estamos tão distantes de semelhante consciência de classe.

Não há como negar esse sentimento. Nossa sociedade é comandada por uma elite predadora e especulativa que não se interessa por produzir; uma classe média que pensa ser elite por ter tido acesso à educação e bons salários, que proporcionaram aos seus integrantes viajarem para os mesmos lugares antes reservados aos seus patrões e uma classe abastada. A classe mais baixa da população ascendeu socialmente e ocupou espaços na cena social. Chegamos a ocupar o posto de sexta economia mundial, depois de termos saído do mapa da fome.

O que deu errado? Uma pesquisa realizada há anos atrás traçou um perfil dos brasileiros quanto à essa ascensão social. Chamou minha atenção justamente a falta de consciência de que tudo o que havia sido conquistado nos últimos anos era fruto de políticas públicas, de preceitos constitucionais finalmente cumpridos, como acesso à saúde, educação, emprego e demais direitos sociais.

Vários fatores foram levantados para o que o brasileiro havia conquistado em sua ascensão social; mérito próprio, sorte, vontade divina...

Infelizmente a nós brasileiros falta muita coisa, mas a principal é mesmo a consciência de quem somos de verdade.

Talvez tenha sido a maldição do nosso próprio hino nacional:

“(...) Brasil, um sonho intenso (...)

 

(...) Gigante pela própria natureza,

És belo, és forte,

Impávido colosso,

E o teu futuro espelha essa grandeza.

 

(...) Deitado eternamente em berço esplêndido (...)”

 

Os trechos acima nos dão alguns indícios do que se passa conosco; vivemos num sonho, somos um gigante adormecido à espera do futuro (que nunca chega), deitado ETERNAMENTE em berço esplêndido.

Que ao menos saibamos apreciar a beleza daqueles que se despertaram.

Chile despierto! No vuelvas a dormir.

  https://www.youtube.com/watch?v=Cuzl_QTBlWI&feature=youtu.be

 


 

 

 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Terapia da Loucura



Em tempos difíceis, de tanto retrocesso, nos quais somos chamados de vagabundos, pedófilos, mercenários e sofremos censura, eu ofereço a vocês o meu corpo, como uma folha em branco”, dizia a atriz enquanto despia-se de suas vestes e convidava o público a pintá-la toda com tintas coloridas e pincéis. 

Aplausos enlouquecidos e um grito: “Maravilhoooooooooooooooosa”. A atriz não era uma jovem de vinte e poucos anos, mas uma mulher de cinquenta. Fez-se um breve silêncio, até que a banda começou a cantar:

“Dizem que sou louca, por pensar assim
Se eu sou muito louca, por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz e não é feliz, não é feliz”

Parte da plateia levantou-se em direção a ela e, respeitosamente, adornou seu corpo nu com símbolos e abstrações, sob uma iluminação incidente, exclusivamente, sobre o local onde tudo acontecia. 

Performance e música levaram-me para longe dali. Voltei no tempo; década de noventa, quando eu estava com quinze anos de idade e me inscrevi para uma oficina de teatro no interior paulista, ministrada por um diretor espanhol. 

Os participantes da oficina formavam um grupo heterogêneo, composto de estudantes adolescentes locais e de cidades vizinhas, além de adultos de variadas formações.

Os trabalhos duraram manhã, tarde e noite. Era um intensivo com intervalos de algumas horas para descanso e alimentação. Não me lembro bem se foi no segundo dia de oficina que veio o exercício de nudez. Desnecessário aclarar que só praticou quem se sentiu confortável e seguro. Sem imposições. Vários adolescentes homens fizeram, para minha surpresa. Adultos não ficaram de fora; homens e mulheres.

A notícia correu a cidade e causou comoção. Alguns adolescentes não voltaram mais. Alguns adultos foram demitidos de seus trabalhos. A nudez causou escândalo, mas a oficina seguiu seu curso até o fim. 

No colégio, um dos garotos tinha feito o polêmico exercício. Ficamos amigos. Ele sempre vinha falar comigo. As meninas riam dele pelas costas, enquanto diziam que eu era amiga do “pelado”. Eu assentia, confirmava com orgulho que éramos amigos. 

Parece mesmo ser função da arte, em suas diversas manifestações, provocar, incomodar, chocar, subverter o que está posto e consolidado, desconstruir e reformular, desconectar, incutir a dúvida, ser amada e odiada e, sobretudo, causar reflexão. A tranquilidade pode ser alcançada num colchão macio e no travesseiro com penas de ganso. Não na arte.  

