Minha primeira lição de política veio de forma meio atabalhoada. O último presidente da ditadura militar, o que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro de povo, havia caído de um de seus cavalos e fraturado a perna. Passou no jornal nacional como um acontecimento importante. Eu, criança de tudo, olhei para a cara velha dele e disse:"Tadinho!"
Aí veio a lição. Meu pai veio em minha direção com o dedo em riste e disse:"Coitado não! É um filho da puta, Susana. Filho da puta, ditador, bandido!" Aproveitou e me disse que o tal regime matava pessoas.
Eu escutei tudo e repeti: "Filho da puta! Filho da puta!"
Na sequência vieram as Diretas Já, e meus pais carregavam no carro o tal adesivo preto e amarelo que pedia que os cidadãos brasileiros pudessem votar eles mesmos para presidente. As eleições diretas não vieram naquele momento, mas a redemocratização foi chegando aos poucos. E com ela foi instalada a Assembleia Constituinte, onde o Congresso Nacional votava a Constituição da República Federativa do Brasil. Durante a semana, os trabalhos da Assembleia eram transmitidos por algum tempo pela televisão.
Aí outro fato interessante. Eu e minha avó Júlia sentávamos juntas, na mesma chaise long, e lá ficávamos ouvindo como se fazia uma Constituição. Penso que talvez aí esteja a raiz de uma futura decisão em cursar direito na faculdade. Talvez. Ela não chegou a ver a Constituição promulgada, morreu antes. Mas eu vi.
No dia 05 de outubro de 1988 eu tinha 13 anos e me lembro apenas que estava no quintal de casa pulando e gritando porque a Constituição existia enfim. Não lembro o que passava em minha cabeça ou mesmo se eu tinha noção do que isso significava de fato. Só consigo lembrar que sentia um tipo de alegria.
Depois disso, muita coisa aconteceu. Muitas lições mais vieram através de professores, amigos e muita observação. A diversidade de crenças e opiniões sempre me atraiu e instigou. Sempre me pareceu saudável e honesta essa convivência com pessoas que divergem de você.
Quando foi mesmo que isso deixou de ser interessante? Quando foi mesmo que ataques raivosos começaram a nos enxovalhar, a nos apontar o dedo e nos aplicarem adjetivos carregados de preconceitos e esvaziados de razão?
Eu particularmente passei a conhecer o lado B de muita gente no facebook. E descobri logo que ali não era o meu lugar. Obviamente, as redes sociais não são a razão dessa virulência, são apenas plataformas de disseminação de opiniões. A raiz penso que seja outra; a opinião massificada da grande mídia, que se dedica a uma campanha de destruição do jornalismo e adoção de um comportamento político partidário coadunado ao seu interesse particular, o que no meu muito humilde entender, não me parece ser a função da imprensa. E isso, claro, não é de agora.
O golpe de 1964 teve a mesma dinâmica, campanha massiva dos jornais para o linchamento moral de Jango, pesquisas de opinião em que se demonstrava baixa popularidade e acusações de corrupção. Tudo pronto. Marcha da família com Deus para referendar e aprovar o golpe que a elite e a classe média queriam.
Um ano depois do golpe, Roberto Marinho ganha a concessão para operar uma emissora de televisão e se torna, a partir de então, um dos homens mais ricos do Brasil, com um absurdo volume de dinheiro público injetado em seu negócio. Contraprestação? Apoio ao regime ditatorial, porta-voz e propagandista. Outro dado interessante é a revelação de que Roberto Marinho "convenceu" Castelo Branco a não chamar eleições diretas para sua sucessão e indicou um nome linha dura para o ministério das comunicações. Em 1969 veio o Ato Institucional nº 5, o terrível. http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/04/eua-confirma-acao-de-roberto-marinho-nos-bastidores-da-ditadura-3931.html
Perseguição, tortura e assassinatos. Sobre tudo isso repousa a fortuna dessas famílias donas da grande mídia brasileira. Então, eu realmente tenho dificuldade em entender que pessoas se conduzam cegamente pela opinião desses meios nos dias de hoje. Atualmente, com o advento da internet, aconteceu a democratização da opinião. Jornalistas que antes se submetiam, sem outra alternativa, aos caprichos dos seus patrões, donos de jornais e revistas, para exercerem suas profissões, hoje podem ao menos expressarem suas ideias facilmente. E nós, leitores, podemos escolher, comparar e tirarmos nós mesmos nossas próprias conclusões. Hoje, não precisamos mais sermos reféns da grande mídia. É uma opção pessoal não querer analisar e pensar.
Logo pela manhã, no twitter, li uma postagem do Xico Sá em que ele dizia respeitar quem foi de certa forma levado a acreditar nesse golpe, pois a mídia fez uma campanha incansável por ele. Eu não consigo respeitar. Xico é certamente um ser mais evoluído que eu e eu entendi a essência do que ele quis dizer.
