Dante e eu
vamos caminhando para a escola dele, cujo percurso tem mais ou menos 1 km. Enquanto
andamos de mãos dadas, ele não para de falar; faz planos para a festa de
aniversário dele (abril de 2015), comenta de modo despretensioso que da próxima
vez que eu for comprar uma chuteira para ele, que seja a do Neymar e outras
tantas pautas da máxima urgência.
Hoje
estávamos já quase chegando à escola quando ele narrou o que foi o seu segundo
conto fantástico. O primeiro foi no final da minha segunda gravidez e,
infelizmente, não tomei nota, lembro apenas que era bastante bom, pois envolvia
espionagem, demanda por alimentos e um mundo caótico. A verdade é que fiquei
tão chocada que demorei para reagir ao que ouvi. Enquanto ele falava eu me lembrava
de “1984” e o grande irmão.
Então, antes
que eu me esqueça, vamos a essa nova trama.
Comecei a
captar quando ele disse o seguinte:
- Eu tenho que cuidar da prateleira.
- Por que?
- Porque os dragões vão começar a voar de um
lado para o outro.
- Ah é? Mas por que isso?
- Porque é assim, eles faziam parte de uma
brincadeira que...(Nesse momento ele ergueu os bracinhos em movimentos lentos e
circulares) saiu do lugar.
- O que saiu do lugar?
- A brincadeira.
- Caramba! A brincadeira saiu do lugar? Mas
como?
- Ela saiu do lugar e se espalhou para o mundo
inteiro, foi até para Moises Ville, para Avanhandava, para Penápolis. E aí os
dragões estão soltos voando por aí e brigando uns com os outros.
- E quem estava nessa brincadeira que saiu do
lugar?
- Eu, o Arthur e o Rafa. Agora nós somos os
guerreiros que vão deter os dragões.
- Isso é o que? Algum vídeo game?
- Não mãe! Já falei, é uma brincadeira que
saiu do lugar. A brincadeira estava num círculo e saiu dele...entendeu?
- Entendi, disse sorrindo toda orgulhosa.
Ele
continuou narrando como derrotaria os dragões baderneiros que se espalhavam
pelo mundo. Usaria golpes de judô, cujos nomes foram ditos em termos técnicos
que eu não consigo reproduzir exatamente (sotogari – assim soou). Perguntei que
golpe era esse. Ele parou na calçada, postou-se à minha frente, pediu que eu
abaixasse, pegou a gola da minha camisa e passou a perna dele por trás das
minhas, quase me derrubando mesmo, para alegria de uma senhora que nos
observava.
- É isso, sentenciou.
- Dante, e de onde saiu toda essa história da
brincadeira que saiu do lugar?
- Do meu cérebro, ué!
- Adorei amor!
Infelizmente chegamos ao portão da EDEM, uma
escola laica instalada num antigo convento, onde nos despedimos e combinamos de
nos encontrar no final da tarde.
Assim foi. Quando
começamos nossa volta para a casa, retomei o assunto dos dragões dizendo que estava
muito curiosa para saber mais detalhes da brincadeira que saiu do lugar.
- Mãe, dragões existem?
- Não.
- Mas eles já existiram algum dia, igual os
dinossauros?
- Não, meu amor, são seres mitológicos.
- O que é isso?
- Seres que foram inventados pela imaginação
do homem, sem nunca terem existido um dia.
- Hum...mas esses dragões existem, viu?
- E onde eles estão?
- Eles saíram do círculo e vieram para esse
mundo nosso, mas nós não vemos porque eles são invisíveis.
- Viu, não existem.
- Existem sim, você não vê, mas eles existem,
não é porque você não consegue ver que eles deixam de existir.
- Sério?
- É sério. Eles saíram da roupa de judô do
Alan para voarem por aí.
Claro que
meu olhar de mãe acha linda a história, mas eu realmente fiquei feliz em notar
que Dante pode olhar para um desenho numa roupa e imaginar toda uma trama a
partir dela. A fantasia é mesmo libertadora. Mamãe deseja que você nunca perca
essa capacidade de criar suas próprias histórias para fugir da rotina que desde
cedo adotamos para organizar a vida.
E concordo
muito com você, meu amor; o fato de não vermos não quer dizer que não exista.
Além imaginar contos fantásticos, você é um sábio, meu Dante.
Lindo Susana!
ResponderExcluirSuzane
Cara Susana, adorei sua escrita. Sinceramente. Abraços.
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