A performance da atriz teve para mim um efeito mágico e intenso; pois me tirou de um lugar absolutamente previsível e enquadrado, seja por questões profissionais e de cotidiano, e me lançou num êxtase contemplativo àquela cena, com suas cores, expressões corporais, entrega corajosa da atriz, iluminação e música, que tão perfeitamente vestia tudo aquilo.

Ao final, as pessoas foram deixando as tintas e os pincéis no chão e se despediram dela com beijos nos lábios, um hábito comum no meio artístico, mas também um inequívoco sinal de gratidão. Apesar do silêncio, muitas palavras podem descrever aquele momento. Essas são as minhas.

“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar
Que Deus sou eu”


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Crônica de uma noite insana.



O início foi leve e parecia ter final previsto. Para tanto, o vinho eleito era um tinto espanhol, cuja principal característica era a inocência, mas que no decorrer da degustação, revelou dominar a arte da sedução. Beba-me todo, faltou dizer. Obedecemos ao comando silencioso. 
Quando tudo parecia se aproximar do fim, em companhia do inocente sedutor, eis que chegam as meninas que, naquela noite, saíram em tapas. Voltar para casa tão cedo? Não, não. 
Saímos daquele ambiente sério e caímos num barzinho cheio e barulhento, com cardápio etílico variado e tentador. Meu corpo me dizia que bastava e eu me encantei por um mate com especiarias, porém, quando se está em grupo opinião não é algo solitário. O que vi em meu copo foi um colorido e dissimulado Cleriquot. E água, para que nada de desastroso me acontecesse mais tarde. 
Uma das meninas se interessou por uma cerveja que prometia “explosão e potência”, antes da vírgula, como fez questão de ressaltar. Curiosa, perguntei a ela se a bebida entregava o que prometia. Após rápida reflexão, sentenciou, com base em sua convicção, que ela era surpreendente por ser incoerente. Uau! Que interessante. Restou-me apenas acreditar, já que provar não estava em meus planos.
A outra garota, de fala mansa e jeans customizado, optou por uma vodca de delicadeza indiscreta, pareceu ao final que era suave, mas ordinária. Após suas impressões, notei que o garçom entregou-lhe um punhado de bolachas de chope, sem que ela pedisse. Ela riu e nos esclareceu que ele deveria tê-la visto se apropriando de umas poucas que estavam à mesa. Aí, como quem diz, não precisa furtar, basta pedir, prestou-lhe tal gentileza. Rimos todas. E com aquela delicadeza ordinária da vodca correndo em suas veias, contou que sentou no colo daquele surfista porque ele era legal. Mais risadas e, depois, pedidos de esclarecimentos. Eu sempre quero saber a razão das coisas, mesmo que elas não existam. Ela contou que era uma questão de disposição no carro, faltava lugar, mas que não podia se furtar de proferir a frase de efeito. Concordei com ela. Um efeito assim não se descarta. 
E uma vez que o mote era esse, logo se lembraram do P.F. (personal fucker), de grande utilidade para momentos de alguma tensão e solidão entre um relacionamento e outro. Sobre as características masculinas desejáveis, seja para um relacionamento ou para um amigo íntimo; eis algumas: Não precisa ser bonito, mas tem que ter um elã; homem com mão delicada não tem credibilidade e quanto à pegada mais forte, foi dito que não é agressão, é eficiência. 
Nessas horas, ninguém se importa com o volume da conversa e se alguém da mesa ao lado está ouvindo as tão efusivas impressões. Ao final, foi dito o seguinte: Não sei o que é melhor; viver as noites estranhas ou escutar histórias das noites estranhas. 
Ao chegar a casa, abri a porta sem fazer barulho, mas assim que entrei na sala, escutei passos; era Lorenzo, meu pequeno de três anos. Carregava o gato de pano e olhou-me de cima abaixo, com uma cara de “Onde você estava até uma hora dessas?” A sensação foi a mesma de quando eu tinha quinze anos e meu pai me olhava torto, quase furioso, quando me flagrava. Homens!




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Carvão

O pedaço de carvão passeava pela parede branca em busca de formas que a mente queria exteriorizar.
A mão corria de um lado a outro acompanhada pelos olhos, que conferiam a compatibilidade das formas. 

Em cima do banco ficou o gênio nanico saído de uma lâmpada mágica imaginária. Atrás dele, duas mulheres. Uma delas com artefato semicircular na cabeça, com fio que o ligava a algum lugar. Os olhos da outra transmitiam medo, enquanto a boca se abria em solidário sentimento. Ela olhava à frente com o braço esticado, apontando o perigo.