No entanto, o que sinto é raiva por saber que os direitos de tantas pessoas, incluindo os meus e dos chamados idiotas úteis, estão ameaçados.
A tv aqui em casa não é ligada na globo ou afins. Meus filhos não precisam ser submetidos a essa grande mídia enquanto estão em formação. Precisam de estudo e de poder de análise, coisa inexistente nessa mídia de famiglia.
Ontem, assisti ao discurso de despedida da Dilma. Enquanto ela falava e não derrubava uma lágrima, apesar de seu visível abatimento e tristeza, eu escutava cada uma daquelas palavras prestando atenção àquela força, olhar altivo e dignidade que dela emanavam. Invejei aquela MULHER. Enquanto eu chorava, ela dizia que não desistiria de lutar, porque a vida nunca foi fácil prá ela. Prisão. Tortura. Doença. Linchamento moral, de cunho sexual inclusive, promovido por uma imprensa ela mesma atolada em corrupção (Panama Papers), podridão e histórico de promoção de golpes de Estado. E depois de tudo, Dilma ainda fez questão de abraçar pessoas aos prantos que a esperavam do lado de fora do Palácio. Quanta admiração e carinho eu senti por aquela MULHER. Como no dia em que vários jovens morreram queimados no interior de uma boate no RS e ela saiu de um compromisso oficial e foi até lá abraçar as famílias das vítimas.
No dia anterior ao golpe, eu tinha lido duas cartas; uma de uma trabalhadora sexual e outra de uma lésbica - denominações usadas pelas próprias autoras. Tão bonitas, tão carregadas de humanidade e carinho, escritas pelas mãos de pessoas que sabem bem o que é dificuldade, desrespeito e preconceito. Eram delas para Dilma. Seguem os links;
http://www.revistaforum.com.br/2016/05/11/monique-prada-carta-a-dilma/ http://farofafa.cartacapital.com.br/2016/05/10/voces-ja-estao-mortos/?utm_content=buffer85ae1&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer
Votei nela as duas vezes, porque com todos os defeitos dela e os erros que o PT cometeu, eu votei num programa de diminuição do abismo social, da desigualdade, da luta contra a fome de um Brasil que a maioria de nós desconhece e nem tem interesse em conhecer. Votei nas políticas afirmativas. Votei pela ascensão social de milhares de pessoas. Votei por termos chegado a ser a 6ª maior economia mundial e pelo pré-sal. Não me arrependo e nem me envergonho, como muitas pessoas do meu círculo acham que eu deveria. Não tenho a mesma força da Dilma, mas minha cabeça não se abaixa para gente desinformada, reacionária e desumana, que trata os beneficiados de Bolsa Família como pessoas sem mérito e vagabundos, sem nunca terem lido uma reportagem sobre os resultados (http://revistapegn.globo.com/Mulheres-empreendedoras/noticia/2016/03/empreendedorismo-traz-autonomia-mulheres-na-luta-contra-pobreza.html) que o programa alcançou, sem contar o prêmio internacional que o programa recebeu da Associação Internacional da Seguridade Social (ISSA): http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=20191
Não me arrependo de ter ido às ruas, durante o ano de 2015 já, para defender o meu voto que se traduz na soberania popular. Ela, que em 1988 foi elencada logo no inciso I do art. 1º da Constituição; a soberania. O parágrafo único diz que todo poder emana do povo. Será?
Hoje o que sinto é imensa vergonha. No domingo 17 de abril assisti estarrecida o circo de horrores que foi a votação na Câmara dos Deputados. Um desfile de canalhice, sexismo, covardia, apologia aos torturadores e alta traição. Tudo isso com a mais alta dose de desfaçatez. Ao final daquilo, percebi que estava com um hematoma na palma da mão; uma veia estourada e dor de garganta, que evoluiu para uma intensa sinusite. Não liguei mais a tv, não dei conta de ver o espetáculo do Senado. Apenas lia as notícias pela internet.
Contudo, foi esclarecedor assistir à sessão da Câmara, porque ali deu para entender bem com que tipo de gente Dilma estava lidando desde que foi reeleita e todas as chantagens que ela sofreu para tentar governar. A verdade é que ela não conseguiu governar um dia sequer. Ela nada conseguiria aprovar num Congresso tão conservador e retrógrado como tivemos a oportunidade de ver.
Aos que dizem que ela deveria ter se aproximado mais da esquerda, não tiro a razão, mas também nesse ponto, vimos o tamanho da esquerda no Congresso e pudermos ver que sem alianças com outros partidos, nada teria condições de andar.
