terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Arquitetura e Malícia.


No dia 03 de janeiro de 2013 o pequeno Dante foi conhecer o estádio “La Bombonera”, o templo cheio de malícia do Clube Boca Juniors. A paixão começou quando minha sogra o presenteou com uma camisa oficial do clube enquanto acontecia a Libertadores da América do ano passado. Para quem não sabe, sou corintiana e vinha, timidamente, o convencendo a torcer pelo timão. Até então tudo ia bem e, no final de 2011, comemoramos juntos o título de campeão brasileiro.

O fato é que quando meu pequeno botou suas mãozinhas naquela camisa, tudo mudou de maneira repentina e, desconfio, irreversível. Vestiu a camisa em todos os sentidos. Lembro-me de uma manhã em que passava na tevê a notícia da vitória do Boca sobre não sei que time pela Libertadores. Ao assistir às imagens dos melhores momentos e dos gols, Dante começou a gritar o nome do Boca e agitar os braços em comemoração. Aí foi que me dei conta e pensei: “Perdi”.

Como sabemos, o embate foi inevitável e a final da Libertadores da América foi protagonizada por Boca e Corinthians. Adrián, meu marido, mesmo sendo torcedor do Colón de Santa Fé, não aguentou a pressão de Dante e cedeu aos seus apelos chorosos para que torcesse pelo Boca, apesar de meus protestos injuriados. Por óbvio, a paixão de Dante o enterneceu mais.

O primeiro jogo foi em “La Bombonera” e sem tomar conhecimento de toda a pressão e ajuda arquitetônica do estádio, Romarinho fez um gol que nos deu a vantagem. A última partida foi no Pacaembu, mas essa torcedora cautelosa não cantou vitória antes do tempo e assistiu nervosíssima àqueles 90 minutos que dariam o título inédito ao timão.

Obviamente, Dante não assistiu ao jogo, pois dormia. Na manhã seguinte comuniquei-lhe orgulhosa a vitória. Ele não acreditou. Liguei a tevê para comprovar. Ao assistir os melhores momentos ele se apegou a uma imagem em que Émerson estava sentado no gramado tentando morder a mão de um jogador do Boca que estava em pé ao lado dele. Olhou bem seriamente para minha cara e disse: “Viu, o Colintias perdeu, ele tava caído e o Boca tava em pé, o Boca ganhou.” Expliquei que aquilo não era MMA ou coisa que o valha, mas ele já tinha encontrado a solução para não admitir a derrota. Eu que não o incomodasse mais.

E cada vez que eu repetia que o timão era o campeão da Libertadores da América ele respondia indignado: “Não é nããããããão, é o Boca! Só o Boca que ganha.” A minha felicidade foi cerceada dentro da minha própria casa. O jeito foi aceitar os fatos; meu filho brasileiro e carioca escolheu torcer pelo Boca. E foi por essa desmedida e típica paixão de torcedor que Adrián e eu resolvemos levá-lo para conhecer o estádio do Boca; a lendária Bombonera.

Ao chegar, passamos pelo museu, onde Adrián mostrou a quantidade de Libertadores conquistada pelo time, finalizando assim a explanação com tom piedoso; “O Corinthians só tem uma, filho.” Aproveitei a oportunidade para esclarecer que o Independientes conquistou mais Libertadores do que o Boca. O meu fervoroso torcedor conheceu um pouco da história, dos títulos, troféus e personagens do clube. Os olhinhos esverdeados brilhavam e o sorrisinho satisfeito não lhe saia da cara.
E eis que se inicia a visita guiada pelo estádio. De saída o guia comentou que, na época em que “La Bombonera” fora concebida era comum os estádios serem em forma de ferradura. Anos mais tarde, quando o clube quis fechar a ferradura e dar uma cara mais padronizada e em consonância com os demais estádios, não foi possível, pois havia uma casa no caminho do projeto de expansão. Todas as casas vizinhas foram compradas, menos uma. O valor foi elevado várias vezes, mas o dono não cedia. Um dia, resolveram perguntar a ele a razão, já que o clube chegou à conclusão que não era dinheiro o problema. Realmente não, respondeu ele. O fato é que ele era torcedor do River Plate, portanto, não faria absolutamente nada que pudesse beneficiar o rival. Assunto encerrado.