No entanto, eis que surge o dono da parede que servia de abrigo para a trama inacabada. Não gostou da bagunça e brigou com a dona daquela mão atrevida. Isso não poderia mais se repetir. A parede voltaria a ser branca durante a semana. 

De tudo, sobrou uma foto do desenho e da desenhista, sentada em frente à sua criação com final suspenso, como é hoje a maneira que mais gosta de contar histórias. 




domingo, 14 de maio de 2017

Felicidade Sintética

O sorriso é sempre o mesmo, bem aberto e animado. Em plena segunda-feira de manhã.
A vida é bela.
Ali não cabe cansaço, queixas ou questionamentos. Aparentemente, a disposição reina absoluta. Talvez absolutista.

Aqui não. Aparece e desaparece. O sorriso é variável, sendo que nem sempre está disposto a se formar. As limitações são conhecidas em sua maioria.
Porque é assim. Nem sempre queremos ou estamos dispostos a sermos felizes. Não de qualquer jeito.

Falsas Confidências

Gostei do nome e vi que o filme era francês. Nada além disso, não tive tempo de ler sobre o que se tratava. Uma experiência no escuro.

A sessão começava às 13:50 h. e esse era o horário em que eu estava comprando o ingresso.

 - Ainda dá para entrar?
 - Sim.
 - Hum...você sabe se o filme é bom?
 - Olha, as sessões têm lotado, não é o caso de hoje, mas nas últimas três semanas lotou.
 - Eu vou nesse mesmo.

Entrei na sala quase vazia e escolhi onde sentar. Não havia perdido nenhuma cena do filme. Que bom.

O espectador se vê no domínio da narrativa, sem que os segredos da trama lhe sejam ocultados. Parece bem fácil; é só se acomodar na poltrona e assistir o desenrolar dos acontecimentos, que parecem óbvios. Todos os personagens são interessantes. Todos.

No entanto, algumas coisas incomuns vão sendo deixadas no meio do caminho, tal qual pistas para que, quem sabe, o espectador se dê conta do que está passando. Eu as vi e as estranhei ali, mas não resisti à sedução proposta. 

Não ignorei os sinais deixados, cheguei perto, mas não descobri o que de fato se passava. Numa das últimas cenas, antes da descoberta final, pensei: “Nossa! Um golpe dentro do outro!”

Pois é, eu ainda nem tinha chegado ao último, esse sim, destinado a quem assiste. E revelado na maior naturalidade, na cena menos carregada de todas. 


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Prazer crescente

 ...e sempre acontece. Enquanto eu passava meu tempo no banco de madeira, que me espera quase todas as tardes de segunda a sexta, eles sentaram para trabalhar.
Pensei; por que não?
Eu não era uma ameaça. Sem modéstia?  Minha técnica é boa e ponto final. Quase ninguém desconfia de minhas intenções. Sou discreta, transmito desinteresse e finjo ser viciada em smartphone e música. Quando na verdade, meu interesse está voltado para os inocentes que me estimulam a imaginação.
Quando eu tirei a foto, mudei apenas um pouco a posição do celular. Antes eu assistia a um vídeo.
Perfeito!  Até para a minha própria timidez em mirar a câmera para alguém tão próximo. Eu via um vídeo,  não é verdade? Só aproveitei a posição para tirar uma foto.
Não os olhei diretamente,  os via através da tela.
Eles trabalham num texto, uma tese talvez. Eu também trabalho num texto. Que coincidência!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Hoje não.

Aqui em frente à mesa amarela, uma vez mais mais ganhei umas linhas. Olhei para cima e vi o reflexo de gaivotas voando no vidro de uma das casas da vila.
Escrevi exclusivamente sobre a imagem, uma descrição.
Não tardou para que alguém ocupasse a mesa, mas isso não me rendeu histórias.
Os meninos falavam um alemão rápido, acerca do qual não me animo sequer a tecer hipóteses.
Nunca sei se estão tratando de um assunto da maior gravidade ou se falam de amor.
É uma língua muita bruta aos meus ouvidos.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Curtinhas na Vila.

Alegria Máxima.

"Estou te oferecendo alegria máxima, se você não quer, sorry! Lamento por você." Assim disse a menina de vinte e poucos anos com cabelos compridos e óculos de armação roxa. Ela e um rapaz falavam como se fosse trabalho ou sobre o que cada um faz.
Ao final ele a advertiu: Você se ilude.
Ela conta que comeu pizza no almoço. 
Infelizmente foram embora e me deixaram pensando sobre a  alegria máxima recusada. 
Pensei que pode ser aquela que se começa sentir com a ponta da língua e vai se espalhando pelo corpo.
Who knows?


