...sim, a verdade.
Vanessa costumava ser uma boa amiga, sendo que nos áureos tempos dessa amizade
trocávamos cartas...ou melhor, longas cartas, cartas relatos do cotidiano;
preocupações e aflições da vida, impressões sobre determinada instalação
composta por bacias coloridas em uma bienal da década de 90, decepções, novas
amizades, paixões e desamores, enfim...coisas que ocupam coraçõezinhos jovens e
bem humorados. Cartas, cartas mesmo...com papel, selo e grandes envelopes
pardos ou amarelos. A correspondência era tão intensa que nessa época minha
primeira personagem também começou escrever cartas à Vanessa. Sim, com alguma
sorte Vanessa talvez ainda tenha tais missivas grafadas com letras cursivas, já
que eu escrevo com letras de forma. A personagem era minha irmã gêmea e cursava
psicologia. Nossa...Vanessa e ela se entenderam tão bem que...sim, fiquei com
uma pontinha de ciúme. As duas conversavam ao telefone durante horas, sendo que
para mim sobrava apenas um “mande um beijo para a Susana” e o faro
investigativo/jornalístico de Vanessa estava decidido a desvendar aquela
menina, queria conhecê-la, como conhecia a mim. Após a primeira conversa percebeu
que minha irmã era mais reservada, contida e menos dada às paixões a que se
entregava a sua irmã, ou melhor, eu mesma. O tom de voz era outro, o ritmo da
fala mais pausado e algumas respostas lacônicas. Discorreram, Vanessa e minha irmã/personagem,
sobre uma paixão platônica que eu desenvolvi, uma transferência erótica, para
ser mais técnica e alegrar minha irmã, digo, minha personagem. A amizade entre
elas foi quase instantânea, elas se gostaram. A nossa realidade cheia de
dúvidas e indagações acerca de nossas profissões, caminhos a seguir e outras
questões que assolam os vinte aninhos era permeada por instantes criativos,
reflexivos, às vezes dramáticos e quase sempre engraçados e surpreendentes.
Imaginação não nos faltava, isso jamais. Certa vez, Vanessa encontrou na rua um
conhecido nosso que nos era um tanto misterioso e... bem, podíamos tolerar quase
tudo, mas nunca um mistério e uma oportunidade de se descobrir um pouco mais
sobre quem não quisesse ser percebido, nunca era descartada. Claro que não se
recorria à abordagem, mas a uma disfarçada perseguição esgueirando-se atrás de
árvores para não ser notada. Bloquinho e caneta? Para que? Quando se tem uma
memória prodigiosa para detalhes. A caneta servia sim, para depois de
finalizada a investigação, todos os dados de campo serem lançados a termo numa
longa e detalhada carta com destino a Campinas, aos cuidados de Susana. E antes
que aquele que nos lê se perguntar se não tínhamos nada para fazer, vai a
resposta: éramos muito ocupadas, Vanessa inclusive fazia duas faculdades. E depois,
tínhamos as noites e quiçá algumas madrugadas de inspiração. Quando eu chegava
à portaria do prédio onde eu morava e via uma carta da Vanessa, subia correndo
e já abrindo o envelope quase sempre volumoso. Mesmo quando não tínhamos muitas
coisas a contar, contávamos as que tínhamos em detalhes e também usávamos
comentar a carta uma da outra. E tinha outra coisa...quando não muito acontecia
em nossas vidas podíamos inventar estórias, imaginar situações e assim,
escrever cartas. Certa vez, de férias em Penápolis, recebi um envelopão vindo de
São Paulo com muitas folhas escritas. Não me lembro do conteúdo, lembro apenas
que ria muito, tipo chorar de rir, o que chamou a atenção da minha mãe, que
correu ao meu quarto e quis saber a razão de tudo aquilo. Engoli a risada e
respondi que era carta da Vanessa. Mami queria saber o que estava escrito ali,
mas lembro vagamente que o conteúdo era relativo à minha intimidade. Enfiei
rapidamente a carta no bolso de trás da calça e deitei em cima, recusando
compartilhar o que ali estava escrito. Fui torturada com cócegas até não ter
mais forças e lá estava a minha intimidade devassada. Minha mãe também riu e
disse que escrevíamos peças de teatro e não cartas. É pode ser. Sim sim...bons
tempos aqueles. Tempos em que internet era artigo de luxo, nem todo mundo tinha
computador em casa, não existia fecebook e muito menos esse tal song pop, que
Vanessa parece preferir jogar a responder às minhas cartas, digo, meus e-mails.
Sim, Vanessa era minha correspondente mais ativa e constante e, certamente eu a
dela. Agora...bem, agora estou aqui, nesse lamento solitário, porém bem
público, que é para ver se ela se envergonha e retoma já tão esquecido hábito.
Aviso ainda que caso essa indiscrição não surta efeito, darei início a um
impiedoso Vanleaks.
Foto: Cecília Bhering de Araújo.
Su, minha amiga, te amo tanto que aprendi a amar ate seu alter ego, tao diferente de vc, mas ainda sim tao vc. Vc e minha adolescencia, minhas risadas e choro. Em vc ha muito de mim... Jamais te trocaria por jogos de internet. Isso e invencao da sua cabecinha cheia de delirios e tb de sonhos, mais maduros, posto que vc ja se tornou uma mae de familia, porem nao menos reluzentes. Te amo pra sempre. Em nossa velhice estaremos juntas, refletindo uma para a outra a imagem de nos mesmas
ResponderExcluirQue lindo, Van...tá vendo? É disso que sinto falta, dessas palavras carinhosas, acalentadoras e poéticas. Adoro ler suas mensagens, sempre gostei. Amo muito você,amiga. E saiba, essas construções do tipo da minha irmã gêmea são empreendidas e destinadas apenas a quem amamos, posto que dão trabalho, um doce trabalho. Você tem toda razão em tudo que escreveu.
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