Essa é apenas uma das particularidades da arquitetura. Ao entrarmos no estádio vimos onde fica a “12”, torcida organizada do Boca. Um lugar com vista privilegiada. Depois, o guia apontou os 3.000 lugares reservados à torcida visitante; o último andar da arquibancada, num ângulo de 45º em relação ao gramado. Péssimo. E dependendo do horário, ainda pega o sol na cara. Outro ponto interessante é que “La Bombonera” ainda conserva aquele espaço que, atualmente, já não tem mais nos estádio modernos; a geral. Os torcedores da geral ficam logo abaixo da torcida organizada, a “12”, e bem em cima do que? Do vestiário do time visitante. Sim. E eles pulam organizadamente...e gritam bem alto que é para os jogadores não conseguirem ouvir o treinador e, com alguma sorte, saírem dali completamente tontos e com a cabeça e os ouvidos zunindo. O vestiário do Boca? Ah sim...silencioso, como também o é o dos árbitros, para que possam relaxar.

A entrada em campo. O corredor vai do vestiário do Boca até o meio do campo, para uma entrada triunfal. O corredor do time visitante até o campo desemboca num dos escanteios. Para assegurar uma entrada tímida.

O ponto alto, no entanto, encontra-se na parte externa, quando os jogadores do time visitante ainda estão por ingressar no estádio. Essa é sem dúvida a mais ostensiva. O guia nos mostrou uma portinha e nos perguntou se a achávamos pequena. Sim, era. Depois esclareceu que jogadores um pouco mais altos, tipo 1,80 m., tinham que abaixar a cabeça para passar pela porta e, assim...fazer uma reverência obrigatória a “La Bombonera”. Não é genial? Depois fomos averiguar a porta por onde passam os jogadores do Boca...devia ter 4 metros de altura. Eu gostei tanto dessa arquitetura desportivamente incorreta. É de um humor ímpar.

Uma curiosidade a mais; o estádio tem esse nome porque o arquiteto contratado para a elaboração do projeto ganhou uma caixa de bombons e achou que o estádio se parecia com ela; daí o nome.

Bem, Dante adorou a visita e logo de início, para demonstrar todo o seu amor pelo clube, começou a cantar a música da torcida: “Si si señores, yo soy de Boca. Si si señores de corazón. Porque este año desde la Boca, desde la Boca sale el nuevo campeón”. O guia não acreditava e espantado o aplaudiu junto com alguns outros visitantes que ali estavam; a maioria esmagadora de brasileiros e corintianos. Perguntou-me quantos anos ele tinha e depois me informou que dali a pouco Dante estaria na “12”.

Ao final, quando o guia quis saber se alguém tinha perguntas a fazer, eu realmente pensei em perguntar se tudo aquilo tinha sido concebido por um arquiteto ou se foram “adaptações” posteriores. Decidi que não, que ficaria na dúvida e a compartilharia com você que me lê agora. Quando for a Buenos Aires vale a pena visitar “La Bombonera” e conhecer suas histórias e estratégias provocativas. “Dale Boca!


6 comentários:

  1. Ótimo texto, hermana! E que menino impiedoso e cheio de opiniões esse nosso Dante!

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    1. Obrigada, lindo. Sim...Dante é mesmo impiedoso e opinião é tudo o que não lhe falta. Ao saírmos dalí fomos para El Caminito almoçar, ele me olhou e disse como quem monta um silogismo perfeito: Mamãe...quem vai na casa do Boca, é do Boca. Você é do Boca.

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  2. Muito legal, adorei, Susana. Realmente o sangue fala mais alto, ah esses nossos meninos, a testosterona impera. Beijos e Parabéns!

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  3. Carla...realmente agente não manda nada. Esses meninos já vieram prontos. Nós é que temos que nos cuidar para não caírmos nas historinhas deles, que estão cada dia mais elaboradas. Beijinho.

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  4. Suzana, o tio Marcos adorou saber do mais novo companheiro de torcida do Boca!!! Beijos cheios de saudades. Luana Gallo

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