Mesa Amarela.

Parece mesmo predestinada a servir de palco para acontecimentos interessantes. 
Enquanto eu pensava sobre o que iria tomar, alguém pediu chá de hibisco. Será? Ideias exóticas me seduzem, mas nem sempre meu paladar acompanha minhas vontades. Levanto do banco para pedir um cappuccino, quando sinto cheiro de maconha dou meia volta e permaneço sentada. Alguma observação interessante eu conseguirei. 
A moça que ocupa a mesa amarela, que o casal da alegria máxima acabara de deixar, enrola calmamente seu baseado, o aperta e finalmente o acende. Duas pessoas mais se juntam a ela. Pelo sotaque acho que são todos britânicos. Fumam e tomam café. 
Sorte a minha que não ocupei a mesa. 
Não os olho e se me notam devem achar que estou trocando mensagem com alguém e não roubando seus momentinhos.
Finjo total desinteresse por eles, nem sei que caras eles tem. 
Afinal, ninguém é o que parece. 



sexta-feira, 13 de maio de 2016

"É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade" - Nise da Silveira.

Minha primeira lição de política veio de forma meio atabalhoada. O último presidente da ditadura militar, o que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro de povo, havia caído de um de seus cavalos e fraturado a perna. Passou no jornal nacional como um acontecimento importante. Eu, criança de tudo, olhei para a cara velha dele e disse:"Tadinho!"

Aí veio a lição. Meu pai veio em minha direção com o dedo em riste e disse:"Coitado não! É um filho da puta, Susana. Filho da puta, ditador, bandido!" Aproveitou e me disse que o tal regime matava pessoas.

Eu escutei tudo e repeti: "Filho da puta! Filho da puta!"

Na sequência vieram as Diretas Já, e meus pais carregavam no carro o tal adesivo preto e amarelo que pedia que os cidadãos brasileiros pudessem votar eles mesmos para presidente. As eleições diretas não vieram naquele momento, mas a redemocratização foi chegando aos poucos. E com ela foi instalada a Assembleia Constituinte, onde o Congresso Nacional votava a Constituição da República Federativa do Brasil. Durante a semana, os trabalhos da Assembleia eram transmitidos por algum tempo pela televisão.

Aí outro fato interessante. Eu e minha avó Júlia sentávamos juntas, na mesma chaise long, e lá ficávamos ouvindo como se fazia uma Constituição. Penso que talvez aí esteja a raiz de uma futura decisão em cursar direito na faculdade. Talvez. Ela não chegou a ver a Constituição promulgada, morreu antes. Mas eu vi.

No dia 05 de outubro de 1988 eu tinha 13 anos e me lembro apenas que estava no quintal de casa pulando e gritando porque a Constituição existia enfim. Não lembro o que passava em minha cabeça ou mesmo se eu tinha noção do que isso significava de fato. Só consigo lembrar que sentia um tipo de alegria.

Depois disso, muita coisa aconteceu. Muitas lições mais vieram através de professores, amigos e muita observação. A diversidade de crenças e opiniões sempre me atraiu e instigou. Sempre me pareceu saudável e honesta essa convivência com pessoas que divergem de você.

Quando foi mesmo que isso deixou de ser interessante? Quando foi mesmo que ataques raivosos começaram a nos enxovalhar, a nos apontar o dedo e nos aplicarem adjetivos carregados de preconceitos e esvaziados de razão?

Eu particularmente passei a conhecer o lado B de muita gente no facebook. E descobri logo que ali não era o meu lugar. Obviamente, as redes sociais não são a razão dessa virulência, são apenas plataformas de disseminação de opiniões. A raiz penso que seja outra; a opinião massificada da grande mídia, que se dedica a uma campanha de destruição do jornalismo e adoção de um comportamento político partidário coadunado ao seu interesse particular, o que no meu muito humilde entender, não me parece ser a função da imprensa. E isso, claro, não é de agora.

O golpe de 1964 teve a mesma dinâmica, campanha massiva dos jornais para o linchamento moral de Jango, pesquisas de opinião em que se demonstrava baixa popularidade e acusações de corrupção. Tudo pronto. Marcha da família com Deus para referendar e aprovar o golpe que a elite e a classe média queriam.