O sistema de alianças, costurado lá atrás pelo próprio Lula, faliu nas mãos dela, por vários aspectos, mas basicamente porque um homem quase octogenário, marido de uma mulher bela, recatada e do lar, queria ser presidente. Aliado ao fato de um playboy da zona sul carioca, que finge ser mineiro, não ter aceitado a derrota nas urnas e ter encontrado em seu partido apoio para uma oposição irresponsável, que jogou o país no aprofundamento de uma recessão econômica. Homens vaidosos, à sombra de uma MULHER, que não lograram chegar ao poder, acharam normal jogar nossa jovem democracia no lixo e desmoralizar o país na comunidade internacional.
O mote para promover o que a grande mídia chama de dia histórico? A corrupção, sempre ela. Nunca falha. Para que mudar a fórmula se ela sempre funciona? Pois bem, então. Este é o 2º dia do tal governo e já temos 7 ministros acusados na Lava-Jato, que agora tem foro privilegiado e um ministro do STF empenhadíssimo em livrar a cara do Aécio Neves, esse sim fartamente delatado na Lava-Jato, ao contrário da Dilma, cuja única menção em delações foi de ter tentado interferir nas investigações. Tese desmentida pelos próprios integrantes da tal força-tarefa da Lava-Jato. Estou perdida! Não era contra a corrupção? Uma PresidentA sem acusação de corrupção cai e entra um vice, ele sim delatado como recebedor direto de proprina? Onde foi que eu perdi o raciocínio lógico? Já o ministro da justiça, advogado do PCC, tem um histórico altamente repressor e que já manifestou clara intensão de criminalizar movimentos sociais que farão oposição.
Em relação à liberdade de expressão, rola uma notícia por aí que é bom ficarmos atentos, pois hoje o tal governo tem quórum para fazer o que bem entender, é bom que se diga. Existe um projeto que torna crime falar mal de políticos na internet. A pena chega a dois anos de prisão e o crime é inafiançável, esta última parte não está no link (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/camara-quer-punir-quem-fala-mal-de-politico-na-internet/).
Esse processo todo foi muito doloroso, deixei de admirar e mesmo de depositar sobre pessoas sentimentos como amor, amizade e admiração. Por tudo isso, o que vivo hoje é um luto. Sinto que finalmente, depois de muito ser ameaçada, fui efetivamente violentada em meus direitos. A Constituição Federal foi sendo rasgada pouco a pouco bem diante do meu nariz. O direito, no qual eu tinha alguma crença, foi sendo sistematicamente negado a uns e "flexibilizado" em relação a outros.
Aos 13 anos eu festejei uma Constituição, hoje eu assisto à sua morte. STF? Não mesmo. Ele segue sendo o que sempre foi; o mesmo que entregou Olga Benário grávida ao estado nazista para morrer num campo de concentração. Um dos ministros dá nome a uma das principais ruas do Leblon - Ataulfo de Paiva.
Ontem fui assistir ao filme "Nise, O Coração da Loucura". Nise da Silveira, uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil, se especializou em psiquiatria. Afastada de suas funções porque uma enfermeira a acusou de comunismo, foi presa política. Depois de sair da prisão foi reintegrada ao cargo público. Sofreu preconceito e boicote ao tentar implantar práticas mais humanas dentro um hospital psiquiátrico comandado por médicos homens que aplicavam eletrochoque e faziam lobotomia nos pacientes. A certa altura, um deles em meio a uma discussão a xinga de "comunista" que quer promoção pessoal. Ao que ela responde; minha ferramenta é o pincel, a sua; o picador de gelo. Os resultados que ela obtém no hospital são a incrível melhora da condição clínica dos pacientes e uma vasta produção artística, aclamada pela crítica. Resultados que incomodaram sobremaneira os seus colegas médicos.
Depois do filme fiquei pensando; o que mudou de lá prá cá?
Gostei muito do seu post. Afetivo e intenso. Questões para pensar e também para agir-provocar ações.
ResponderExcluirPouco mudou, mas mudou. Que nos mantenhamos em movimento. Andreza
Gostei muito do seu post. Afetivo e intenso. Questões para pensar e também para agir-provocar ações.
ResponderExcluirPouco mudou, mas mudou. Que nos mantenhamos em movimento. Andreza
Mudeu, sim! Agora o fascismo vem travestido de embate. Não é, claro!
ResponderExcluirNo link citado para ilustrar alguns resultados do Bolsa Família, em uma revista da Globo, uma impressionante reportagem sobre a relação do programa na vida de mulheres e no empoderamento das mesmas em vários aspectos. Realmente impressionante. Atenção especial para um fato; a partir de determinado momento e resultados, beneficiadas comunicam que não precisam mais estarem inseridas no programa.
ResponderExcluirVale a pena conferir: http://revistapegn.globo.com/Mulheres-empreendedoras/noticia/2016/03/empreendedorismo-traz-autonomia-mulheres-na-luta-contra-pobreza.html