Um ano depois do golpe, Roberto Marinho ganha a concessão para operar uma emissora de televisão e se torna, a partir de então, um dos homens mais ricos do Brasil, com um absurdo volume de dinheiro público injetado em seu negócio. Contraprestação? Apoio ao regime ditatorial, porta-voz e propagandista.  Outro dado interessante é a revelação de que Roberto Marinho "convenceu" Castelo Branco a não chamar eleições diretas para sua sucessão e indicou um nome linha dura para o ministério das comunicações. Em 1969 veio o Ato Institucional nº 5, o terrível. http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/04/eua-confirma-acao-de-roberto-marinho-nos-bastidores-da-ditadura-3931.html

Perseguição, tortura e assassinatos. Sobre tudo isso repousa a fortuna dessas famílias donas da grande mídia brasileira. Então, eu realmente tenho dificuldade em entender que pessoas se conduzam cegamente pela opinião desses meios nos dias de hoje. Atualmente, com o advento da internet, aconteceu a democratização da opinião. Jornalistas que antes se submetiam, sem outra alternativa, aos caprichos dos seus patrões, donos de jornais e revistas, para exercerem suas profissões, hoje podem ao menos expressarem suas ideias facilmente. E nós, leitores, podemos escolher, comparar e tirarmos nós mesmos nossas próprias conclusões. Hoje, não precisamos mais sermos reféns da grande mídia. É uma opção pessoal não querer analisar e pensar.

Logo pela manhã, no twitter, li uma postagem do Xico Sá em que ele dizia respeitar quem foi de certa forma levado a acreditar nesse golpe, pois a mídia fez uma campanha incansável por ele. Eu não consigo respeitar. Xico é certamente um ser mais evoluído que eu e eu entendi a essência do que ele quis dizer.

No entanto, o que sinto é raiva por saber que os direitos de tantas pessoas, incluindo os meus e dos chamados idiotas úteis, estão ameaçados.

A tv aqui em casa não é ligada na globo ou afins. Meus filhos não precisam ser submetidos a essa grande mídia enquanto estão em formação. Precisam de estudo e de poder de análise, coisa inexistente nessa mídia de famiglia.

Ontem, assisti ao discurso de despedida da Dilma. Enquanto ela falava e não derrubava uma lágrima, apesar de seu visível abatimento e tristeza, eu escutava cada uma daquelas palavras prestando atenção àquela força, olhar altivo e dignidade que dela emanavam. Invejei aquela MULHER. Enquanto eu chorava, ela dizia que não desistiria de lutar, porque a vida nunca foi fácil prá ela. Prisão. Tortura. Doença. Linchamento moral, de cunho sexual inclusive, promovido por uma imprensa ela mesma atolada em corrupção (Panama Papers), podridão e histórico de promoção de golpes de Estado. E depois de tudo, Dilma ainda fez questão de abraçar pessoas aos prantos que a esperavam do lado de fora do Palácio. Quanta admiração e carinho eu senti por aquela MULHER. Como no dia em que vários jovens morreram queimados no interior de uma boate no RS e ela saiu de um compromisso oficial e foi até lá abraçar as famílias das vítimas.

No dia anterior ao golpe, eu tinha lido duas cartas; uma de uma trabalhadora sexual e outra de uma lésbica - denominações usadas pelas próprias autoras. Tão bonitas, tão carregadas de humanidade e carinho, escritas pelas mãos de pessoas que sabem bem o que é dificuldade, desrespeito e preconceito. Eram delas para Dilma. Seguem os links;
http://www.revistaforum.com.br/2016/05/11/monique-prada-carta-a-dilma/ http://farofafa.cartacapital.com.br/2016/05/10/voces-ja-estao-mortos/?utm_content=buffer85ae1&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

Votei nela as duas vezes, porque com todos os defeitos dela e os erros que o PT cometeu, eu votei num programa de diminuição do abismo social, da desigualdade, da luta contra a fome de um Brasil que a maioria de nós desconhece e nem tem interesse em conhecer. Votei nas políticas afirmativas. Votei pela ascensão social de milhares de pessoas. Votei por termos chegado a ser a 6ª maior economia mundial e pelo pré-sal. Não me arrependo e nem me envergonho, como muitas pessoas do meu círculo acham que eu deveria. Não tenho a mesma força da Dilma, mas minha cabeça não se abaixa para gente desinformada, reacionária e desumana, que trata os beneficiados de Bolsa Família como pessoas sem mérito e vagabundos, sem nunca terem lido uma reportagem sobre os resultados (http://revistapegn.globo.com/Mulheres-empreendedoras/noticia/2016/03/empreendedorismo-traz-autonomia-mulheres-na-luta-contra-pobreza.html) que o programa alcançou, sem contar o prêmio internacional que o programa recebeu da Associação Internacional da Seguridade Social (ISSA): http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=20191

Não me arrependo de ter ido às ruas, durante o ano de 2015 já, para defender o meu voto que se traduz na soberania popular. Ela, que em 1988 foi elencada logo no inciso I do art. 1º da Constituição; a soberania. O parágrafo único diz que todo poder emana do povo. Será?

Hoje o que sinto é imensa vergonha. No domingo 17 de abril assisti estarrecida o circo de horrores que foi a votação na Câmara dos Deputados. Um desfile de canalhice, sexismo, covardia, apologia aos torturadores e alta traição. Tudo isso com a mais alta dose de desfaçatez. Ao final daquilo, percebi que estava com um hematoma na palma da mão; uma veia estourada e dor de garganta, que evoluiu para uma intensa sinusite. Não liguei mais a tv, não dei conta de ver o espetáculo do Senado. Apenas lia as notícias pela internet.

Contudo, foi esclarecedor assistir à sessão da Câmara, porque ali deu para entender bem com que tipo de gente Dilma estava lidando desde que foi reeleita e todas as chantagens que ela sofreu para tentar governar. A verdade é que ela não conseguiu governar um dia sequer. Ela nada conseguiria aprovar num Congresso tão conservador e retrógrado como tivemos a oportunidade de ver.

Aos que dizem que ela deveria ter se aproximado mais da esquerda, não tiro a razão, mas também nesse ponto, vimos o tamanho da esquerda no Congresso e pudermos ver que sem alianças com outros partidos, nada teria condições de andar.

O sistema de alianças, costurado lá atrás pelo próprio Lula, faliu nas mãos dela, por vários aspectos, mas basicamente porque um homem quase octogenário, marido de uma mulher bela, recatada e do lar, queria ser presidente. Aliado ao fato de um playboy da zona sul carioca, que finge ser mineiro, não ter aceitado a derrota nas urnas e ter encontrado em seu partido apoio para uma oposição irresponsável, que jogou o país no aprofundamento de uma recessão econômica. Homens vaidosos, à sombra de uma MULHER, que não lograram chegar ao poder, acharam normal jogar nossa jovem democracia no lixo e desmoralizar o país na comunidade internacional.

O mote para promover o que a grande mídia chama de dia histórico? A corrupção, sempre ela. Nunca falha. Para que mudar a fórmula se ela sempre funciona? Pois bem, então. Este é o 2º dia do tal governo e já temos 7 ministros acusados na Lava-Jato, que agora tem foro privilegiado e um ministro do STF empenhadíssimo em livrar a cara do Aécio Neves, esse sim fartamente delatado na Lava-Jato, ao contrário da Dilma, cuja única menção em delações foi de ter tentado interferir nas investigações. Tese desmentida pelos próprios integrantes da tal força-tarefa da Lava-Jato. Estou perdida! Não era contra a corrupção? Uma PresidentA sem acusação de corrupção cai e entra um vice, ele sim delatado como recebedor direto de proprina? Onde foi que eu perdi o raciocínio lógico? Já o ministro da justiça, advogado do PCC, tem um  histórico altamente repressor e que já manifestou clara intensão de criminalizar movimentos sociais que farão oposição.

Em relação à liberdade de expressão, rola uma notícia por aí que é bom ficarmos atentos, pois hoje o tal governo tem quórum para fazer o que bem entender, é bom que se diga. Existe um projeto que torna crime falar mal de políticos na internet. A pena chega a dois anos de prisão e o crime é inafiançável, esta última parte não está no link (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/camara-quer-punir-quem-fala-mal-de-politico-na-internet/).

Esse processo todo foi muito doloroso, deixei de admirar e mesmo de depositar sobre pessoas sentimentos como amor, amizade e admiração. Por tudo isso, o que vivo hoje é um luto. Sinto que finalmente, depois de muito ser ameaçada, fui efetivamente violentada em meus direitos. A Constituição Federal foi sendo rasgada pouco a pouco bem diante do meu nariz. O direito, no qual eu tinha alguma crença, foi sendo sistematicamente negado a uns e "flexibilizado" em relação a outros.

Aos 13 anos eu festejei uma Constituição, hoje eu assisto à sua morte. STF? Não mesmo. Ele segue sendo o que sempre foi; o mesmo que entregou Olga Benário grávida ao estado nazista para morrer num campo de concentração. Um dos ministros dá nome a uma das principais ruas do Leblon - Ataulfo de Paiva.

Ontem fui assistir ao filme "Nise, O Coração da Loucura". Nise da Silveira, uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil, se especializou em psiquiatria. Afastada de suas funções porque uma enfermeira a acusou de comunismo, foi presa política. Depois de sair da prisão foi reintegrada ao cargo público. Sofreu preconceito e boicote ao tentar implantar práticas mais humanas dentro um hospital psiquiátrico comandado por médicos homens que aplicavam eletrochoque e faziam lobotomia nos pacientes. A certa altura, um deles em meio a uma discussão a xinga de "comunista" que quer promoção pessoal. Ao que ela responde; minha ferramenta é o pincel, a sua; o picador de gelo. Os resultados que ela obtém no hospital são a incrível melhora da condição clínica dos pacientes e uma vasta produção artística, aclamada pela crítica. Resultados que incomodaram sobremaneira os seus colegas médicos.

Depois do filme fiquei pensando; o que mudou de lá prá cá?

domingo, 19 de julho de 2015

Dante e o fim do mundo.

A caminho da escola, por volta de 8:30 da manhã, depois de falar sobre os meses com 30 e 31 dias, Dante achou por bem agitar um pouco o papo:
 
 - Ôh mãe, quando é que o Rio de Janeiro vai morrer?
 - Oi?
 - Quando o Rio de Janeiro vai morrer?

Suspirei, ajeitei os óculos escuros em cima do nariz, lamentei, intimamente, que estivesse um calor de quase 30º em pleno inverno e respondi decidida a mudar o rumo da conversa:

 - O Rio de Janeiro não vai morrer!
 - Vai sim...
 - Não meu amor, o Rio de Janeiro é uma cidade.

Dante soltou a mochila, abriu os bracinhos, arregalou os olhos verdes olhando bem para minha cara e disse o seguinte:
 - Quando o mundo explodir?

Já imaginaram ouvir isso da boca de uma criança de 6 anos? Eu fiquei tão estupefata que minha primeira reação foi pedir-lhe satisfação:

 - De onde você tirou essa porcaria de informação?

Nesse momento, só me vinha à mente a imagem de Adrián assistindo àqueles programas de física no History, Discovery e National, com Dante ao lado. Minha vontade era ligar para a central da NET e cancelar essa porcaria toda, só de raiva.

- Não é? O Rio de Janeiro vai morrer quando o mundo explodir, não é? Quando isso acontecer - explicava ele com didática sádica, até abaixando o tom de voz - as cidades vão ficar pequenininhas assim ó.

A cena era um menino atrevido contando como se daria o fim dos tempos diante de uma mãe atônita, com olhos arregalados, boca aberta e batimentos cardíacos alterados.

- Responda Dante! De onde você tirou essa informação?

Que raiva eu sentia do Adrián!

- Ué...do meu "célebro", disse Dante exibindo o perfil e passando o dedo indicador desde o meio da testa até a parte de trás da cabeça.
- Do seu cérebro?
- É! Ôh mãe, se o "célebro" é divido em dois, por que a minha cabeça não?
- Porque o crânio, que protege o cérebro, não é.
- Ah tá.

Eu quase atravessei a rua com o sinal fechado para pedestre. Quase tudo, menos ouvir sobre o fim do mundo de uma criança. 

- Ôh mãe, eu gosto de fazer parada técnica!
- Parada técnica?
- Sim, ali na lanchonete do posto de gasolina. É que eu estou com sede e queria beber uma coisinha.
- Beber uma coisinha? Tá bem, eu também tô precisando beber uma coisinha.

Em outras condições tal parada técnica seria vedada, mas àquela altura quem precisava dela era eu. Saímos de lá, ele com um Gatorade de uva e eu com uma água bem gelada. A conversa daí para frente foi bem amena:
- Aaaaaaaaaai, que gostoso, mamãe! Bem refrescante.
- É, que bom, né Dante? Que bom.
- É. Muito bom.

Mãe, o que é deus?


 - O que é deus?

Adrián e eu nos entreolhamos. Ele, rapidamente se esquivou:

 - A mamãe vai te explicar, ela estudou em colégio de freiras.

 - Mãe, o que é deus?

Entre duas cadeiras de criança no banco traseiro do carro, fui alvo da tal pergunta. Não teve introdução ou rodeios, ela veio assim mesmo e acompanhada de um olhar em expectativa.

 - Deeeeeeeeus... Deus é... Deus é uma ideia (tom indeciso)... Quer dizer, Deus é um ser (mais confiante), que você nunca vai conhecer!

 - Por que?

 - Porque o segredo é esse. Você acredita mesmo sabendo que nunca vai conhecer. É o que se chama fé. Ah, e também tem outra coisa, você pode acreditar ou não em Deus, entendeu?

 - E você, acredita?

Perceberam que até o momento Dante não respondeu a uma única pergunta? São apenas outras perguntas como respostas.

 - Hum...sim.

 - E o que mais?

 - Bem...dizem que ele é o criador de todas as coisas (tom relutante, temendo incutir na mente dele o criacionismo). Mas olha, assim...o universo foi criado por uma grande explosão. Não foi isso que você aprendeu na EDEM (escola laica, cujo prédio é um antigo convento, a logomarca é uma maçã e a dona é judia – eu adoro isso)?

 - Sim.

 - Exatamente. Continuando, Deus é importante para todas as religiões (em dúvida após a afirmação feita), sabe?

 - E o Cristo Redentor?

 - É uma estátua que fica lá no alto do Corcovado (não resisti).

 - Ah tá...

Adrián não aguentou e achou por bem participar da conversa.

 - Não! Ele não é só uma estátua. Explica direito.

  - Mãe, não foi o Cristo que morreu na cruz?

 - Dante, de onde você tirou essas informações?

 - Ué, eu tava conversando com meus amigos.

 - Ah tá. Jesus...é o filho de Deus (para alguns, pensei e calei, a coisa já estava bem complexa).

 - Filho?

 - Sim.

 - E quem é a namorada de Deus?

 - Não tem namorada.

 - Namorado?

 - Tampouco (pensei em dizer que era um ser assexuado, mas só pensei).

 - Ué...então como é que ele tem filho?

 - Pois é...como é que eu vou te explicar? Olha, dizem que foi assim, Deus escolheu a Maria para gerar Jesus (tipo uma inseminação artificial, pensei e calei). E ela engravidou e Jesus nasceu.

 - Hum...E por que mataram Jesus?

 - Então, ele tinha ideias muito avançadas para a época e o poder vigente se sentiu muito ameaçado com os ensinamentos dele. Aliás, se fosse hoje, teria o mesmo fim, acredite na mami.

 - E quando ele nasceu?

 - Há mais de 2000 anos.

 - Em que dia?

 - No dia 25 de dezembro. Por isso comemoramos o Natal.

Adrián completou dizendo que a data não era apenas para as pessoas gastarem dinheiro com presentes. E que o real significado do Natal era o nascimento do “niño Dios”.

 - Ah tá...e depois mataram Jesus?

 - Sim.  

 - E onde ele está enterrado?

 - Bem...como é que eu vou te dizer? Assim; depois que tiraram Jesus da cruz, levaram-no para uma gruta. O problema é que, quando voltaram lá, ele não estava mais.

 - Ué, e onde ele estava?

 - E foi então que...bom...eles acharam que Jesus havia ressuscitado.

 - O que é isso?

 - Ressuscitar é voltar à vida, entendeu?

 - Ah tá. Então, Jesus é tipo um zumbi, né?

Eu fiz uma cara de reflexão pensando no que tinha ouvido, expressão rapidamente captada por Adrián, que mais uma vez, fez uma intervenção:

 - Não!

E eu:

 - Não. Não.

 - Ué...então é o que?

 - Ressuscitar é voltar à vida em toda a sua plenitude e não pela metade, feito o zumbi, que é um morto vivo.

 - Ah...e para onde ele foi depois disso?

 - Hum...ele? Bom...parece que...dizem que ele...

E Adrián:

 - Ele voltou a viver com o pai dele, amor.

 - É, disse eu. E nesse dia a gente comemora a Páscoa. O dia em que ele ressuscitou.

 - E o ovo da Páscoa?

 - Ah filho...mais uma invenção do homem para as pessoas gastarem dinheiro, mas o ovo deveria simbolizar essa história toda. O fato é, meu amor, que até hoje procuram os restos mortais de Jesus.

 - O que são restos mortais?

 - Ah...os ossos.

 - Hum.

 - Essa história é muito complicada, né?

 - E se acharem os ossos de Jesus? É por que ele não ressuscitou?

 - Ah...o que importa é a alma, filho. E ela ressuscitou.

  - O que é alma?!